por Ana Ribeiro
Eloína ainda não era “Dos Leopardos” quando inaugurou uma posição que seria para sempre de glória no carnaval brasileiro. O ano era 1976. Ela havia acabado de voltar de viagem com os seios que colocara em Hong Kong – “Ainda hoje a parte mais bonita do meu corpo”–, e as pernas que, na época, abalavam Paris.
Joãosinho Trinta, que estreava como carnavalesco da Beija-Flor, a convidou para ser a primeira rainha da bateria de que se tem notícia. Eloína se provou pé quente: a escola foi a campeã daquele ano – e dos dois subsequentes. “O prefeito do Rio, Marcos Tamoio, me disse que eu era a mulher mais bonita da avenida.

Em 1976, pela primeira vez como rainha de bateria da Beija-Flor – Foto: Divulgação
Quase caiu quando soube que eu era um travesti.” Eloína nasceu Edson, foi criada pela madrinha no Catumbi, região central do Rio de Janeiro. “Aos 7 anos, eu já era da pá virada, gostava de brinco, de batom. As pessoas alertavam minha madrinha: ‘Jacira, esse menino não vai dar boa coisa.’ Ela me apoiava.”
Aos 14, arrumou o primeiro emprego, como camareira da vedete Nélia Paula no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes.“Ela era um estrondo”, exclama. Depois, trabalhou com outra vedete, chamada Eloína, e o nome pegou. Em 1966, aos 21 anos, passou num teste promovido pelo produtor Carlos Machado para se apresentar nas boates de Copacabana.

No Teatro Alaska, no Rio de Janeiro, em 1989 – Foto: Arquivo Pessoal
“Meus números eram sempre de samba, gostava de fazer a Elza Soares.” Logo virou atração do espetáculo Boas em Liquidação, no Teatro Rival, estrelado por Sônia Mamede e Luz Del Fuego. O dono do Rival, na Cinelândia, era Américo Leal, avô da atriz Leandra Leal, que filmou no teatro cenas do documentário Divinas Divas (de 2017), em que Eloína aparece ao lado de Rogéria, Valéria, Jane di Castro, Camille K., Fujica de Holliday, Marquesa e Brigitte de Búzios, consideradas a primeira geração de artistas travestis do Brasil.
Eloína já era estrela dos palcos aqui e em Paris – de onde foi e voltou ao longo de 30 anos – quando teve uma ideia mirabolante. Seria um show de strip-tease masculino, com homens lindos desfilando cada vez menos vestidos e que, no final, entrariam em cena todos de pênis eretos. A ex-vedete Brigitte Blair, dona do teatro Serrador, no centro do Rio, encarou a aventura.
Eloína saiu atrás do elenco – precisava de oito ou nove rapazes que topassem participar. A primeira apresentação foi marcada para uma noite de sexta para sábado, à meia-noite. A própria Eloína rodou o Rio distribuindo panfletos anunciando a atração, batizada de A Noite dos Leopardos. A plateia lotou, o show foi um sucesso, e o resto é história.
“Foi tudo muito rápido, tudo muito louco, tudo muito bom”, lembra ela, que, a partir daí, ficou conhecida como Eloína dos Leopardos. Entrava em cena, apresentava os meninos, conversava um pouco com cada um. Tudo era uma mise en scéne para os “leopardos” desfilarem seus dotes físicos, já que não tinham muito mais para mostrar. A Noite dos Leopardos estreou em 1987 e fez sucesso durante 12 anos. Levada por Anna Maria Tornaghi, a cantora Liza Minelli esteve três vezes na plateia.

Eloína com os leopardos, em 1988
A top Linda Evangelista também viu. Numa de suas turnês pelo Brasil, Madonna fechou a casa de espetáculos – naquela altura, o show tinha vencido a desconfiança inicial e estava em cartaz no Teatro Alaska, em Copacabana – para ver os leopardos acompanhada de seus bailarinos. A certa altura, havia dois elencos de leopardos – um se apresentava no Rio e outro viajava.
“Fomos para Portugal, Espanha, Itália, Estados Unidos. Em Portugal, ia ficar três meses e fiquei um ano.” Hoje, aos 72 anos, Eloína mora em São Paulo, na Praça da República, e trabalha como hostess do Bar da Dona Onça, no Edifício Copan. Todas as tardes, a partir das 15h, você pode encontrá-la sentada em uma das mesas externas, conversando com os amigos, entretendo as pessoas e tomando uma taça de vinho ou de champanhe, as bebidas de preferência. “Estou feliz da vida aqui. Não tenho nostalgia de nada. Ser jovem é maravilhoso, mas o tempo passa. Tenho saúde e alegria de viver. Agradeço a Deus porque vivo como quero, vou onde quero e faço o que quero.”

