
O tailleur Bar, fotografado em 1955 (Imagem: Willy Maywald)
De todos os clichês da moda, desses que dão sabor ao passado preto e branco, talvez o mais ‘Bazaar’ de todos seja o nascimento do New Look de Christian Dior. A história, que marcou os autos da alta-costura, ficou famosa com a lendária editora-chefe da Harper’s Bazaar americana, Carmel Snow, que, ao fim da estreia solo de Dior, em 12 de fevereiro de 1947, julgou aquilo como “um novo visual!”. O que começou como o Tailleur Bar (em homenagem ao bar do hotel Plaza Athénée, então recém-reaberto), entrou para a cultura pop-fashionista com um nome para a eternidade.
Dois meses mais tarde, Bazaar descreveu o estilista como um “agente provocador” e até citou o comentário de um taxista: “Ouvi dizer que há, finalmente, um rival para Balenciaga”. Em maio, quando as ilustrações ainda competiam com fotografias cinzentas, René Gruau desenhou a criação para as páginas da publicação. Foi o louro definitivo para o estilista que, agora no comando de sua própria maison de haute couture, também inspirou Jean Cocteau em um jogo de palavras brilhante: seu nome, Dior, soava como a junção das palavras Dieu (Deus) e Or (ouro).

A modelo Tania, vestindo o Tailleur Bar, no primeiro desfile de Christian Dior, em 12 de fevereiro de 1947 (Foto: Pat English)
Na coleção que Christian apresentou em seu aguardado début, os visuais eram sugestões para a temporada de primavera-verão. Ironicamente, o desfile aconteceu em uma manhã do inverno mais frio da capital francesa desde 1870), em que a temperatura caiu para 13ºC negativos. Quem ousou sair de casa para se aventurar nos salões do número 30 na Avenue Montaigne, viu os primeiros passos de um legado que faria uma verdadeira revolução a moda. Passos esses, especialmente, de Tatiana Kousnetzoff, a primeira modelo a ser contratada por monsieur Dior e que desfilou o emblemático tailleur Bar. Apelidada de “Tania”, era considerada pelo couturier a “feminilidade personificada”.
Igualmente feminino foi o perfume que os convidados seletos descobriram no local, o Miss Dior. Lançado para acompanhar a estreia do estilista, mais de um litro de sua fórmula inédita de chipre verde, desenvolvida pelo perfumista Paul Vacher, foi espalhada pelas salas da maison. O nome da fragrância teria sido inspirado na irmã de Christian, Catherine Dior, heroína da resistência contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, e seu frasco, em forma de ânfora neoclássica em cristal Baccarat, acompanhou as linhas sinuosas da coleção.

Recorte do caderno de notas sobre os modelos da coleção de estreia de Christian Dior, na primavera-verão 1947 (Imagem: Reprodução/Dior Héritage)
Para somar ao aroma, buquês de delphiniums, ervilhas doces e lírios do vale entraram como parte da decoração do dia, enfeitando os interiores do endereço projetos pelos arquitetos Victor Grandpierre e Georges Geffroy. As verdadeiras flores, entretanto, foram os 95 vestidos que marcaram a estreia triunfal de Dior. Aficionado pela silhueta feminina, botânica e paisagismo, o estilista buscou na infância as inspirações para as duas linhas e silhuetas de sua coleção: en 8 e Corolle.
Nascido na Normandia, em 1905, Christian cresceu nos jardins da mansão rosada de sua família (enriquecida no ramo de fertilizantes) em Granville, além de conviver nos círculos da alta-sociedade em que as mulheres, seguindo as tendências da Belle Époque, abusavam de linhas curvas e cinturas apertadas, exploradas nos romances de Henri Barbusse e nas pinturas de Édouard Manet.
Para Christian Dior, a impressão estética nunca deixou seu imaginário. Quando começou a se aventurar na moda, vendendo desenhos para criadores como Balenciaga, Schiaparelli, Patou, Ricci e Rochas, já mostrava sua paixão pelo romantismo. Em 1939, enquanto ainda trabalhava para Robert Piguet, criou Rond Point, um tailleur de jaqueta branca e saia preta que, em 1944, repetiria (com significativas mudanças) em seu trabalho para Lucien Lelong no modelo Welcome. Finalmente, em 1947, já no comando de seu próprio ateliê – graças ao investimento generoso do magnata têxtil Marcel Boussac –, reformulou a criação para se tornar o icônico New Look.

O modelo ‘Rond Point’, criado por Christian Dior enquanto trabalhava para Robert Piguet, em 1939 (Imagem: Divulgação/Dior Heritage)
A revolução em questão, portanto, não foi meramente estética. Esse “novo visual”, afinal, já era uma ideia de Dior há anos e as jaquetas de alfaiataria têm sua origem nas criações de John Redfern, em 1888. O tailleur Bar, aliás, sequer foi o modelo mais vendido, tendo sido comprado por apenas 14 clientes e “perdendo” para outros designs da mesma coleção, como New York, Maxim’s, 1947, Amour, Avril e Hyde Park. Ao contrário, o frisson causado por Bar e as demais criações de Dior estava em sua construção, com dezenas de metros de tecido a mais do que, durante a Segunda Guerra Mundial, havia sido permitido para roupas.
Com o début de Christian e sua visão arquitetural, a moda francesa retomou o fôlego e devolveu às mulheres o sonho de guarda-roupas volumosos, coloridos e femininos, longe da aparência masculinizada e austera imposta durante a escassez. Para o Bar, por exemplo, eram necessárias pelo menos 150 horas de trabalho por parte das várias costureiras, a diretora de estúdio Marguerite Carré e o jovem aprendiz Pierre Cardin.

O modelo ‘Welcome’, criado por Christian Dior enquanto trabalhava para Lucien Lelong, em 1944 (Imagem: Divulgação/Dior Heritage)
Para agregar à obsessão que elevou o New Look ao status de ícone dicotômico (é cult e pop, ao mesmo tempo), vale ainda explorar sua natureza camaleônica. Ainda em sua era, Dior mesmo revisitou o modelo com alterações quando, em 1955, foi convidado para dar uma palestra sobre moda para quatro mil estudantes na Sorbonne. Com um desfile-retrospectiva na agenda, ele revistou o Bar, trocando saltos pretos arredondados por brancos, mais pontudos, e o chapéu, também preto, por um modelo tonkinois de palha. A jaqueta, ainda com a cintura-ampulheta, “de vespa”, ganhou uma gola mais firme e até a modelo mudou: out with Tania, in with Renée!
Da mesma forma que Christian aperfeiçoou sua criação – criando tailleurs pelos dez anos seguintes, até sua morte em 1957) –, seus sucessores trouxeram suas próprias interpretações e charmes para o New Look. Para além de Yves Saint Laurent, que apostou na rebeldia de silhuetas soltas, e Marc Bohan, que lançou seu próprio Slim Look, mais simples, Gianfranco Ferré se inspirou nas silhuetas dramáticas de Dior. Na direção da maison entre 1989 e 1996, o italiano adotou as curvas históricas como um símbolo de elegância em diversas coleções de alta-costura e prêt-à-porter. Em uma linha mais teatral, John Galliano também não esqueceu as sinuosidades do Bar em suas próprias coleções na casa. Em 2012, a chegada de Raf Simons colocou fim às referências históricas para abrir espaço para linhas contemporâneas, mais gráficas e sem artifícios. Em sua primeira temporada de couture, o belga combinou a tradicional jaqueta Bar com calças cigarette de lã, fugindo às saias plissadas e recheadas de tules que reinaram nos tempos de Christian Dior.

Reprodução do New Look,. na passarela da Dior de primavera-verão 1987 (Foto: Getty Images)
Hoje, com Maria Grazia Chiuri no comando criativo desde 2016 (a primeira mulher com o cargo na maison), o New Look ganhou ares feministas. Com foco na liberdade de movimento da mulher, a alfaiataria da Dior se reinventou para, além dos salões e passarelas, chegar às ruas. A silhueta segue tão histórica quanto reconhecível, sedutora e moderna – diferente e, ao mesmo, igual àquela que Carmel Snow laureou como “o novo visual” para a mulher.

