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Voz feminina e artistas de países em guerra dominam Bienal de São Paulo

No ano em que o tema é a incerteza, são 47 artistas mulheres contra 34 homens

by redação bazaar
Obra da sul-coreana Koo Jeong A apresentada na França - Foto: Divulgação

Obra da sul-coreana Koo Jeong, apresentada na França – Foto: Divulgação

por Kátia Mello

Fortemente marcada por nomes jovens e diálogos politizados, o pavilhão de curvas de Niemeyer abriga a 32ª edição da maior Bienal brasileira. São 47 artistas mulheres contra 34 homens. Montada sob o tema Incerteza Viva, a edição trata a imprecisão como motor da renovação e a arte como condutora dessa questão. “Devido à instabilidade política, econômica e social do País, ‘incerteza’ virou a palavra do ano. Isso faz com que o tema se torne cada vez mais relevante, pois a arte se alimenta dessa ideia, do acaso, da improvisação. A incerteza é um viés que gera o novo. Enquanto a mídia, a política, a igreja e a família são instituições que evitam essa palavra e seu sentimento, a arte vive dela”, diz o curador Jochen Volz à Bazaar.

A maior participação feminina, Volz revela, foi proposital. “Chamamos mulheres que não faziam parte de um cânone oficial das artes. É importante olhar para essa produção que não foi vista, ou foi vista e não foi reconhecida. As mulheres têm muito a dizer dentro da nossa proposta”, afirma. Artistas de países em guerra ou pós-guerra, como Alia Farid, do Kuwait, Günes Terkol, da Turquia, e Rayyane Tabet, do Líbano, marcam presença ao lado de destaques nacionais, como Lais Myrrha e Maria Thereza Alves, ambas envolvidas com a questão indígena.

A obra da mineira Lais Myrrha propõe o diálogo entre a construção civil e a dos povos originários do Brasil. São duas torres, de cerca de 4 metros de altura, que preenchem todo o vão do prédio. Uma feita de materiais comuns à sociedade urbana, como cimento, tijolos, vergalhões e telhas, e outra montada a partir de elementos rurais, como barro, bambu, palha e madeira. As metáforas que podem ser lidas nas esculturas são infinitas. “O genocídio é sistemático até os dias de hoje.Esse trabalho tem associação com a dimensão arquitetônica, mas a ideia principal é pensar como dois tipos de cultura – uma representada pela indústria da construção e a outra pela cultura de povos nativos, como kamayurás, aimorés e ianomâmis – são tão diferentes”, esclarece Myrrha. “O modo de pensar a construção em relação ao ambiente, a força de trabalho, as formas de existir e viver; a cultura dessas sociedades é muito diferente. Esse trabalho está aqui como um portal que leva a essas indagações”, continua.

Outra obra que promete fazer sucesso é da artista Koo Jeong A. A sul-coreana construiu uma pista de skate fluorescente de 17 metros de diâmetro ao lado do prédio da Bienal, para uso dos skatistas e patinadores. “Gostaria de fazer uma obra relevante para a população local e que a empoderasse. Minha ideia é fazer uma imagem da dignidade humana dentro do espaço público, que é um desafio significativo para o século 21”, afirma Koo. A arte se estende inclusive à cozinha da Bienal. O cardápio oferecido aos visitantes do Pavilhão tem embasamento ecológico e se sustentará com matéria-prima da horta do Parque Ibirapuera, além de fontes orgânicas e de agronegócio sustentável