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A popularização do congelamento de óvulos já é comparada ao advento da pílula anticoncepcional

Na nova revolução feminina, mais do que decidir se quer, a mulher escolhe quando engravidar

by elav

 

Foto da sérieA Frozen Child Wish, da artista holandesa Monique Bröring

Foto da série A Frozen Child Wish, da artista holandesa Monique Bröring

Por Anna Paula Buchalla

A advogada Karina Martins está prestes a completar 40 anos. Tem muitas certezas na vida e algumas dúvidas, entre elas, a de não saber se quer ser mãe. Para evitar arrependimentos no futuro, optou por congelar óvulos em uma clínica especializada em São Paulo. Divorciada desde o ano passado, investiu mais de R$ 10 mil no projeto e esticou, assim, o prazo para a possível maternidade. “Ainda não estou certa dos meus planos e encaro isso como um seguro de gravidez”, conta Karina, que ampliou as chances de vir a ter filhos por meio da fertilização in vitro. Seus óvulos estão mergulhados em uma solução de nitrogênio líquido à temperatura de 196 ºC negativos, só esperando a sua decisão.

A história de Karina se repete nas clínicas de fertilização do País. Nos últimos dois anos, o número de pacientes que recorreram aos bancos para conservar óvulos cresceu consideravelmente, e alguns registraram aumento de até 200%. O que move essas mulheres é o desejo de postergar a maternidade em prol da estabilidade econômica ou de priorizar a carreira. Muitas, apesar da vontade de serem mães, ainda não encontraram o parceiro ideal. Há ainda o caso de mulheres com problemas graves de saúde, como câncer, que precisam se submeter a tratamentos pesados, mas desejam preservar a fertilidade para o futuro. A maioria está na faixa dos 35 a 40 anos. Após essa idade, a quantidade e a qualidade dos óvulos caem consideravelmente. Aos 45, a chance de a mulher engravidar naturalmente é de 1% ao mês. Sem falar no risco aumentado de síndromes genéticas, como a de Down.

O congelamento de óvulos se tornou possível no final dos anos 1980, mas as taxas de sucesso eram baixas. Na última década, no entanto, com o uso da vitrificação, que promove o resfriamento rápido das células (no máximo, em cinco minutos), a taxa de aproveitamento dos óvulos se mostrou alta – cerca de 90%. “Mas as mulheres não podem esquecer que a qualidade deles começa a diminuir a partir dos 35 anos, sendo muito impactante após os 38. Portanto, é aconselhável realizar o congelamento antes disso ou o mais cedo possível”, diz o ginecologista Pedro Monteleone, diretor da clínica de reprodução humana Monteleone e coordenador técnico do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas, de São Paulo.

Submeter-se ao tratamento não é exatamente simples: para iniciar a coleta, a mulher recebe injeções de hormônios por até 15 dias para estimular o crescimento e o amadurecimento dos folículos, que dão origem aos óvulos. Os que têm mais chances de fecundação são escolhidos para passar pela vitrificação, como é chamado o processo de congelamento rápido. É preciso ficar claro, porém, que nenhum tratamento de reprodução garante a gravidez. “Nos casos de bom prognóstico, a chance por ciclo de tratamento é próxima a 40%, ou seja, muitas vezes temos que repetir esse ciclo da reprodução assistida em busca do sucesso”, diz Monteleone. “O número sugerido hoje para oferecermos boa probabilidade de êxito futuro é de aproximadamente 20 óvulos congelados, o que, em média, é alcançado em três ciclos de estimulação da ovulação”. O preço é alto: o processo de vitrificação custa entre R$ 7 mil e R$ 15 mil. Também é preciso pagar uma anuidade para manter os óvulos armazenados nos laboratórios, e esse valor pode chegar a R$ 1 mil por ano.

Foi durante a primeira e única gravidez que a argentina Valeria Campodonico, então com 31 anos e vivendo em São Paulo, descobriu que tinha um tipo de tumor na placenta. A gestação foi interrompida e ela teve que passar por uma histerectomia para a retirada do útero. Sabendo que não poderia mais engravidar, congelou nove óvulos. Em 2010, quatro anos mais tarde e vivendo nos Estados Unidos, Valeria usou seus óvulos para a fertilização in vitro – Lucas, hoje com 5 anos, foi gerado no útero da irmã de Valeria. Ela teve ainda Julia, de quase 1 ano, gerada em outra barriga de aluguel (a lei americana permite a gravidez em mulher que não tenha parentesco com a doadora, ao contrário da legislação brasileira). “Tenho outro óvulo armazenado e tenho certeza de que terei mais um filho”, afirma.

Eis uma grande conquista da mulher moderna: decidir como e quando quer ter filhos e por um prazo estendido. Tem a seu favor também o fato de o útero não perder a capacidade de gerar filhos até a menopausa, por volta dos 50 anos. “A fertilidade da mulher diminui com a idade, mas a gravidez tardia tem se tornado comum, como é o caso da atriz Carolina Ferraz, que teve seu segundo filho aos 46 anos”, diz o ginecologista Domingos Mantelli, de São Paulo. Há, inclusive, quem compare o congelamento de óvulos ao advento da pílula anticoncepcional, que foi a base da revolução sexual dos anos 1960. Se décadas atrás a mulher tomou para si o poder de querer engravidar ou não, agora pode escolher quando e de que forma quer dar à luz um filho.