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Ana Maria Tavares reiventa o léxico da arte

Exposição da artista inaugura na Pinacoteca em novembro, revisitando três décadas de sua trajetória

by Victoria Ranieri
‘Airshaft V’, de 2008 - Foto: divulgação

‘Airshaft V’, de 2008 – Foto: divulgação

Por Gabriela Longman

Sentado num carrinho motorizado, o visitante do museu desliza na velocidade de um travelling de cinema enquanto ouve uma trilha sonora de bossa nova e lounge music dos anos 1960. Criada em 1997, a obra –ou experiência– “Visita Guiada com Amigo J9 (Para Edemar)” servirá de entrada para a exposição que Ana Maria Tavares inaugura na Pinacoteca em novembro, revisitando três décadas de sua trajetória.

A missão de montar uma retrospectiva não é simples –algumas das instalações essenciais de seu percurso artístico dialogavam com a arquitetura dos lugares em que foram realizadas e várias delas somam mais de mil metros quadrados. A revisão antológica exige o que a artista define como uma “tradução” das experiências plásticas para outra escala e contexto.

“Não sou uma artista que faz objetos. Meu trabalho tem uma relação de experiência mais total, saindo do campo da arte em direção ao campo da vida”, diz, mencionando, entre outras, a instalação “Atlântica Moderna: Perus e Negros”. Esse conjunto monumental, que incluía vídeo e peça sonora, ocupou o MuseuVale, emVitória, há dois anos. “Não quero transformar peças que tinham função utilitária em esculturas.”

Entre as obras já confirmadas para ocupar sete salas contíguas da instituição estão “Exit 2”, de 2001, uma escada em aço que remete aos não-lugares e aos dispositivos de vigilância dos aeroportos, e uma instalação inédita, encomendada para ocupar o espaço conhecido no museu como octógono. Outras definições acontecerão nos próximos meses, em diálogo com a curadora da mostra, Fernanda Pitta.

Acima, instalação ‘Pallazzo. Desviante Triple Dia L’, de 2011 - Foto: divulgação

Acima, instalação ‘Pallazzo. Desviante Triple Dia L’, de 2011 – Foto: divulgação

Explorando as relações entre natureza, paisagem, arquitetura e modernidade, parte importante do trabalho de Tavares vai no sentido de olhar de forma crítica para o modernismo brasileiro e suas implicações. Não à toa, duas de suas grandes instalações feitas no final dos anos 1990 ocupavam espaços icônicos da arquitetura moderna –a Pampulha de Oscar Niemeyer (“Porto Pampulha”, de 1997) e o MuBE de Paulo Mendes da Rocha (“Relax’o’visions”, de 1998). Numa exposição mais recente, “Natural – Natural: Paisagem e Artifício”, a passagem de Roberto Burle Marx por Fortaleza serviu como ponto de partida para uma investigação plástica sobre paisagismo e botânica envolvendo artesãs e comunidades locais.

“Sempre trabalhei com uma quantidade enorme de pessoas.Vou para a fábrica para desacelerar o tempo e fazer o trabalho virar quase artesanal”, explica a artista, cuja pesquisa com materiais se estende da tecnologia de ponta (aços e alumínios com texturas especiais) à recuperação de técnicas ancestrais (tecidos, tramas, bordados).

Nascida em Belo Horizonte, Tavares se formou em artes visuais antes de partir para o mestrado no Art Institute of Chicago. Também na Pinacoteca, sua primeira individual, “Objetos e Interferências”, realizada em 1982, já flertava com influências do minimalismo e da arte conceitual. “Nos anos 1980, quando todos os meus amigos estavam pintando, eu tomava como ponto de partida uma relação com o espaço.” Outra vertente do trabalho que estará presente no museu paulistano é a da confluência entre as artes visuais e a palavra escrita em séries como “Air-condi- tioning Life”, que dialogam com a tradição da poesia concreta. “Desire, Deserve, Delight, Still Life, Sparkling Water, Still Water, Sparkling Life” é uma dessas construções verbais que a artista recita sem hesitação.

Também nessa linha estão os “Noturnos (Da Série Caça Palavras)”, de 2004, superfícies de aço inox e alumínio ostentando palavras como “Stillnox”,“Credit Card”,“Sunset” ou “Sexo”, esses “dispositivos usados por todos para, saindo da alienação do cotidiano, entrarmos em outros estágios também muitas vezes alienantes, porém menos angustiantes”,como definiu o crítico Tadeu Chiarelli, agora também diretor artístico da Pinacoteca.