
A nova série ‘Becoming Karl Lagerfeld’ estreou nesta sexta-feira (07/06) no streaming do Disney+. (Foto: Divulgação)
“Vamos nos encontrar no Flore? Foi onde tudo começou”. O convite vem da princesa Diane de Beauvau-Craon, uma das musas de Karl Lagerfeld que, nos 70s e 80s, agitou o jet-set internacional com seus cabelos curtos e personalidade forte. Antes de voltar para Nápoles, onde vive hoje (distante do Château d’Haroué, castelo de sua família no interior da França), ela está em Paris para os preparativos do segundo livro de memórias que planeja escrever nos Alpes Suíços. É um convite irresistível – o Café de Flore, na margem esquerda do Sena, é um dos mais tradicionais da capital –, mas estou em São Paulo e só parto para a Europa na metade do mês. Nosso outro convidado, o ator Théodore Pellerin, também está longe, em Montréal, no Canadá.
Há semanas, estávamos planejando o “encontro” para falar sobre Becoming Karl Lagerfeld, que estreia no Disney+ ainda em junho. Na produção, inspirada na biografia do lendário estilista escrita por Raphäelle Bacqué, Kaiser Karl (2020), Théo interpreta um personagem infame: o dandy Jacques de Bascher. Companheiro de Lagerfeld durante mais de quinze anos, foi protagonista de um dos triângulos amorosos mais escandalosos na história da moda (viveu um affair tórrido com Yves Saint Laurent, rival de Karl) e se eternizou como um ícone de estilo. Também foi melhor amigo e, por um breve período, noivo da princesa de Beauvau-Craon, com quem esteve até os últimos segundos de vida.

Os atores Daniel Brühl (Karl Lagerfeld) e Théodore Pellerin (Jacques de Bascher) na nova série ‘Becoming Karl Lagerfeld’. (Foto: Divulgação)
Por telefone, ela está emocionada em falar com Théodore, que assume o co-protagonismo dos seis episódios ao lado de Daniel Brühl (Karl Lagerfeld), e relembrar a vida agitada que levou. O ator, por outro lado, fica animado em conversar sobre a produção e explorar ainda mais o personagem, que promete reviver na próxima temporada, como me contou com exclusividade.
Guilherme de Beauharnais: Alô, Théo! Alô, Diane!
Diane de Beauvau-Craon: Alô, Gui!
Théodore Pellerin: Salut!
GDB: Vocês já se conhecem?
DBC: Não pessoalmente… Quando você vem a Paris, Théodore?
TP: Já estou a caminho para a estreia da série!
DBC: Ah, precisamos muito finalmente nos encontrar! Vou te levar o livro que escrevi, Sans Départir.
TP: Eu li! Você acredita que…
GDB: Gente, estou aqui ainda – e me sentido excluído! (risos)
DBC: Desculpa, Gui! (risos) Você não vem, também?
GDB: Só no fim do mês…
TP: Te contamos tudo depois, pode deixar. (risos)
GDB: Por que não agora? (risos) Você me disse que ligou para Diane há alguns meses, enquanto se preparava para assumir o papel de Jacques de Bascher em Becoming Karl Lagerfeld. O que você queria saber?
TP: Nada em particular. Fiquei muito aberto ao que ela estaria disposta a compartilhar. Sei que a Diane e Jacques tiveram uma conexão única, que foi da amizade ao amor e quase casamento! Foi um companheirismo multidimensional, não?
DBC: Jacques foi uma pessoa excepcional. Para ser sincera, ainda temos uma relação, mas em dois mundos diferentes. Meu maior arrependimento foi não ter casado com ele, porque o Karl fez um vestido lindo para eu usar. (risos)

A princesa Diane de Beauvau-Craon e Jacques de Bascher, em uma baile na Ópera de Paris, em 1980. (Foto: Philippe Morillon)
TP: Preciso confessar que estou nervoso em desapontar as pessoas que o conheceram, especialmente você. Existe um ponto, nessa indústria cinematográfica, em que precisamos tomar liberdades criativas…
DBC: Não se preocupe. Não sou atriz, mas sei que um bom ator não pode se perder no papel. É preciso se equilibrar entre o personagem e quem você realmente é.
GBD: Diane, lembro de uma conversa que tivemos sobre a série biográfica de outro estilista que também foi seu amigo, o Halston. Você disse que detestou. Tem medo de repetir o sentimento com Becoming Karl Lagerfeld?
DBC: Isso nunca passou pela minha cabeça. O livro que inspira essa nova série, escrito pela minha grande amiga Raphäelle, me agradou muito, então estou aberta para o que série traz. Mas admito que a ideia de ver tudo o que já vivi materializado me deixou nervosa.
TP: Mergulhar na vida agitada que vocês viveram, naquela época, foi um processo fenomenal. Como tudo é baseado em fatos, busquei muitas referências. Li os livros que Jacques lia, escutei suas músicas favoritas… Não preciso te dizer isso, mas ele foi uma pessoa muito inteligente e complexa. Ele criou uma filosofia própria que fez dele um dos personagens mais interessantes daquela era.
DBC: Nada que Jacques fazia era por acaso. Às vezes, ele exagerava e pagou o preço. Mas ele não era fútil e, muito menos, apenas o “namorado” do Karl.
TP: Parece que ele realmente amava a vida e queria aproveitar ao máximo. Ao mesmo tempo, sinto que o Karl queria controlá-lo a qualquer custo, não?
DBC: Totalmente. Karl era um controlador da vida e de si mesmo. Por outro lado, compensava a personalidade recatada através das extravagâncias e extremismos do Jacques.

Jacques de Bascher e Karl Lagerfeld, em 1979. (Foto: Philippe Morillon)
TP: Mas além das festas, Jacques também tinha outros projetos, não?
DBC: Sim. Queria dirigir filmes, escrever livros… Depois que faleceu, perguntei ao Karl por que ele não o deixava seguir esses sonhos.
GDB: E o que ele disse?
DBC: Que o Jacques era muito inconstante. Cada dia queria algo, mas nunca realizava. Mas eu não acredito nisso.
GDB: Até porque ele dirigiu ‘Histoire d’Eau’ para a Fendi, em 1977. Foi primeiro fashion film da história da moda, completamente revolucionário!
TP: Sim, mostramos isso na série!
GDB: Aliás, já que estamos no assunto “Lagerfeld”, como foi contracenar com o Daniel, Théo?
TP: Foi incrível, mas perigoso (risos). Fizemos testes para saber como seria a nossa química e deu muito certo. Ele é muito engraçado. A primeira cena que gravamos juntos foi o primeiro encontro entre Karl e Jacques. Construímos nossos personagens juntos… e acho que essas figuras, na vida real, também construíram personagens para si.
DBC: E foi um trabalho duro! Ninguém acorda e decide ser um personagem. É preciso se esforçar… e Jacques se esforçou até demais. Às vezes, penso que ambos mergulharam tanto no papel que acabaram engolidos pela fantasia.
TP: Isso mudou em algum momento?
DBC: Mudou quando o Jacques descobriu que estava doente, com AIDS. Aí, o personagem acabou.

Os atores Daniel Brühl (Karl Lagerfeld) e Théodore Pellerin (Jacques de Bascher) na nova série ‘Becoming Karl Lagerfeld’. (Foto: Divulgação)
GDB: A doença e a morte do Jacques, em 1989, afetaram muito os círculos sociais da moda na época. Vocês mostram isso na série?
TP: Não, porque a primeira temporada se passa entre 1971 e 1982.
GDB: Primeira? Terá uma segunda, então?
TP: Talvez…
DBC: Como assim “talvez”? Eu sei que vocês já estão trabalhando nela! (risos)
TP: Diane! (risos) Mas sim, nós estamos.
GDB: Falando nisso, essa é a primeira vez que você será representada em uma produção, Diane! A atriz Clara Bretheau faz o seu papel.
DBC: É verdade! Como foi isso?
TP: Foi incrível! A Clara é excepcional e eu me apaixonei por trabalhar com ela. Ela te admira muito.
DBC: Ela me procurou algumas vezes, mas nunca conseguimos parar para conversar, infelizmente.
GDB: Algumas das festas icônicas da época estão representadas na série, como aniversário do estilista Kenzo, em 1979. Todos os convidados estavam vestidos de desenho animado e o Jacques foi fantasiado de Pantera Cor-de-Rosa!
TP: Sim, e eu vesti a fantasia! (risos) As cenas das festas foram as mais complicadas. Como é uma série, misturamos muitos desses eventos icônicos em um só. Mas não gravamos a festa mais famosa…
GDB: A ‘Moratoire Noire’, de 1977?
TP: Essa mesma!
DBC: Vocês não gravaram a Moratoire Noire?!
TP: Não, e eu fiquei muito triste com isso, porque li bastante sobre ela! Acho que tentaram incluir no roteiro, mas não se encaixou…
GDB: Foi uma festa chocante. Escandalosa, na verdade. As histórias daquela noite são de arrepiar mesmo! (risos)
DBC: Há coisas que deveriam permanecer só na imaginação. Acho que essa festa é uma delas. Gosto de acreditar que a melhor forma de ser selvagem é na intimidade. Mesmo na vulgaridade, afinal, é preciso haver elegância. A Moratoire Noire não é um exemplo disso. Foi espetacular, claro, mas não é a minha melhor memória. (risos)

Diane de Beauvau-Craon e Jacques de Bascher, em 1981. (Foto: Getty Images/ Michel Maurou)
GDB: Já que estamos falando de escândalos, vamos para o maior: o triângulo amoroso que começou com o affair infame que Jacques teve com Yves Saint Laurent, o maior rival de Lagerfeld.
TP: A forma com que eu interpretei isso na série foi como uma espécie de provocação por parte do Jacques. O que você acha, Diane?
DBC: Todo mundo flertava naquela época. Às vezes, eram quatro, cinco, dez flertes por dia. Não era como hoje, em que um beijo já é sinônimo de casamento (risos). Se o Pierre Bergé, companheiro e sócio do Yves, não tivesse dado tanta importância para isso, a história teria sido muito diferente. Eu sei, com absoluta certeza, que o Jacques nunca teve a intenção de deixar o Karl. Eles se amavam profundamente.
GDB: Como isso foi adaptado para a série, Théo?
TP: É Arnaud Valois quem interpreta Saint Laurent, uma divindade da moda na época. Nossa relação foi incrível, especialmente porque as cenas foram difíceis de gravar. Há uma dinâmica de poder muito tensa entre os personagens. Na série, o Yves enxerga Jacques como uma encarnação de tudo que ele admirava e queria ser. Pierre, naturalmente, ficou enciumado.

Entre os enredos da série, o triângulo amoroso entre Karl Lagerfeld, Jacques de Bascher e Yves Saint Laurent (Arnaud Valois) é um dos fios da narrativa. (Foto: Divulgação)
GDB: No elenco, é Alex Lutz quem faz o papel de Bergé, um dos maiores empresários da França. Lembro de uma história que você me contou, Diane, em que ele jogou champagne no seu rosto uma vez, não?
DBC: Whisky! (risos) Estávamos no Privilège, restaurante exclusivo debaixo da boate Le Palace. Eu estava no bar, esperando o Robert Mapplethorpe, e o Pierre simplesmente jogou whisky em mim! Eu dei um tapa na cara dele e ele começou a gritar ofensas. Foi um caos. Mas a verdade é que o Karl trazia alegria para o Jacques. Não estou totalmente convencida de que o mesmo acontecia entre Pierre e Yves.
TP: Como era a sua relação com o Karl?
DBC: Na primeira vez em que nos encontramos, ele não gostou de mim.
TP: Ciúmes?
DBC: Medo! Ele tinha medo de que Jacques e eu fossemos nos destruir nas nossas loucuras. Mas nos divertíamos muito, sem arrependimentos.

Jacques de Bascher, Diane de Beauvau-Craon e Karl Lagerfeld, em 1981. (Foto: Getty Images/Michel Maurou)
GDB: Não foi Karl quem teve a ideia de vocês se casarem?
DBC: Sim, mas isso foi depois… Eu conheci o Jacques no Café de Flore, quando eu tinha dezesseis anos. Ele gostou do meu visual, totalmente excêntrico. Não ficamos muito tempo juntos no começo porque fui morar em Nova York por quatro anos e meio. Nos encontramos depois, em Marrocos, e nunca mais nos largamos.
TP: E aí vocês ficaram noivos?
DBC: Sim, em Roma. Tudo orquestrado pelo Karl. Foi lindo!
GDB: E você rompeu o noivado porque o Jacques começou a ficar ciumento e controlador! (risos)
DBC: Exatamente! (risos)
TP: Existe uma história de que o Jacques queria se casar com você antes mesmo de te conhecer, não?
DBC: Quando Jacques era adolescente, ele encontrou meu nome no Bottin Mondain, uma espécie de anuário com as famílias mais importantes da França. Ali, ele parou no meu nome de forma aleatória e disse ao irmão mais novo que se casaria comigo.
GDB: O Bottin Mondain ainda é publicado hoje e eles sempre chamam artistas para ilustrar as capas. Em 2021, escolheram a uma amiga minha, Marie-Victoire de Bascher, sobrinha do Jacques.
TP: Incrível!
GDB: Vou apresentar vocês dois. Acho que vai ser ótimo, especialmente porque a família do Jacques também é interpretada na série, não?
TP: Exploramos a relação dele com a família, sim. É um momento em que os parentes não aprovam seu estilo de vida e as coisas estão difíceis com o Karl. É quando ele se reconecta com a irmã, Anne.
DBC: Eu gostava muito da Anne, que mais parecia uma versão feminina do Jacques. Era lésbica! Também adorava a Elisabeth, mas a mãe, Armelle, era extraordinária. Acho que ela nunca entendeu por completo a paixão do filho pelo glamour. Foi ela quem me ligou dizendo que Jacques estava doente no hospital, me esperando.

Karl Lagerfeld e Jacques de Bascher, na década de 1980 (Foto: Getty Images/Tim Jenkins)
TP: A doença deve ter sido difícil para o Jacques porque ele tinha uma obsessão por controlar a própria imagem.
GDB: Absolutamente. Ele é um ícone de moda, inclusive para mim! Aliás, me conta sobre o figurinos que a Pascaline Chavanne criou para a série?
TP: Uma aspecto do Jacques que me assustou e me impressionou ao mesmo tempo foi a confiança que ele tinha, muito projetada pelas roupas que ele usava. Seu guarda-roupa existia para ser visto pelas outros e ele tinha pavor de causar indiferença nas pessoas. Vestir os figurinos da série me ajudaram a entender isso.
GDB: É uma pena que uma das camisarias favoritas deles em Paris, a Hilditch & Key na rue de Rivoli, tenha fechado.
DBC: Sim, trágico! Ele e o Karl encomendavam dúzias de camisas lá!
GDB: Ele te fazia de boneca, Diane?
DBC: Tentava, mas eu nunca usei um full look Chloé, Fendi ou Chanel que ele tenha criado. Sempre gostei de misturar com coisas menos pretensiosas. Acho que o estilo de verdade está nas pessoas que não ligam tanto para moda! (risos)

Jacques de Bascher, em 1980. (Foto: Philippe Morillon)
TP: Algumas pessoas descreviam Jacques como um anjo, outras, um diabo…
DBC: Ele era os dois, mas em horários diferentes. De noite, depois de alguns shots de whisky e muita cocaína, era o demônio. (risos)
GDB: J’adore! (risos)
DBC: Falamos muito, não? Já estou liberada para ir embora? (risos)
TP: Gui, você precisa terminar a entrevista com isso! (risos)
GDB: Com certeza! (risos)
Essa entrevista foi publicada originalmente na edição de junho/2024 da Harper’s Bazaar Brasil, sob o título “Anjos e Demônios”, e assinada pelo editor de moda Guilherme de Beauharnais.

