Charles Cosac (Imagem: Divulgação)

Da janela do carro, a caminho do meu encontro marcado com Charles Cosac, vi passar vários bairros de São Paulo enquanto as minhas mãos tremiam. Em tese, não era nenhuma novidade. Já entrevistei todo tipo de gente. Conversar, perguntar e matar a minha curiosidade insaciável de tudo é o que mais gosto de fazer. Acontece que Charles, príncipe do mercado editorial brasileiro desde os anos 1990, quando fundou a lendária Cosac Naify, é um dos meus ídolos. Tanto me vejo nele que, entre meus amigos mais íntimos, ganhei o apelido de “Cosaquinho”.

Desci da minha carona, me apresentei na portaria de um dos prédios mais elegantes de Higienópolis e, antes de entrar no elevador, me olhei no espelho três vezes. Já no andar do anfitrião, a cena era um banquete visual: um hall de entrada coberto de bolinhas cor-de-rosa e quinhentos metros quadrados de arte pura, do barroco e sacro ao mais contemporâneo. Difícil dizer se Charles é colecionador porque nasceu editor ou editor porque nasceu colecionador.

Um dos funcionários me recebeu na porta e, entre idas e vindas adentro, disse para acompanhá-lo. Atravessei o corredor e cheguei ao quarto do homem que, há anos, inspira muito do meu próprio olhar estético. Choques e suspiros! As paredes eram revestidas com painéis de madeira entalhados e pintados à mão – barroquismos partout – e, debaixo de um lustre com cristais rosas, Charles estava deitado na cama, semiescondido por um cobertor azul. Vestia um pijama listrado, da Derek Rose, e estava acompanhado por dois ursinhos de pelúcia, como Lorde Sebastian, do romance Brideshead Revisited de Evelyn Waugh. De fato, era um mélange de encarnações literárias decadentistas. Para citar um favorito seu – russos, sempre – parecia Oblómov, de Goncharov (1859). Para citar um favorito meu – franceses, sempre – tinha os ares de Des Esseintes, de Huysmans (1884).

No chão, tinha um par de pantufas da Gucci, ao lado de um carrinho de prata com copos de cristal e xícaras de porcelana. Indicou uma cadeira ao lado da cama, para que eu me sentasse.

Charles Cosac: Aceita alguma coisa?

Guilherme de Beauharnais: Uma água, obrigado.

CC: Vou tomar um chá. Não bebo mais Coca-Cola, você deve ter percebido. Antes, eu tomava quarenta e cinco latinhas por dia!

GDB: De qual tipo?

CC: Zero.

GDB: E fumava três maços de cigarro por dia?

CC: Sim, mas parei de fumar. Não posso mais. É um vício nojento. Apesar de que só um agora não faz mal, não é?

GDB: Se você fumar, te acompanho.

CC: Por favor, você está em casa. Aliás, vou fumar do seu.

GDB: Pode pegar.

CC: Uma cigarreira! Que lindo!

GDB: Se é para fumar, que seja bonito, não acha?

CC: Já fui assim como você. Hoje, toda vez que quero um cigarro, tomo um gole d’água. Mas eu parei mesmo, viu? Há duas semanas… (risos) Esse é travessura. O cigarro já me colocou em situações complicadas.

GDB: Como assim?

CC: Tive um incidente em que fumei no avião. Mas não no banheiro. Esse papel de ridículo eu não fiz. Simplesmente sentei e acendi o cigarro. Foi um escândalo! O comandante apareceu, fui multado e fiquei cinco anos sem poder voar na British Airways, o que eu achei ótimo.

GDB: Ótimo?

CC: Sim, porque parei de pousar em Londres e Paris. Eu já estava cansado. Estudei e morei na Inglaterra por 16 anos, acho lindo. Paris também, mas nunca fui um franco-freak, ainda que eu tenha vivido um grande amor lá.

GDB: Um grande amor? Me conta.

CC: Nunca tive companheiro, nem namorado, mas me apaixonei por um inglês aos 25 anos. Ele era quarenta anos mais velho do que eu. Fomos amantes e nos encontrávamos em Paris. Foi avassalador.

GDB: O que aconteceu?

CC: Ele terminou comigo quando fiz trinta. Disse que eu já estava muito velho. Chorei por dois anos depois disso.

GDB: Que horror! E hoje?

CC: Hoje, tenho orgulho de dizer que sou independente. Durmo e acordo sozinho.

GDB: Isso não é totalmente verdade…

Barry: Au! Au!

CC: Esse é o Barry, meu pastor alemão. Tenho o Yuri também, um pastor suíço. Yuri, vem cá deitar comigo!

Yuri: Au! Au!

GDB: Está vendo? Não dorme sozinho! (risos)

CC: Eu adoro esses mamíferos quadrúpedes!

Charles Cosac (Imagem: Divulgação)

GDB: O que aconteceu com o Odin, seu outro pastor alemão?

CC: O Odin foi o primeiro, mas já faleceu. Tínhamos uma relação simbiótica. Cheguei até a conseguir um atestado de cego para conseguir ir com ele a todos os lugares. Quando eu entrava em um prédio, desdobrava a bengala, colocava óculos pretos e ele ia comigo. Foi o cachorro que eu mais amei.

GDB: Por que tanta paixão?

CC: Ele chegou na minha vida quando voltei da Europa para fundar a editora. Eu tinha 33 anos e foi a época em que eu me senti mais livre. Também foi quando me apaixonei por São Paulo. Eu andava no Viaduto do Chá com o Odin e fechava os olhos. Ouvia os vendedores de rádios-relógio, sentia o cheiro dos acarajés e escutava os camelôs de produtos falsificados. Eu via cores, percebia perfumes… comecei a sentir aquilo como meu.

GDB: Ah, sim… São Paulo também é um dos seus grandes amores.

CC: Nasci no Rio de Janeiro, mas nunca gostei muito de lá. Os cariocas acham que são parisienses (risos).

GBD: Charles! (risos) Mas e São Paulo?

CC: No começo foi assustador estar nessa cidade tão grande. Mas foi em São Paulo que eu me tornei brasileiro. Eu nasci em frente ao Pão de Açúcar, no Rio, mas a ideia que eu tinha de Brasil na minha infância era muito distorcida. Meus pais são sírios e não deixavam ninguém dizer que eu era brasileiro. Se ouvissem, caíam desmaiados.

GDB: Me fala mais sobre os seus pais?

CC: Eles teriam te achado um príncipe. Papai, quando eu tinha cinco anos, me sentou no sofá e disse: ‘meu filho, você nunca vai precisar trabalhar’. Eu fui criado da maneira mais asquerosa que existe.

GDB: E a sua mãe?

CC: Mamãe cismou que eu seria pianista. Não me deixava pegar peso porque tinha medo de que estragasse minhas mãos. Era muito religiosa também. Rezava ajoelhada cinco horas por dia.

GDB: Cinco horas?

CC: Sim! Uma vez, o papa veio ao Brasil rezar uma missa no Galeão às cinco da manhã. Mamãe me conseguiu um lugar praticamente no colo dele e disse que eu tinha uma missão. Me deu uma tesourinha e pediu para eu arrancar um pedaço milagroso da roupa do papa!

GDB: Não creio! (risos)

CC: Pois é, nem eu! (risos) Lá fui eu, aos 13 anos, arrumadinho, no palanque das autoridades, tentar pegar um pedaço da túnica papal em público.

GDB: Você conseguiu?

CC: Claro que não! E ela ainda brigou comigo, dizendo que eu não tinha sido perseverante. (risos)

GDB: Que história!

CC: Nunca esqueço dela. Na noite anterior, aliás, foi a primeira vez em que assisti a Gritos e Sussuros, do Bergman. Me marcou profundamente! Fiquei fascinado, fas-ci-na-do!

GDB: O filme foi a inspiração por trás da icônica sala vermelha da sua antiga casa, não?

CC: Exatamente. O problema é que eu virei a personagem principal, a Anna. (risos)

GDB: E esse novo apartamento, agora?

CC: É alugado, por enquanto. Mas penso em comprar. Era de uma senhora, a dona Antonieta. Esse colchão onde estou deitado foi onde ela morreu.

GDB: Você não tem medo?

CC: Quando cheguei aqui pela primeira vez, rezei a noite toda. Na minha cabeça, acho que conversei com ela e nos entendemos. Mas os cães só chegaram na manhã seguinte, de chauffeur.

GDB: Chauffeur?

CC: Não vivo sem! Tenho um quase 24 horas por dia.

GDB: E a decoração?

CC: O Charles de antes teria martelado tudo isso com as próprias mãos. Mas você acredita que até do lustre, que é uma das coisas mais feias e sem gosto que eu já vi na minha vida, eu estou começando a gostar? Deve ser a convivência.

GDB: Deve ser. E o closet?

CC: Enorme! Tenho muitas roupas, você sabe. E quatro silhuetas.

GDB: Quatro?

CC: Sim, 40, 42, 44 e 46. Meu armário é divido por silhuetas, para acompanhar as mudanças do meu corpo. Eu detesto roupa apertada, mas não usaria moletom nunca. E gosto muito de mudar de roupa. Troco várias vezes por dia. Aliás, tenho mania de duplicadas e triplicadas. Sou tão sádico que guardo na caixa, para só abrir daqui a uns anos.

GDB: Onde você compra tudo?

CC: No Brasil, sempre no Brasil. Sou contra comprar roupa estrangeira no exterior.

GDB: Por quê?

CC: Para ajudar a economia local. Já que eu sou besta, quero ser besta por completo. (risos)

GDB: O que você veste, então?

CC: Nos últimos anos, me visto exclusivamente de Gucci, pelo Alessandro Michele. Eu não tenho nem idade para usar Gucci, eu sei disso. Mas eu adoro, adoro, adoro!

GDB: Agora, o Michele foi para a Valentino.

CC: Eu vi… Ou seja, fiquei sem! O lance é que, quando você se entrega a um estilista como eu fiz com o Michele na Gucci, você abre mão de se projetar e delega a outrem que te projete por ele.

GDB: Por que a devoção?

CC: Antes, eu era metido a querer fazer roupa, chamar alfaiates, inventar e participar do processo criativo. Eu tinha mais interesse, mais tempo, mais paciência. Adorava procurar materiais, coisas fake, sabe? Como pelúcia, vinil… e coisas estridentes também, como o rosa-choque.

GBD: Estilo Schiaparelli?

CC: Bastante. Mas nem tanto… Um italiano que me vestiria é o Pucci. Aliás, adorei sua roupa. Que elegante! De onde é?

GDB: As botas são Valentino, quase não saem do meu pé. O casaqueto eu garimpei de uma boutique vintage japonesa no Marais. A calça é Saint Laurent.

CC: Adoro Saint Laurent! Foi meu primeiro terninho…

Charles Cosac (Imagem: Divulgação)

GDB: Você tem uma dica de moda?

CC: Tenho! Aprendi com um japonês: a cada duas semanas, viro todas as minhas roupas no armário. Sempre que você abre a porta, elas desbotam um pouco, sabe? Então, é importante virar tudo para que o desbotamento seja homogêneo. Hoje, não consigo olhar para uma pessoa sem perceber que ela está desbotada pela metade. É um olhar treinado. (risos)

GDB: Genial! (risos) E o que mais te fascina na moda?

CC: O grande lance das roupas está no forro, não na parte de fora. Tenho loucuras por forros. É barroco, sabe?

GDB: Barroco?

CC: Sim. Como uma igreja barroca brasileira: minimalista por fora e de tirar o fôlego por dentro. Minha primeira experiencia estética, aliás, foi com o barroco. Sou uma pessoa de alma barroca e acho que esse movimento foi a grande manifestação cultural do Brasil até o momento.

GDB: E o modernismo?

CC: Essa importância toda que se dá para os móveis modernistas é totalmente fútil e equivocada. Tudo é réplica da Noruega. Não tem nada de brasileiro.

GDB: Nada?

CC: A madeira, talvez. (risos)

GDB: Me fala mais sobre a sua evolução estética?

CC: Minha estética veio um pouco pela tentativa de ser aceito pela minha família, coisa que eu nunca fui. Meu pai me rejeitou a vida inteira.

GDB: Você disse que teve uma educação asquerosa. O que isso quer dizer?

CC: Atravessei uma rua pela primeira vez quando eu tinha treze anos. Minha irmã e eu fomos criados como dois debilóides que se desvencilharam completamente da ideia de independência monetária. Por isso, vivo de herança.

GBD: Porque seu pai nunca quis que você trabalhasse, certo?

CC: Minha família fugiu da miséria na Síria. Não da pobreza, da miséria mesmo. Meu pai trabalhou muito, mas era completamente anti-burguês. Achava terrível a glamourização do trabalho. Aliás, paulistano adora dizer quantas horas trabalha, não é? Essa divinização acaba com o tempo para leitura, música, poesia, teatro…

GDB: E muitas pessoas sequer trabalham com o que gostam.

CC: A maioria dos meus amigos são muito ricos, mas nenhum deles faz o que gosta. O único fui eu, mas também não ganhei nada (risos). Foi o preço. Trabalhei por desejo, vontade.

GDB: Vontade de quê?

CC: Tive um ano sabático na minha vida em que dialoguei muito próximo com a morte. Depois disso, passei a atribuir outros valores à vida que, talvez pela juventude ou pela leviandade, eu não teria atribuído. Mas eu achava que eu ia viver. E vivi. Foi quando senti desejo de ser brasileiro, de fazer um projeto meu no Brasil, para o Brasil. Foi quando nasceu a editora.

GDB: Vamos falar sobre morte. Já pensou como gostaria de morrer?

CC: De uma forma glamorosa…

GDB: Tipo?

CC: Comido por um urso!

GDB: Ah, para! (risos) Li uma vez que você quer que seu corpo seja colocado em um caixão enviado para o espaço?

CC: Essa história foi mal contada… posso pegar mais um cigarro seu?

GDB: Quantos você quiser.

CC: Obrigado (risos). Então, não é um caixão, é uma cápsula que leva seu corpo até o universo e se desfaz. O corpo é exumado pela gravidade. Mas essa é uma ideia… eu tenho fascínio por jazigos perpétuos, também. Inclusive, quero fazer um novo. Penso em enchê-lo de esculturas, como se fosse um jardim de brinquedo. Ia ficar muito lúdico, mas a verdade é que eu vou ser enterrado por telefone. Ninguém vai ao meu enterro. (risos)

GDB: Por que você acha isso?

CC: Eu sou um ponto final.

GDB: Mas você ainda tem tantas palavras para publicar…

CC: Sim, muitas. Só nesse semestre, ainda tenho cinco livros para editar. Agora, com a nova editora, quero fazer muitos sobre brasilidades. A história do Brasil entre os séculos 17 e 19, sabe?

GDB: E arte?

CC: Também, claro. É a minha paixão.

GDB: Charles! Olhe as horas… preciso ir e te deixar em paz! (risos)

CC: Mas já? Não… fica mais um pouco. Vamos fumar mais um cigarro. Quer sair para jantar? Conheço um restaurante cafona de bom gosto!