
Retratistas do Morro/Afonso Pimenta – Foto: Divulgação
Por Feli e Pepita
O verão europeu chega com brilho especial ao sul da França. Em Arles, cidade histórica da Provença, a fotografia volta a ocupar ruas, praças e espaços culturais na 56ª edição do Rencontres d’Arles, um dos mais importantes festivais de fotografia do mundo. Até 5 de outubro, dezenas de mostras celebram a força da imagem e a sua capacidade de provocar debates e abrir horizontes.
Este ano, dois países dividem o protagonismo: Brasil e Austrália. A escolha não é aleatória. Em tempos marcados por crises ambientais, transformações sociais e discussões sobre diversidade, os dois países trazem à cena olhares distintos sobre comunidades, tradições e mudanças culturais. O resultado é uma programação que mistura crítica, memória e esperança.
Foco nas comunidades
Um dos pontos altos é a expo “Retratistas do Morro”, na Croisière, em Arles. Sob curadoria de Guilherme Cunha, o público tem acesso a um acervo precioso de negativos de João Mendes e Afonso Pimenta, fotógrafos que registraram o cotidiano da comunidade da Serra, em Belo Horizonte, desde os anos 1960. São cenas de aniversários, bailes de soul, retratos de jovens e famílias. Mais do que simples imagens, trata-se de uma narrativa visual de um Brasil pulsante, retratando a vida em uma das maiores e mais antigas favelas do País.
Vanguardas brasilianas

Construction Deconstruction Reconstruction/José Yalenti – Foto: Cortesia da família Yalenti
Na La Mécanique Générale, a exposição “Construction, Deconstruction, Reconstruction” revisita o legado do Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), fundado em São Paulo, em 1939. O grupo, formado por fotógrafos amadores, revolucionou a linguagem visual nacional, aproximando fotografia de movimentos como o concretismo e o neoconcretismo. Em Arles, o público encontra imagens arquitetônicas, montagens ousadas e experimentações que marcam o momento em que o Brasil se projetava como laboratório criativo de ideias modernas.
Memória, moda e ativismo

Always in Search of Life/Letizia Battaglia – Foto: Cortesia da artista
Além do Brasil, a programação ainda abre espaço para grandes nomes da fotografia mundial. A italiana Letizia Battaglia ganha uma retrospectiva emocionante sobre sua produção em Palermo, marcada por registros da máfia e da vida cotidiana na Sicília dos anos 1970. O ícone da moda Yves Saint Laurent é celebrado em uma apresentação que une trabalhos de mestres como Richard Avedon, Irving Penn e Paolo Roversi, destacando a relação profunda entre moda, arte e fotografia. Também há espaço para outra atração de peso: Nan Goldin, que exibe sua instalação “Stendhal Syndrome”, na Église Saint-Blaise, unindo retratos íntimos a obras clássicas. Reconhecida por sua postura militante, Goldin recebeu em Arles o “Women in Motion Award”, prêmio que celebra sua contribuição para o universo das artes visuais.
Festival de olhares
O Rencontres d’Arles reafirma seu lugar como palco global da fotografia, onde passado e presente interagem por meio da imagem. Para o Brasil, é também uma oportunidade de destacar artistas e narrativas que costumam permanecer à margem do circuito internacional. Ao circular entre mostras que vão da favela mineira às passarelas parisienses, o visitante percebe como a fotografia pode ser, ao mesmo tempo, denúncia, poesia e memória. Em cartaz até outubro de 2025. @rencontresarles

