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Um bate-papo com Donatella Versace

A estilista completa 20 anos à frente da marca e fala à Bazaar sobre o momento atual da moda, o irmão Gianni e feminismo

by Guilherme Rodrigues
Donatella Versace. Foto: Divulgação

Donatella Versace. Foto: Divulgação

Não consigo me lembrar de um momento que a moda tenha sido tão excitante quanto hoje”, diz Donatella Versace. Vice-presidente e estilista do império fashion que leva o sobrenome da família, ela vê a criação do sistema see now, buy now, os desfiles mistos e as mudanças nos calendários da moda como uma boa fase para a grife italiana. “Todo mundo pode falar sobre moda hoje em dia. E, ainda por cima, todos podem comprar a coleção já na hora do desfile! A internet e as mídias sociais mudaram tudo. Os sistemas antigos estão em colapso”, fala a big boss. E continua: “Para muitas pessoas, isso é terrível. Elas querem que tudo na moda volte a ser o mesmo, como se os smartphones nunca tivessem existido. Eu sou exatamente o oposto.” Mas quem é essa mulher resoluta de 62 anos, 1,65m de altura e com um inglês carregado de charme italiano, que chama a atenção pela allure platinada, rigidez e riso fácil? Do reconhecimento da marca nos anos 1980, passando pela tragédia familiar nos 1990 até a consagração total na década seguinte, a italiana Versace teve períodos de ascensão e queda, mas nunca baixou a guarda. E Donatella tem uma participação crucial nisso.

A história quase todo mundo já conhece: Donatella cresceu na Reggio Calabria, sul da Itália, junto com seus três irmãos, Santo, Gianni e Tina (que morreu ainda criança). A mãe, Francesca, era costureira de vestidos e educou os quatro filhos ao lado do marido, proprietário de uma loja de eletrodomésticos. A profissão da matriarca acabou influenciando Gianni, que, por sua vez, influenciou Donatella. Após os estudos de arquitetura, Gianni seguiu para Milão e acabou fundando a grife homônima em 1978, aos 32 anos. Ela, dez anos mais nova, foi chamada pelo irmão para cuidar das relações públicas e campanhas publicitárias, e, para isso, não hesitou em largar os estudos de línguas em Florença. Santo, o mais velho, seguiu atrás da dupla para cuidar das finanças. Pronto, a tríade estava formada: a Versace nasceu ali. O sucesso não demorou a chegar: começaram as inúmeras campanhas publicitárias com Richard Avedon e Bruce Weber, assim como os desfiles disputadíssimos com as supermodels Cindy Crawford, Kate Moss, Claudia Schiffer, Helena Christensen, Milla Jovovich, Naomi Campbell. A adoração da marca por celebridades, como Prince, Elton John, John Bon Jovi, Lady Di e Madonna, aconteceu rápido, e isso só para citar alguns.

Donatella Versace. Foto: Divulgação

Donatella Versace. Foto: Divulgação

Logo após, veio a colaboração com figurinos de teatro e balé – Gianni era amante fervoroso das artes – e a criação das linhas Versus e Atelier Versace. O lançamento de perfumes, cosméticos, óculos, joias e peças de design de interiores chegou em seguida. Ele misturou seda com couro, malha metálica com plástico, bordados com estampas. O estilista italiano, amado por uns e detestado por outros (que o acusavam de vulgar), fez uma verdadeira revolução no jeito de pensar e ver moda.“Ele era um visionário e inventou não somente um look, mas um jeito de ser. Ousadia e coragem estão no DNA da marca até hoje. Faz parte de nós mudar o jeito como as coisas são”, dispara Donatella.

A grande musa inspiradora do irmão, a mesma que lhe fazia duras críticas à época – dizem que as brigas entre os dois eram homéricas, mas que acabavam em grandes jantares animados -, era a mais indicada para assumir a maison após o assassinato do estilista em Miami. Pausa. Momento de dor. Grande dúvida paira no Palazzo Versace, ex-casa de Gianni e sede da marca em Milão. Lembrando que, com o testamento do estilista, a irmã ficou com 20% da empresa, Santo com 30%, e Allegra, filha de Donatella com o modelo Paul Beck – à época com 11 anos -, com 50%. Daniel, seu outro filho, ficou com a imensa coleção de arte do tio.

Donnie, como ela é chamada pela família, arregaçou as mangas e impôs seu estilo sexy, poderoso e imponente à grife – quem não se lembra do vestido com decote fenomenal de Jennifer Lopez no Grammy? – com inspiração barroca. Deu certo. Com um começo difícil nos anos 2000 – a estilista caiu nas drogas, perdeu o controle e a empresa quase declarou falência -, hoje, passados 20 anos da morte de Gianni, os esforços da musa platinada parecem ter surtido efeito. O volume de negócios de 2015 da empresa foi de 645 milhões de euros (atualmente, a marca vendeu 20% de seu capital ao fundo de pensão americano Blackstone).

Como uma maison ancorada em valores familiares e em símbolos tão arraigados na cultura italiana faz para lidar com as mudanças no mundo digital e na sociedade? A obrigação de se atualizar e de rever os conceitos se impõe. E Donatella é superassídua das redes sociais. “A maior mudança é como nos conectamos com as pessoas que amam a Versace. Antes, elas não tinham total acesso à marca; agora, podem assistir ao nosso desfile ao vivo! E ainda comprar tutto subito as peças que sempre sonharam”, diz. “De repente, as pessoas têm o poder. As portas da moda costumavam ser fechadas para a maioria das pessoas. Agora, elas foram abertas Escancaradas mesmo!”

O fato de ser mulher conta e muito na posição de Donatella. Num momento em que se fala bastante de feminismo, direitos iguais para homens e mulheres e empoderamento feminino, ela já conhecia a questão na prática antes de muita gente ter nascido. Única mulher no board de membros executivos da empresa, a estilista é firme em seus propósitos.“O poder das mulheres é tudo para mim. Elas sempre foram a força motriz por trás das minhas coleções. Para a temporada de outono, pensei muito sobre o que nos torna poderosas e fortes. E creio que é a unidade, a diversidade, a igualdade. Hoje, essa unidade é mais importante do que nunca. Quero usar a moda como uma plataforma para incentivar as mulheres a lutarem por isso hoje e nas gerações futuras.”

Fã fervorosa de Michelle Obama, Donatella se alegra ao lembrar das boas relações com a ex-primeira-dama americana.“Fiquei muito honrada em vesti-la, porque ela é uma das pessoas que mais admiro no mundo. Por todas as coisas que ela fez pelos Estados Unidos e por todos nós e, especialmente, por ter empoderado e inspirado muitas mulheres”, declara ela, lembrando que a Versace criou o vestido rosa metálico que a senhora Obama usou em seu último jantar oficial.

Sempre em cima de saltos altíssimos, olhos maquiados de preto, silhueta marcada e um fraco por couro e tachas, não é difícil imaginar qual profissão teria se não fosse a dona da Versace. “Provavelmente estilista de imagem para rockstars!”, diverte-se a boss. O que não seria difícil, já que suas campanhas já foram estreladas por Lady Gaga, Prince e Madonna. Outra característica que descre- ve muito sobre sua personalidade é sua palavra preferida: subi- to (imediatamente!). Com uma posição dessas, não deve ser raro ouvi-la proferir a palavra a seus assistentes nos corredores do palácio daVia Gesù.

Gianni Versace com Naomi Campbell e Carla Bruni. Foto: Divulgação

Gianni Versace com Naomi Campbell e Carla Bruni. Foto: Divulgação

A decisão, pela segunda vez, de fazer uma pausa nos desfiles de alta-costura da Atelier Versace e transformá-los em apresentações (o mesmo plano foi adotado de 2004 a 2012) faz parte da estratégia da marca? “Eu queria mostrar a couture de uma maneira nova, para que as pessoas pudessem ver o inacreditável trabalho do Atelier Versace de perto. Em um desfile, as modelos passam como um relâmpago, e os vestidos se tornam parte de uma história de passarela. Quero mudar esse formato, para que cada peça seja vista como uma criação única”, explica.

Outra mudança recente é o nome por trás da criação da Versus, cargo atualmente ocupado pelo cantor Zayn Malik. Jovens designers são minha paixão absoluta. Já trabalhei com alguns dos nomes mais incríveis da moda de hoje. Mas não gosto apenas desses que todo mundo já ouviu falar.Adoro trabalhar com gente nova”, garante.“Jovens graduados vêm de faculdades de design de moda de todo o mundo para trabalhar no meu estúdio, compartilhando sua paixão, energia e criatividade. Gosto de conhecer estilistas quando estão se formando e ver como eles crescem. Na moda, existem os designers que são famosos. Mas também há muitos mais nos bastidores, que fazem da moda o que ela é hoje. Muitos deles não querem sua própria marca – querem trabalhar nos bastidores. A contribuição deles é crucial em todas as grifes.”

A ideia de remexer nos arquivos da maison para a coleção masculina Verão 2018, exatos 20 anos após a morte de Gianni, surpreendeu muita gente – afinal, a Versace atual é Donatella. Mas sua decisão parece ter sido tomada após Kendall Jenner ter usado peças vintage da marca no Festival de Cannes. E uma Kardashian cria o burburinho tutto e subito, claro! A linha veio com os famosos afrescos greco-romanos, estampas de época, logos molto coloridos. Um deleite para os fãs da marca e um tema interessante em tempos de revival absoluto do logo de marcas quarentonas.“Eu queria fazer algo muito íntimo para essa temporada masculina, então fizemos o desfile da Versace nos jardins do Palazzo Versace. Essa apresentação foi ‘Versace puro’! As memórias contidas nos arquivos da marca são muito preciosas para mim. Eu queria esperar o momento certo antes de olhar para elas de novo. Para mim, essa coleção extremamente pessoal foi feita no momento perfeito”, revela.Após a homenagem, ela, a estilista, olha para frente.“Houve muitas vezes em que quis começar tudo de novo, mas, com os momentos ruins, adquiri uma força imensa e criei novas paixões e energias. Isso tudo me parece tão longe… Parece que foi há muito tempo. Meu foco agora é somente no futuro.”

Outro assunto nos círculos de moda é o papel de Penélope Cruz como Donatella na terceira temporada de “American Crime Story: The Assassination of Gianni Versace“, que estreia no próximo ano. A atriz espanhola, que encarna com perfeição a estilista, declarou amar e respeitar Donatella e que teve sua autorização para interpretá-la. Na nossa entrevista, a matriarca não quis falar sobre o assunto. Em 2013, Donatella também apareceu em um filme não-autorizado e de mau gosto intitulado “Os Irmãos Versace“, interpretada por Gina Gershon. Um longa com Antonio Banderas no papel de Gianni também estaria em preparação. Será que a ficção reflete realmente a verdadeira história desse clã envolto em luxo, mistério e poder?