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Bienal bate recorde de presença de artistas lusitanos

Ato evidencia laços estreitos entre as cenas de São Paulo e Lisboa

by redação bazaar
“Coração Independente Vermelho”, de Joana Vasconcelos - Foto: Divulgação

“Coração Independente Vermelho”, de Joana Vasconcelos – Foto: Divulgação

por Isabella Lenzi

Nos últimos meses, cerca de 50 artistas de Portugal têm exposto seus trabalhos em São Paulo. Além da mostra “Portugal Portugueses”, no Museu Afro Brasil, da 32ª edição da Bienal e a exposição paralela à mostra, “O Futuro Será uma Réplica”, no consulado português, muitas instituições e galerias contam com a participação de artistas lusos. Para além de uma língua comum, Portugal e Brasil partilham muito mais.

O pensador português Eduardo Lourenço definiu a língua portuguesa como uma “chama plural”. Uma língua, ao mesmo tempo, histórica, herdada, em constante transformação e atemporal. Mais do que um patrimônio, nossa língua expressa uma cultura ou muitas culturas unidas. Ela é uma mistura de camadas, sotaques, tempos e expressões. Mas é também um instrumento que não é neutro, é uma realidade em que o sentimento e a consciência nacional se fazem “pátria”. É muito difícil definir o que é o português hoje e do que trata a arte contemporânea portuguesa. Assim, evocar a língua e suas diversas sobreposições é uma forma de evocar o povo que a fala. O português, o brasileiro, o angolano, o cabo verdiano.

Reflexões sobre identidade, a condição do estrangeiro e os conceitos de fronteira estão presentes na obra desses artistas, assim como os afetos e desafetos gerados no casamento entre Brasil e Portugal, do século 15 até hoje. Cada um é traçado e atravessado por múltiplas fronteiras.

 

Instalação de Cristina Ataíde - Foto: Divulgação

Instalação de Cristina Ataíde – Foto: Divulgação

No fundo, é a língua que nos inventa, e também os encontros, as trocas e as experiências que determinam quem somos e como nos relacionamos com o mundo. Em poucos momentos as trocas entre Brasil e Portugal, em especial na área da cultura, foram tão intensas e naturais quanto hoje. A partir de diversas expressões artísticas, essa história compartilhada pode ser revista. A colonização, as marcas da escravidão e o preconceito que segue presente, cicatrizes que por muito tempo ficaram soterradas, esquecidas e apagadas, podem, agora, vir à tona.

Questões como essas, além de uma incerteza e um olhar irônico em relação ao tempo atual e seus desdobramentos permeiam a produção dos cinco artistas portugueses selecionados para a 32ª Bienal de São Paulo – Carla Filipe, Gabriel Abrantes, Grada Kilomba, Lourdes Castro e Priscila Fernandes. O país estrangeiro com mais artistas nesta Bienal é Portugal. Na mostra “O Futuro Será uma Réplica”, desenvolvida pelo Consulado de Portugal, é possível ver outras obras e projetos, além dos presentes no pavilhão no Ibirapuera.

Fotografia da série “Explorers”, de Didier Faustino - Foto: Divulgação

Fotografia da série “Explorers”, de Didier Faustino – Foto: Divulgação

Filipe opera na fronteira entre a alta cultura e a cultura popular, entre a referência erudita e o punk. Se na Bienal a artista apresenta uma horta em que plantou espécies em vias de extinção, vegetais comestíveis pouco conhecidos e plantas que surgem em locais inesperados, no consulado ela lança um livro de artista que discute as transformações políticas e sociais vividas na Europa nos últimos anos. Lourdes Castro cria desenhos, serigrafias e colagens que unem crítica, ironia e vida pessoal. Já Priscila Fernandes questiona a sociedade hiperprodutiva e excludente que vivemos propondo uma recusa ao trabalho e uma ode ao ócio e à preguiça. Grada Kilomba desnuda o racismo no dia a dia e desmantela visões sobre o colonialismo. Se em suas obras passado e presente coincidem e deixam a dúvida do quão para trás está a dura realidade da escravidão e do preconceito, Gabriel Abrantes, em seus filmes, desestabiliza e distorce certezas e identidades fixas. A contradição de estereótipos e a ambiguidade são formas encontradas pelo artista para questionar verdades estabelecidas e mitos nacionais.

Mas o verdadeiro foco na produção portuguesa estará no Museu Afro Brasil, com a exposição “Portugal Portugueses”. Mais de 40 artistas lusos participam da mostra que une contemporâneos e modernistas. Essa é a segunda exposição da trilogia desenvolvida por Emanoel Araújo, que trata das principais raízes da cultura brasileira – africana, portuguesa e indígena. A mostra não se propõe a construir uma história da arte portuguesa, muito pelo contrário, deixa clara a impossibilidade de esgotar o assunto diante da complexidade da produção e da quantidade de autores. O destaque é dado para Maria Vieira da Silva, Paula Rego, Helena Almeida e Lourdes Castro, mulheres que constituem a base da contemporaneidade portuguesa e que colocaram a arte do país no circuito internacional com obras que se conectam com o Brasil e a África. Na mostra, elas dialogam com artistas consagrados como Jorge Molder e Vasco Araújo, jovens artistas contemporâneos como Sofia Leitão, Tiago Alexandre e Teresa Braula.

“The American Sunset”, de Rui Calçada Bastos - Foto: Divulgação

“The American Sunset”, de Rui Calçada Bastos – Foto: Divulgação

A exposição demonstra que esses artistas não tocam só em questões relacionadas à crise em Portugal, à colonização e ao território. Memórias afetivas e momentos íntimos também figuram em muitos dos trabalhos. Mas, pensando no contexto brasileiro, é natural buscarmos ecos da relação entre os dois países e com o continente africano. Quando pensamos em Portugal lembramos sempre dos homens que decidiram sair de um país tão pequeno, em condições tão adversas, e se lançaram ao desconhecido em busca de outros mundos. Desses portugueses que, séculos atrás, aportaram na Ilha de Vera Cruz. Portugal também é isso, esse espírito aventureiro, que olha além.

No ano passado, as artistas Rita Natálio e Joana Levi – Natálio portuguesa e Levi brasileira – apresentaram na Caixa Cultural seu projeto Museu Encantador, que discutiu o encantamento que existiu e existe entre os dois países. Em uma das performances que integra o projeto, as artistas reavivaram a história da colonização, simulando os primeiros encontros entre portugueses e índios. Mas, neste encontro idealizado pelas artistas, ao invés de serem construídos padrões fixos determinando quem coloniza e quem é colonizado, o que proliferava era a mistura. Devemos seguir assim, trocando com Portugal, mas sempre de forma crítica e equilibrada.

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