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A mágica de Nina Kraviz

Ou como uma dentista russa virou um dos nomes mais cultuados da música eletrônica

by redação bazaar
Foto: Camille Blake

Foto: Camille Blake

Por Gustavo Abreu

Nina Kraviz diz existir um aspecto divino em sua profissão. “É trabalho de um mágico. As pessoas precisam de um líder atrás dos decks”, atesta a russa, cultuada no underground como um dos principais nomes da música eletrônica atual. “Conheço DJs bons tecnicamente e outros melhores em selecionar discos. Mas, na minha opinião, o mais importante é a habilidade de conectar a música, as pessoas e o local em uma coisa só. O trabalho de um DJ é manusear o balanço energético de um clube. E a ferramenta mais poderosa para fazer isso é a mente.”

São 23h25 em Melbourne, no meio de uma longa world tour em que ela chegou a fazer 9 shows em 10 dias. Mas isso não impede que Nina atenda o telefone com um animado “bom dia”, em português, ao falar à Bazaar. Ela está ansiosa em voltar ao Brasil entre os headliners do renomado Dekmantel Festival, cuja primeira edição fora de Amsterdã será realizada em fevereiro em São Paulo. Porém, antes disso, ela ainda tem viagens marcadas para o Japão, Inglaterra e Itália – uma rotina que a impede de ter um lugar para chamar de casa. “Tenho uma aptidão por mudar de lugar o tempo todo. Mesmo depois de anos fazendo isso, sentar num trem ou avião é algo incrível para mim”, conta.

Nina nasceu em Irkutsk, na Sibéria, onde o inverno chega a -49ºC. Trabalhou e estudou durante nove anos como dentista antes de dizer ‘chega’ e se dedicar full time à música. A paixão pelos discos herdou de pai e mãe, que a criaram à base de Charlie Parker e Led Zeppelin. Também foi apresentadora de rádio e repórter em um zine de música, quando alimentou o vício em vinis. Em Moscou, se arriscou pela primeira vez em um mixer, apaixonada pela produção de música eletrônica de Chicago e Detroit. Apadrinhada por Greg Wilson, lenda da dance music britânica, Nina lançou seus primeiros trabalhos em 2007. Desde então, virou nome obrigatório em festivais (Coachella, Sónar) e clubes como Berghain (Berlim), Output (NovaYork) e o extinto Fabric (Londres).

“Minha música evoluiu, mas não mudou, só se tornou mais abrangente”, analisa ela, conhecida por mixar, sem medo, diferentes vertentes da eletrônica, como acid, house e techno.“Gosto de trabalhar com texturas. Não ligo para gênero ou BPM. Pro- curo nas músicas uma conexão metafísica. Não existe distância entre a disco e o techno”, exemplifica. O DNA musical dela está nessa narrativa criada a partir de sonoridades e épocas distintas – e é sua forma de costurar as músicas que tanto ama.“Nunca parei minha pesquisa musical. Por isso, sempre que tenho a chance de comprar discos, estou lá.”

Foto: Camille Blake

Foto: Camille Blake

Como produtora, a russa lançou o álbum de estúdio Nina Kraviz (2012) e o EP Mr Jones (2013). O maior sucesso, até então, é a faixa Ghetto Kraviz, em que ela inclusive canta. O lado DJ, no entanto, fala mais alto e, nos últimos dois anos, ela tem se dedicado a fazer mixes. Em 2015, veio seu set da série DJ Kicks (da lendária gravadora !K7 records). Em 9 de dezembro, ela lança o set fabric 91: Nina Kraviz, com 41 faixas – a maioria delas raridades, hits undergrounds russos dos anos 1990 ou novidades de seu próprio selo musical, o трип (leia “trip”).

Assim como em seus sets ao vivo, na vida, Nina não gosta de fazer planos: “Porque, se as coisas não acontecerem do jeito que eu queria, a frustração é maior”, justifica. Porém, em 2017, ela gostaria de começar um novo disco, continuar sendo uma adulta responsável e ser uma pessoa melhor do que foi no ano anterior. Também não pretende deixar de viajar, conhecer pessoas especiais e espalhar sua mágica pelas pistas de dança. “Minha parte favorita é quando o dia acaba, vou para o aeroporto e tenho a sensação de que tive um dia excelente em uma cidade nova, comi comida local, aprendi palavras em um novo idioma… Sento-me no avião e estou pronta para decolar. Olho para fora, vejo que está escuro e fico satisfeita e feliz.”