Busca Home Bazaar Brasil

A estilista Flavia Aranha une processos artesanais para criar uma moda 100% sustentável

by Guilherme Rodrigues

Por Silvana Holzsmeister

Foto: Caio Ramalho

Foto: Caio Ramalho

ERA 2011 quando Flavia Aranha encarou quatro horas de barco pelo Rio Tapajós até a comunidade de Urucureá. Apesar de isolado em plena Floresta Amazônica, o lugar é conhecido pela cestaria colorida com pigmentos feitos com folhas, frutas e sementes. “Uma artesã muito simples me levou para a mata, colhemos folhas de crajiru e fizemos o tingimento no quintal da casa dela”, recorda, com notável carinho, a experiência. Rica em ferro, essa planta libera um tom exuberante de vermelho,o mesmo que será um dos destaques do Verão 2018. E que ela apresenta em breve, num desfile dentro do Projeto Estufa. O evento marca a estreia de uma linha repleta de peças mais sofisticadas, sem abrir mão das linhas puras e atemporais que viraram sinônimo da sua marca.

É em jornadas como essa, com um quê de aventura, que Flavia engrossa seu inventário de matérias-primas e se emociona com um Brasil que pouca gente conhece – rico em um conhecimento ancestral que está longe dos grandes centros não somente pela distância geográfica.Apesar de não ter sido sua primeira incursão pelo interior brasileiro em busca de artesãos, ela conta que foi nessa viagem, pelo oeste paraense, que entendeu como o País é abundante.“E como a gente não tem acesso a isso”,reforça.Ao todo, ela dialoga com mais de 20 cooperativas e microempresas de vários estados, que contribuem para transformar suas criações em produtos que vestem consumidores em busca de conforto e estilo vindos de processos transparentes e 100% slow fashion.

Foto: Caio Ramalho

Foto: Caio Ramalho

Em vez de esconder seus fornecedores como estratégia de mercado,Flavia vem agregando à marca recursos que contribuem para divulgar o trabalho dos artesãos. Desde o final do ano passado, todas as peças da label feminina que leva seu nome, e recentemente da linha masculina, chamada José, trazem na etiqueta um QR Code com acesso a pequenos filmes apresentando o processo de produção hand made que começa na colheita do algodão sem agrotóxicos, presente em 50% do que vai para as araras. Em um deles,as mulheres da cooperativa A Maria, criada pela japonesa Mayumi Ito na região mineira de Muzambinho, que tecem e tingem algodão e seda artesanalmente.

“São ofícios que geram independência financeira e protagonismo feminino, principalmente”, afirma a estilista, que não abre mão de passar temporadas nas comunidades agregando design para transformar em moda técnicas manuais. É o caso dos lindos casacos e coletes feitos em chinil que fizeram sucesso neste inverno. A técnica é desenvolvida noVale do Urucuia – região imortalizada por Guimarães Rosa – em parceria com as artesãs da Central Veredas de Artesanato. Para o Verão, ela prepara novas surpresas, como as peças decoradas com paetês de cerâmica feitos no Vale do Jequitinhonha (MG), e seu primeiro tecido impermeável, de algodão com estampa impressionista obtida com rosas verdadeiras, em impressão botânica, acrescida de uma camada bem fina de látex natural da Amazônia.“Ele estará em trench coats”, adianta. Uma parte do tingimento de suas coleções acontece na loja-ateliê localizada na Vila Madalena, garantindo tonalidades e efeitos exclusivos, que ela costuma ensinar nas várias oficinas realizadas ali mesmo.

Foto: Caio Ramalho

Foto: Caio Ramalho

Todo esse cuidado e coerência lhe rendeu o primeiro selo B – conferido a empresas sustentáveis – dado a uma empresa de moda brasileira. O sucesso de Flavia, entretanto, vem da paixão pelas técnicas artesanais aliada a um afiado olhar empresarial e à mente aberta à tecnologia têxtil. Num intercâmbio de conhecimento com a USP, conseguiu elevar para escala industrial o uso de corantes naturais. A estilista também pretende transformar em fixador para a cor o breu-branco, resina extraída da Almécega, uma árvore encontrada em várias regiões e bastante utilizada na área de beleza.“Meu processo criativo é baseado na investigação, com a inovação olhando para o tradicional”, diz ela.

Descendente de portugueses, a designer cresceu entre os bordados da Ilha da Madeira e as rendas do Nordeste, e vendo a mãe cuidar da horta, na fazenda da família, no interior de São Paulo. Numa viagem de pesquisa ao Oriente, ficou chocada com as condições das oficinas de costura, ao mesmo tempo que se encantou com a alegria das pessoas e as cores dos tecidos indianos, tingidos com técnicas ancestrais. Na volta, passou para carreira solo, focando em métodos artesanais e sustentáveis.Após oito anos, ela não só se transformou em referência como planeja fortalecer o conceito da marca com peças-desejo.A gente aguarda ansiosamente