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Simplificar é preciso

Grávida do quarto filho, a empreendedora Bia Antony conta como recriou seu estilo de vida, eliminando o acúmulo e valorizando a conexão com a natureza

by Guilherme Rodrigues

Em depoimento a Luciana Franca

Bia Antony grávida de João.

Bia Antony grávida de João.

NASCI EM BRASÍLIA, filha de mãe potiguar e pai carioca. Cresci passando longas temporadas na casa dos meus avós, que, no meio da cidade, tinham uma plantação de cana e nuvens de vagalumes. Nas férias, partíamos para Natal, para ficar com a família da minha mãe. Lá desbravava dunas, lagoas e tesouros abandonados. Com os meus primos descobria que o mundo era maior do que o Plano Piloto.

Com 20 e poucos anos, me mudei para Paris para estudar e curar um coração partido. Lá lia sobre ayurveda e meditação, arrumava a casa pensando em feng shui e queria tatuar a Roda do Dharma. Mas continuava perdendo tempo e dinheiro com roupas e restaurantes da moda. Torrava a mesada que meus pais me mandavam em dez dias para levar uma vida que não me preenchia. Minha sorte era um amigo que me emprestava o suficiente para garantir vinho e cigarro até o fim do mês.

Foi em Paris que conheci meu ex-marido (o jogador Ronaldo Nazário) e engravidei da Sophia. Depois de um tempo, voltamos para São Paulo e tivemos a Alice. Foram seis anos em que moramos numa casa incrível, com teto verde, horta orgânica e aquecimento solar. Mas também estavam lá a cerca elétrica, a guarita de segurança e dez empregados. Quando nos separamos, decidi que queria viver de outro jeito. Desde pequena fui íntima de pais de santo, tomava passe em centro espírita e fazia constelação familiar. Mais tarde, conheci a cabala, a radiestesia e os florais. Apesar de toda a ajuda, demorou para que eu aprendesse a seguir a minha intuição e reconhecer que meu bem-estar é o parâmetro que preciso para fazer melhores escolhas. Casei com o Marcelo (Ciampolini). Juntos mudamos para uma casa menor, do meu tamanho. Lá as meninas subiam na pitangueira e o pé de mexerica rendia as melhores caipirinhas. Conhecemos os passarinhos, ficamos amigos de um gavião e vimos nossos jabutis criarem uma família. Hoje moramos em um apartamento, mas acho que por pouco tempo.

A filha Maria Júlia

A filha Maria Júlia

Simplificar foi diminuir, mas também repensar os meus valores. Combato o acúmulo: o que não amo, sai. Se, na primeira gravidez, comprei cada item de um enxoval enorme, hoje passo para frente as roupas e móveis das meninas, ao mesmo tempo em que recebo o que foi dos filhos das amigas. Dou preferência a peças de qualidade e com matéria-prima natural. Essas escolhas podem custar mais caro, porém garantem que cada roupa possa durar por gerações e trazer consigo memórias.

Meus filhos me ensinam sobre a vida e também sobre mim mesma. Passei a ter uma relação mais inteligente com comida quando me tornei macrobiótica para curar o refluxo da minha segunda filha. Isso incluiu pensar no produtor dos alimentos, na forma como eles são cultivados e o impacto que eles têm na nossa saúde e no meio ambiente. Com o tempo, pude ser menos rígida.Volta e meia, tenho vontade de comer um hambúrguer ou brigadeiro de colher. E tudo certo porque entendo meu corpo, as necessidades dele e as exceções são bem-vindas para a rotina não se tornar chata.

Maria Alice e Maria Sophia

Maria Alice e Maria Sophia

As meninas estudam em uma escola Waldorf, que valoriza o feito à mão e os materiais naturais. Por causa delas, a gente aprendeu que podia criar nossas coisas. Foi o Marcelo, por exemplo, que fez as mochilas, enquanto eu costuro as fantasias do teatro. Isso nos levou a um curso de marcenaria e agora fazemos nossa estante de livro e novos brinquedos. A gente sabe que as nossas filhas vão se interessar pelo YouTube ou pelas American Girls. Ao invés de só controlar o uso, mostramos outras possibilidades de vida e damos espaço para que elas construam uma relação com a natureza.

Procuro ferramentas que me ajudem a viver de forma mais consciente. Fiz cursos de análise dos ciclos dos produtos, permacultura e economia para transição. Quem mais me ensina, no entanto, são as plantas, os bichos, as pedras e as estrelas. Observá-los me leva a entender que não há separação entre nós e tudo o que é vivo. Para mim, o caminho para uma existência com mais sentido acontece a partir da conexão com a natureza, comigo mesma e com os outros.