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Em ensaio exclusivo, Bárbara Wagner discute o centro e periferia

Destaque da próxima Bienal de São Paulo, a fotógrafa é uma das mais relevantes de sua geração

by redação bazaar

por Lilia Mortiz

Durante muito tempo periferias ou subúrbios foram entendidos como sinônimos fáceis de “falta”, “pobreza”, “carência”. Analisadas como o resultado inesperado e imprevisto do fenômeno da urbanização crescente e desenfreada, que tomou o país a partir dos anos 1930, essas regiões também foram classificadas como “adjacentes”. Eram locais “dependentes” dos centros mais ricos e pujantes, sendo sua realidade entendida como mera decorrência, imediata e quase mecânica.

Seguindo a mesma toada, passamos a usar expressões e termos, como “dar voz” ou mesmo “incluir”, com o objetivo de definir políticas públicas pautadas por um pressuposto básico e silencioso segundo o qual as populações que habitam esses lugares – distantes na imaginação – teriam em comum a ideia do “sem” – sem cultura, sem infraestrutura, sem horizonte, sem destino.

Faltava entender, porém, como funcionava a corda ou a bateria desse relógio. Não há centro sem periferia e viceversa. Ou seja, ambas as regiões fazem parte de uma única lógica, e familiarizar uma delas significa estranhar a outra, sendo o oposto também legítimo.

E já faz algum tempo que –a despeito das nossas desigualdades sociais e econômicas continuarem profundas e persistentes – fomos surpreendidos (invadidos mesmo) pela evidência de que as populações que habitam esses locais não só “sobrevivem” a seu cotidiano. Elas vêm produzindo culturas que não pedem passagem, tradução ou intervenção. São, nesse sentido, “excessivas”, “superlativas” e pouco caudatárias das nossas vogas – não refletem, mas criam costumes, valores, modas.

Aliás, a evidência dessas muitas narrativas textuais, musicais, visuais e corporais vai desenhando um país plural, diverso, se bem que não menos tenso ou violento. O fato é que – não só no Brasil– as periferias têm virado centro e invertido nossa geografia simbólica mais confortável, que opõe, com certa dose de leviandade, popular a clássico; tradicional a erudito; cafona a elegante e assim por diante. Por sinal, vale reconhecer que essas dicotomias revelam mais sobre nós mesmos (e acerca de nossos temores revestidos de certezas) do que dos outros –falam desses tantos “eles” entre “nós”.

Pois me parece que é esse mundo, em que não existem mais grotões isolados –se é que algum dia existiram–, que a obra de Bárbara Wagner explora com imensa sensibilidade e força. Nesse universo, estamos todos conectados e relendo uns aos outros. Por meio de cantores de brega funk e brega romântico, de cabeleireiros e dançarinos que restam anônimos (só para nós que não convivemos com eles) surgem novos retratos de um outro Brasil, que é também o mesmo. As cores são estranhas, a despeito de aguçarem nossas lembranças; as corporalidades marcam compassos distintos, por mais que digam respeito a uma linguagem que nos é familiar; as roupas coloridas delimitam um território contíguo, em sendo tão variado.

Essa conversa animada, entre manifestações populares e indústria cultural, já havia sido realizada por Bárbara Wagner na série “Brasília Teimosa”, por exemplo, quando ela retratou bairros populares brasileiros e encontrou padrões de gosto e de consumo, assim como borrou classificações fáceis que dividem, de forma cartesiana, a concepção de vulgaridade daquela de estilo –bom estilo. Já na série “A Corte”, a fotógrafa inundou os limites do espetáculo tradicional do maracatu para mostrar como nesses cortejos tudo é “mais”. Afinal, em vez de só devolver o que deles se espera, esses passantes recriam seus mundos e tantos outros.

Transformando o precário em possível e desejável, recriando e dando espaço para um equilíbrio frágil, mas persistente em suas contradições, Bárbara Wagner explora essa linguagem “teimosa” de nossa sociedade, que se explica mais pela lógica do “e”, do que pela suposta do “ou”. Somos isso e aquilo –violentos e cordiais; modernos e antigos; populares e contemporâneos; misturados e separados.

Nas fotografias de Bárbara Wagner, esse personagem, que conhecemos e desconhecemos, surge mais complexo e contraditório do que nunca. Tanto que, depois de olhar essas séries fotográficas, a sensação é de que existe alguma lógica que faz do “Brazil”, Brasil. Quem sabe essa seja apenas uma aspiração, um projeto utópico. Mas a vertigem que o trabalho de Wagner provoca advém menos do fato de suas imagens serem “ref lexo” desse nosso contexto, difícil de definir. Sua origem está na arte de fazer das imagens a mais pura reflexividade. Elas são tanto produto como produzem a realidade que fingem representar. Aí está uma conta de somar em que dois mais dois são cinco, quem sabe cinco e meio.