Busca Home Bazaar Brasil

Artistas visuais refletem sobre o lado violento do amor

No cinema, eles criam uma nova visão do corpo

by Guilherme Rodrigues
Foto: Divulgação

Cena de “Heaven”, vídeo de Luiz Roque, na 32ª Bienal – Foto: Divulgação

por Silas Martí

Num futuro não muito distante, uma epidemia se espalha pelo mundo deixando um rastro de mortes inexplicáveis. Enquanto a população entra em pânico, governos tentam apontar culpados, e os transexuais se tornam alvo de perseguição como possíveis vetores da doença transmitida por contato sexual. No filme de Luiz Roque, agora na Bienal de São Paulo, o ano de 2080 surge como um espelho distorcido de cem anos antes, quando a Aids dizimou uma geração. Jornais e revistas falavam em peste gay, dada a velocidade com que o vírus se espalhou entre os homossexuais.

Mesmo ancorado numa discussão de forte pegada política, o mais novo trabalho de Roque não deixa de ser um delírio visual, uma espécie de ficção científica com cara de filme B dos anos 1980. Seu elenco quase todo formado por transexuais desfila por cenários que resvalam no kitsch, desarmando a limpeza e a austeridade das linhas modernas de um Oscar Niemeyer ou modernosas de um Ruy Ohtake. Roque, no caso, constrói um retrato ácido de um mundo apegado ao design de interiores mesmo na hora da morte, um universo de superfícies alisadas e resplandecentes que não deixam de estar a serviço da indústria do escândalo, do noticiário sensacionalista. Esses palácios burgueses ali contrastam, num choque luminoso, asséptico, clean, com os inferninhos infectos onde a liberdade foi se esconder.

Na fantasia distópica construída por Roque, o governo chega a criar um preservativo para o corpo todo, uma espécie de bolha plástica que envolve os amantes. São seres híbridos, de pele e látex, que se contorcem quase sem se tocar – uma alusão talvez às distâncias que se multiplicam, barreiras impostas por um mundo aparelhado e mediado pelo silício. “Heaven”, esse paraíso às avessas criado pelo artista, é uma espécie de lente de aumento apontada para uma nova estética de dedos que deslizam sobre telas de luz fria. Sua câmera, no caso, lança um olhar corrosivo sobre o léxico do Bluetooth, do wi-fi, do Snapchat, do WhatsApp que se alastra em ondas invisíveis por ambientes elétricos, apaziguados na superfície e calcinados na raiz.

Cena de “O Peixe”, de Jonathas de Andrade - Foto: Divulgação

Cena de “O Peixe”, de Jonathas de Andrade – Foto: Divulgação

Seus transexuais, seres em transição construídos com hormônios, já não vivem às margens da sociedade, a não ser diante da ameaça de uma nova doença. Mas questões de classe também pesam. Suas madames trans não passam pelo perrengue enfrentado pelas menos abastadas, já que podem comprar remédios e antídotos na forma de um spray que lembra laquê aplicado com doses de um prazer quase libidinoso. No fundo, Roque constrói uma distopia sedutora para desnudar a violência enfrentada por uma camada da sociedade que luta para se reafirmar numa nova identidade sexual. Sua visão vasculha os poros dos corpos desses personagens que não costumam frequentar o cinema, dando novo peso à noção plástica de um cinema da pele, aquilo que cineastas como François Ozon, Gaspar Noé, Bruno Dumont e David Cronenberg fazem tão bem.

Nesse ponto, o trabalho de Roque não está distante do novo filme de Jonathas de Andrade, que também estreou na atual Bienal. O artista aqui volta a embaralhar os registros de documentário e ficção para retratar um ritual inventado. Andrade imagina uma colônia de pescadores em que os peixes são acariciados pelos homens logo que são fisgados, agonizando num afago asfixiante. Mesmo que lembre, na superfície, um registro neutro, a obra de Andrade erotiza esse momento ao varrer a pele dos rapazes com certo langor. Não há pressa no registro, e as gotas d’água escorrendo por corpos moldados pelo esforço físico, a quase nudez dos homens e a sensação de calor de uma fotografia faiscante levam sua pescaria à arena do sexo.

Muito de perto, existe um embate entre a pele curtida de sol desses homens e as escamas lustrosas dos peixes. Enquanto se debatem em espasmos de dor, os bichos provocam no mesmo instante uma reação brusca dos músculos dos pescadores. Esse olhar magnético, inebriado pelo corpo, não é novo na obra de Andrade, muito menos sua forma de embaralhar atração e repulsa. Mas essas estratégias visuais já testadas de antemão ganham dimensão plástica arrebatadora no cinema, uma linguagem que se firma entre artistas do país como canal potente de expressão.