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Toneladas de Pó de Lais Myrrha

Artista constrói a maior obra da atual Bienal de São Paulo, um estranho monumento à desigualdade brasileira de cada dia

by redação bazaar
Obra Dois Pesos, Duas Medidas, da artista Lais Myrrha - Foto: divulgação

Obra Dois Pesos, Duas Medidas, da artista Lais Myrrha – Foto: divulgação

Por Felipe Molitor

Montada pela primeira vez 2010, a obra Pódio Para Ninguém, da artista Lais Myrrha, ecoa de forma retumbante no Brasil de hoje. A instalação de 1.500 quilos de pó de cimento simula um pódio de eventos esportivos. Na versão da artista, a base onde os vencedores recebem os louros desmancharia com o primeiro que ali subisse – depois de desenformado, o material fica comprometido. Não é só pelos Jogos Olímpicos recém-realizados no país – e seu legado questionável – que o trabalho pode ser ressignificado. Uma possível alusão à conturbada conjuntura política do país, com a consumada deposição de uma presidente eleita, faz com que a obra de Myrrha ganhe mais peso ao criticar as entranhas do poder, apontando para a sina brasileira de constantes rupturas.A artista participa agora da 32ª Bienal de São Paulo.

Desde o fim dos anos 1990, Myrrha vem criando obras que buscam tensionar a rigidez com que convenções sociais se organizam e se estabelecem. Essa pesquisa atravessa disciplinas como a história, a geopolítica, a comunicação e a antropologia. É por meio dos objetos e instalações que o trabalho da artista ganha potência, dando corpo a situações em que a estabilidade se desequilibra.“Essas formas e situações acabam por colocar em questão as convenções e os parâmetros que essas mesmas disciplinas ajudaram a criar e estabelecer”, disse a artista. “Elas nos ajudam a lembrar que convenções e parâmetros não são inocentes, tampouco permanentes.”

Ela segue a mesma toada na obra que montou na Bienal. “Eu tive muita liberdade, fiz o projeto que queria fazer. Até porque, o tema já me é muito familiar, minhas obras lidam com a dimensão da incerteza.Até por isso que fui chamada”, conta.A instalação Dois Pesos, Duas Medidas é formada por duas torres de materiais distintos – uma erguida com tijolos e concreto, elementos clássicos da construção civil urbana, enquanto na outra são empilhados materiais tradicionais de culturas indígenas e africanas.A obra ocupa o vão do pavilhão de Oscar Niemeyer, um ponto nobre do prédio visto a partir de seus três andares.

“Ela partiu de uma pesquisa de diferentes culturas cons- trutivas, questionando o impacto social, histórico e ambiental de nossas edificações”, diz Júlia Rebouças, uma das responsáveis pela Bienal, demonstrando que a intervenção dialoga com trabalhos da mostra que discutem ecologia e diferentes maneiras de habitar.“Sua obra aponta para a potência de construção, mas também revela a condição de ruína existentes nesses elementos.”

Há três anos, Rebouças esteve organizou a primeira mostra individual da artista em São Paulo. A exposição reunia obras realizadas num arco de seis anos, entre elas “Pódio Para Ninguém”, passando por vídeos e desenhos. No ano seguinte, numa segunda individual, Myrrha concebeu no Pivô, centro cultural no primeiro andar do edifício Copan, em São Paulo, uma obra que simulava, em menor escala, um dos maiores desastres da construção civil do país. O trabalho reconstituía a “tragédia da Gameleira” a partir de seu único registro fotográfico, quando as vigas de um projeto de Niemeyer despencaram. “Sabia que estava mexendo num vespeiro dada a importância de Niemeyer para a arquitetura e as esferas do poder político e simbólico no Brasil”, escreveu a artista em resposta a arquitetos que, antes de visi- tarem a exposição, tacharam a ação de oportunista. A repercussão reforçou a contundência do projeto, realizado num lugar também marcado pelo abandono de Niemeyer – insatisfeito com os rumos da obra, o arquiteto relutava em se as- sumir como um dos verdadeiros autores do Copan.

Na Bienal, de volta a um prédio de Niemeyer, seu trabalho ganha novos contornos. Dois Pesos, Duas Medidas surge como totens vacilantes de culturas que, embora convivam num mesmo território, não se relacionam e nem se tratam com igualdade. Myrrha diz que, embora os módulos da obra tenham a mesma altura e profundidade, é de outra régua que ela quer tratar. “O trabalho fala de uma justiça que não é igual para todo mundo. Existe uma justiça desigual, diferente, que não é neutra.”