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Fernanda Torres fala que tipo de mãe e atriz é Fernanda Montenegro

Fernanda Torres fala sobre a mãe, que se identifica mais como operária do que dama do teatro. Aos 88 anos, a atriz concilia TV com preparativos de seu livro de memórias

by Guilherme Rodrigues

Por Ana Ribeiro

Fernanda em retrato de agosto de 2017 - Foto: Daryan Dornelles

Fernanda em retrato de agosto de 2017 – Foto: Daryan Dornelles

O ano era 1982. Fernanda Montenegro estava em cartaz com As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, texto de Rainer Werner Fassbinder com elenco exclusivamente feminino. Era a protagonista, a poderosa e tirana estilista Petra, que experimenta o lado vulnerável das relações humanas ao se apaixonar pela modelo Karin. Quando Karin (papel de Renata Sorrah) a abandona, Petra entra em desespero. (Para quem se espantou com Fernanda Montenegro fazendo uma lésbica na novela Babilônia, de 2015: ela já tinha feito outra no teatro 30 anos antes).

A peça cumpria temporada de sucesso e Fernanda Torres, sua filha na vida real, foi chamada para substituir a atriz que interpreta a filha de Petra. Na primeira apresentação, na cena do surto de Petra – em que ela está completamente embriagada de dor e de vodca –, Fernandinha olha para a mãe caída no meio do palco, vê “aquela doida em transe”, e pensa: “Minha mãe é mesmo um ser de outro planeta, que faz essa profissão de maluco, e que, toda noite, entra nesse estado.”

A atriz como Mercedes, sua personagem na novela O Outro Lado do Paraíso

A atriz como Mercedes, sua personagem na novela O Outro Lado do Paraíso

Fernanda Montenegro, 88 anos, está no ar em O Outro Lado do Paraíso, a atual novela das nove na Globo. Continua falando com a filha mais de uma vez ao dia, se encontra com ela sempre que possível, mas a novela exige não só a rotina de gravação, como também a de decorar as falas, o que toma muito tempo – e aflição. “Minha mãe tem um processo de decorar tortuoso, que vem do teatro, ela se nega a apenas lembrar das falas”, explica Fernandinha.“Ela as repete até introjetar, até engolir as frases. Mesmo quando subimos a serra, no fim de semana, carrega o texto e se tranca no quarto para decorar. É das lembranças mais antigas que tenho dela, na cama, cercada de papéis. Dona Fernanda trabalha duro, sempre trabalhou – e sempre esteve presente.”

Muito da formação de Fernanda no ofício de atriz vem do Teatro dos Sete, grupo criado em 1959 pelo diretor italiano Gianni Ratto com os atores Sérgio Britto, Italo Rossi e Fernando Torres, pai de Fernandinha e do diretor Claudio Torres, que foi marido de Fernanda a vida toda e faleceu em 2008. “O Ratto exigia disciplina de estivador, horas e horas de ensaio, até a exaustão. Minha mãe diz que sente muita falta dessa rotina dura, de ficar 12 horas numa sala de ensaio. Ela adora ensaiar.”

Única brasileira indicada ao Oscar de Melhor Atriz (em 1999, por Central do Brasil), Fernanda Montenegro não se acomoda no papel de “grande dama do teatro brasileiro”. Filha do torneiro mecânico Vitorino, herdou dele o prazer de artesão.“Mamãe é uma mulher modesta, vinda de família modesta, não tem luxos, é muito pé na terra, trabalha até hoje com a voracidade de quem tem de ganhar o prato de comida.Acho que se vê como operária, uma operária do teatro.”

Fernanda Torres e Fernanda Montenegro na apresentação do filme Casa de Areia,
 no Festival de Berlim, em 2006 -

Fernanda Torres e Fernanda Montenegro na apresentação do filme Casa de Areia,
 no Festival de Berlim, em 2006 -

Como mãe, Fernanda não restringiu, não cobrou, não cerceou. “Ela tem horror de ser invasiva. Deixou que eu e meu irmão fôssemos o que nós quiséssemos ser. Nunca houve pressão de notas na escola, de sucesso, de diploma, ela não botou nenhuma carga dessas sobre a gente”, diz Fernandinha. “Muitas vezes me acudiu, me ajudou, disse a coisa certa na hora certa. ‘Não tenha pena de você mesma!’, ela me disse um dia, e aquilo me tirou da autocomiseração. Ela tem pavor de autopiedade.” Fernanda é avó de Joaquim e Antonio, filhos de Fernandinha, e de Davi, filho de Claudio Torres. Trata os netos como adultos, fala de igual para igual.“Ela foi criada numa família que preparava criança para a realidade da vida, não tinha esse negócio sagrado da infância, da fantasia.” Ao mesmo tempo, algo da infância ficou.“Tem um ar de menina, na intimidade, que se preservou nela.”

Fernanda Montenegro é realmente incansável, está finalizando um livro de memórias, a ser lançado pela Companhia das Letras no primeiro semestre de 2018. Ela tem muita história para contar. Mas não dá exatamente para prever o próximo capítulo: não se repetir é uma busca eterna.“‘Os primeiros 20 anos são fáceis’, ela sempre me disse.‘Difícil é se reinventar, difícil é perseverar’.”