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Dos relicários

O lançamento de uma coleção de móveis assinada pelo artista Carlos Vergara

by Guilherme Rodrigues
Foto: Divulgação

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Por Agnaldo Farias

A existência desses móveis habitados por pequenos enigmas, e por isso reunidos sob o título Relicários, deve-se a confluência dos movimentos da designer Etel Carmona com o artista plástico Carlos Vergara, ou aqui seriam outra coisa, cada um deles simultaneamente artista e designer pois, afinal, não seria isso um encontro? O ponto em comum entre Etel e Vergara é que ambos saem em peregrinação pelo mundo na construção de suas pesquisas poéticas.

Carlos Vergara e Etel Carmona Foto: Divulgação

Carlos Vergara e Etel Carmona Foto: Divulgação

Etel viaja pelo país em busca de madeiras certificadas, embrenha-se em sítios ermos, distantes da sua base em São Paulo, errância que só cessa momentaneamente quando se depara com toras e tábuas que trazem consigo a potência das árvores extraordinárias de onde foram extraídas. A vida dessas madeiras prossegue ao longo das viagens nos dorsos dos caminhões, dentro da fábrica onde enfim desembocam: a grande marcenaria de janelas altas por onde filtra o sol destacando a levíssima nuvem de pó liberada pelos gumes das serras, cercada de árvores e pássaros, cenário surpreendente pela proximidade da metrópole e que Etel, muito a propósito, trata como santuário.

As madeiras descansam rodeadas pelos mestres marceneiros que, no convívio com elas, vão percebendo e reconhecendo suas idiossincrasias, texturas, densidades, cheiros. E quando chega o momento de transmuta-las em mesas, cadeiras, armários, biombos e o que mais for, eles, em respeito a sua integridade, não lhes cravam pregos, o que seria uma violência, e, seguindo os projetos de Etel, dela mesma ou daqueles que ela representa, cortam-lhes com apuro, cientes de suas fibras; alisam-nas por meio de uma sucessão hierárquica de lixas, juntam-lhes as partes pela via de cavilhas.

Foto: Divulgação

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Vergara é essencialmente um viajante, define-se como tal. Desde cedo o nomadismo foi constitutivo de seu processo de trabalho, quando irrompeu o interesse sobre o nosso país, curiosidade que combinava geografia com história. Ao passo em que foi aumentando a amplitude de seus deslocamentos, passou a usar pigmentos naturais e a realizar monotipias, decalques e frotagens sobre a pele nua do chão, como também sobre paredes, pisos, elementos construídos, como a boca de um forno de barro, móveis.

Por que monotipia? Segundo ele próprio arrisca, teria sido ela a expressão mais ancestral: o homem que tingiu sua mão com a terra colorida e prensou-a aberta sobre a parede, deixou sua marca estampada à vista dos outros. É mesmo provável que tudo tenha começado nesse gesto, nessa descoberta primeva da capacidade de nos transferirmos nas coisas. Fazer uma monotipia é atualizar esse momento mágico, um mergulho vertical no coração do tempo humano. Daí a constância com que o artista se ajoelha para realiza-las. A reverência necessária para a possibilidade da epifania.

O artista segue fazendo pinturas que têm monotipias por base, mas não só. O apelo das distâncias, uma das facetas da sua curiosidade, fez com que ampliasse o arco das suas andanças. Primeiro cidades e ruínas brasileiras, depois Pompéia, Istambul, tantas outras cidades; uma catedral, uma mesquita, um mercado, tudo isso passou a ser visitado por Vergara, que nesses lugares buscava algo que lhe fosse inesperadamente imantado. Se pudesse, deles traria a atmosfera, os sons e os aromas, a bulícia, a calma e o silêncio, dado que ao menos alguma coisa da luz e da arquitetura ele obtém nas vistas achatada que as fotografias propiciam. Mas, acima de tudo, ao lado das monotipias que fabrica enquanto viaja, ele traz esses pequenos objetos-imã, todos eles a seu modo misteriosos, encantadores, infinitos.

Vergara encontrou Etel e ela produziu os móveis – biombos e mesas -, em cujos delicados compartimentos acuradamente projetados, ele depositou seus objetos, suas relíquias, e em cujas frestas e aberturas enxertou suas monotipias. Etel, é claro, era a pessoa mais indicada: uma designer de móveis nada mais é que uma fabricante de paisagens domésticas; mesas, cadeiras, armários, aparadores, camas etc, com suas conformações geográficas variáveis, são os seres com quem coabitamos, comunhão que nos tranquiliza pela simbiose crescente, pela familiaridade.

Estamos nos objetos e eles em nós, compreensão que só a convivência permite. E Etel encontrou em Vergara alguém que compreendeu o alcance de sua mágica, capaz de conceber com ele e para ele os relicários onde ele foi depositando suas relíquias, essas preciosidades entrevistas nas brechas, descobertas no puxar de uma pequena gaveta, no desengate de duas camadas que se pensava uma. No corpo de cada móvel que compõem o relicário de Etel e Vergara uma sucessão de instantes sobrenaturais, uma concisa coleção de surpresas.



Agnaldo Farias possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Braz Cubas (1980), mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas (1990) e doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (1997). Atualmente é Professor Doutor do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Crítica da Arte e Curadoria, atuando principalmente nos seguintes temas: arte contemporânea, arte e arquitetura, estudos curatoriais, exposições de arte.