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A Reinvenção do bom selvagem

A arte contemporânea se apropria da estética indígena para refletir sobre narrativas não dominantes

by Eduardo Rolo
Registro de uma luta indígena em 1989, em montagem do coletivo Vídeo nas Aldeias - Foto: Divulgação

Registro de uma luta indígena em 1989, em montagem do coletivo Vídeo nas Aldeias – Foto: Divulgação

por Audrey Furlaneto

Já na entrada da 32ª da Bienal de São Paulo, está uma oca indígena. Quando se percorre a mostra no prédio modernista, não raro surge um artefato ou uma referência explícita a índios brasileiros. Num espaço central do pavilhão, telas reproduzem rituais, gestos e rotinas de 20 etnias do país num recorte de vídeos feitos em aldeias desde o início do século 20 até 2016. A instalação é obra do coletivo pernambucano Vídeo nas Aldeias, grupo de realizadores de cinema e indigenistas que há exatas três décadas iniciou uma jornada entre tribos para registrar suas culturas.

É a primeira vez que o coletivo participa de uma exposição de arte contemporânea. Sua presença na Bienal está alinhada ao tom ecológico que assume a curadoria desta edição, mas não deixa de ser forte símbolo de um momento em que a arte contemporânea vive uma febre de apropriação da cultura indígena. Em São Paulo, mostras recentes confirmam a tendência.

Fragmentos de rituais captados em tribos compõem obra “O Brasil dos Índios”, na 32ª Bienal - Foto: Divulgação

Fragmentos de rituais captados em tribos compõem obra “O Brasil dos Índios”, na 32ª Bienal – Foto: Divulgação

No Sesc Pinheiros, por exemplo, o curador Moacir dos Anjos alinhou adornos de diferentes etnias e obras de arte – de Lygia Pape a Paulo Nazareth – na exposição “Adornos do Brasil Indígena”, em cartaz até janeiro. Antes, Aracy Amaral já havia trilhado caminho semelhante na curadoria do 34º Panorama da Arte Brasileira, propondo um diálogo entre uma arte histórica do Brasil e nomes contemporâneos. E em 2014, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz e o curador Adriano Pedrosa também pensavam as relações entre o passado mestiço do Brasil e o tempo presente. “Histórias Mestiças”, no Instituto Tomie Ohtake, é uma espécie de ícone da tendência.

Fragmentos de rituais captados em tribos compõem obra “O Brasil dos Índios”, na 32ª Bienal - Foto: Divulgação

Fragmentos de rituais captados em tribos compõem obra “O Brasil dos Índios”, na 32ª Bienal – Foto: Divulgação

Numa conversa pouco antes da abertura da Bienal, o curador Jochen Volz me disse que, para além de seguir uma tendência conceitual, levar as questões indígenas para a mostra é uma estratégia para “deslocar o olhar para uma narrativa não dominante”. É por isso que lá está a oca de Bené Fonteles, artista distante do agitado circuito de galerias e museus. Na Bienal, ele construiu uma oca, onde pretende realizar debates com líderes indígenas, antropólogos e artistas que se relacionam com o tema, como Claudia Andujar, que também inaugurou no ano passado um pavilhão dedicado a seus retratos de índios no Instituto Inhotim, nos arredores de Belo Horizonte. O curador da mostra se diz interessado na “transversalidade” de Fonteles – ele se define também como ativista e xamã – e defende que, se a arte se pretende um lugar de novas formas de pensar o mundo, ela precisa mirar a cultura indígena.

Fragmentos de rituais captados em tribos compõem obra “O Brasil dos Índios”, na 32ª Bienal - Foto: Divulgação

Fragmentos de rituais captados em tribos compõem obra “O Brasil dos Índios”, na 32ª Bienal – Foto: Divulgação

O pensamento também ajuda a explicar a presença de trabalhos como o de Maria Thereza Alves. Casada com o americano Jimmie Durham, que é índio e usa a origem como pilar de sua obra plástica, a brasileira consultou lideranças em aldeias para refletir sobre a ideia de incorporar conhecimentos indígenas à educação no país. A partir das consultas, imaginou uma série de conferências fictícias com acadêmicos indígenas e confeccionou cartazes para os encontros imaginados. Os papéis são agora sua obra na Bienal.

Nesse contexto, a instalação criada pelo coletivo Vídeo nas Aldeias para a mostra paulistana soa como uma espécie de clímax da apropriação que a arte vem fazendo de linguagens indígenas. A obra, realizada neste ano e batizada “O Brasil dos Índios”, investiga um acervo de registros feitos em aldeias, frutos de um trabalho que se pretende mais antropológico que artístico. Realizadores de cinema, liderados por Vincent Carrel, que fundou o coletivo em 1986, não só gravaram, mas ensinaram índios a lidar com equipamentos de cinema. Há, portanto, vídeos feitos pelos próprios índios, de tomadas de massacres reais a roteiros de ficção. Se sua presença na Bienal celebra os 30 anos de incansável atuação nas aldeias brasileiras, também marca sua estreia no universo até então desconhecido da arte contemporânea.