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Os perfumes feitos para durar

Os clássicos de ontem e hoje que se tornaram icônicos ao deixar suas marcas na história

by Guilherme Rodrigues

Por Anna Paula Buchalla

Foto: Divulgação

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O QUE FAZ de um clássico um clássico? Quando se trata de literatura, o escritor Italo Calvino sentenciou algumas das melhores definições sobre o assunto: os clássicos são aqueles livros sobre os quais você costuma ouvir pessoas dizendo “estou relendo…”, e nunca “estou lendo…”. Um clássico é um livro que, a cada releitura, oferece uma sensação de descoberta como na primeira vez. Um clássico nunca esgota tudo o que tem a dizer. Fazendo-se um paralelo com a perfumaria, a sensação é de que falamos exatamente da mesma coisa. Um perfume clássico é aquele que não cansamos de usar, em que cada gota aplicada sobre a pele é como se fosse a primeira.

Para um perfume ser um clássico, não basta estar na vanguarda de uma direção totalmente nova. Em seu novo Guia de Perfumes 2017, a consultora de fragrâncias Renata Ashcar resumiu o que todos os frascos que fizeram – e ainda fazem – história têm em comum:“Eles reescreveram os rumos da perfumaria, seja pelo uso de ingredientes inusitados, por apresentarem novas direções olfativas ou por quebrarem tabus”.

Difícil não pensar em Chanel No 5, que, com seu lançamento em 1921, causou uma revolução.“Foi o perfume que deu início ao vínculo da perfumaria com a moda”, conta Renata.E,claro,com a recomendação de Coco Chanel de se criar um “perfume de mulher com cheiro de mulher”, ganhou a aura de um dos mais sensuais da história.Sim,passados mais de 90 anos,o perfume segue na lista dos mais vendidos e dos mais icônicos do mundo. Mix perfeito de tecnologia inovadora e cheiro único,que estimula os sentidos todos.

Mas por que alguns perfumes permanecem por gerações, enquanto outros somem sem deixar rastro, como se nascessem destinados a desaparecer? Uma das respostas, segundo quem pesquisa o assunto,é o senso de timing perfeito de certos perfumistas ao lançarem o cheiro certo no momento exato.Um exemplo? Joy, criado para o designer Jean Patou pelo “nariz” HenriAlméras, em 1929. Seu lançamento foi uma reação ao crash da bolsa de valores de Wall Street e à depressão que veio com a quebra financeira, naquele mesmo ano. Apesar do preço alto, Joy surgiu como indulgência à onda de negatividade da época. Com matérias-primas extremamente caras, uma única onça (29,5 ml) do perfume tem nada menos que 10.600 flores de jasmim e 336 rosas. Um apelo atemporal, que sobrevive a qualquer tendência. O mesmo vale para Diorissimo, que, criado por Christian Dior com a ajuda do renomado perfumista Edmond Roudnitska, captou surpreendentemente o clima de romantismo no ar dos anos 1950, quando surgiu no mercado, arrebatando paixões.

Mas não há criação perfeita – de cheiro, timing e inovação – que resista ao mercado, sem que se torne um best-seller.Vários dos clássicos de hoje, revisitados ou não, como Shalimar, de Guerlain (primeiro oriental da história, com toque intenso de baunilha e frasco em forma de leque, que invoca os jardins de Shalimar, atual Paquistão), Miss Dior (uma ode à feminilidade desde os anos 1940), L’Air du Temps, de Nina Ricci (uma evo- cação à paz e à felicidade traduzida como nenhuma outra para dentro de um frasco), e Opium, de YSL (uma fragrância alta- mente subversiva), continuam a circular fervorosamente no mercado até hoje. São perfumes em perfeita harmonia com o zeitgeist.Também não são nostálgicos – isso fica a cargo dos amantes do retrô, fascinados pelo glamour de uma época que já foi. Os clássicos sobreviveram a tudo isso. E há, claro, os clássicos recentes: Angel, de Thierry Mugler, de 1992, revolucionou o mercado com suas notas gourmand, e 212, de Carolina Herrera, de 1997, que traduz a efervescência de Manhattan, com notas leves e frescas. Como bem resumiu o perfumista francês Fran- çois Demachy à Bazaar:“O que faz um perfume ser clássico é uma série de quesitos, do frasco ao cheiro. Seu poder de sedu- ção é imaterial. Ele se distingue pela sua poesia e por sua intan- gibilidade”. É o que faz de um clássico um clássico.

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