
Foto: Marcio Simnch
Por Simone Ratzik
Aos 14 anos, Serge Cajfinger se despediu do Brasil, onde morou por uma década com a família, rumo à França — mas nunca deixou de lado sua alma tropical. Décadas se passaram desde os tempos de vitrinista em Lille até a ascensão meteórica da Paule Ka — maison que fundou e transformou em referência de sofisticação feminina com mais de 50 butiques mundo afora. Mas e o Brasil? Esse nunca deixou de ser uma ideia fixa. “Não gosto de formalidades e entendi, bem cedo, que aqui se vive com intensidade e liberdade”, afirma.
Foi assim, em uma busca quase afetiva por um canto com vista e luz natural, que Serge encontrou essa cobertura na Lagoa, há quase 20 anos. Um painel de pastilhas de vidro, com o desenho de um coringa na entrada do prédio, selou o encontro: “Remetia imediatamente às minhas referências estéticas dos anos 1950 e 1960, meu período preferido em termos de design e arquitetura. Na hora, soube que seria ali o meu lugar, o meu pouso no Brasil”. O apartamento com alma, generosamente banhado pela luz do Rio, próximo também da praia de Ipanema, tornou-se então seu endereço carioca — e o novo epicentro criativo.
Aos poucos, Serge foi se despedindo da vida na França e resolveu se mudar de vez. Vendeu a Paule Ka para investidores ingleses e trocou o apartamento no Quai Voltaire, em Paris, e a casa na Provence, no sul da França, por um Brasil plural. Hoje, divide-se entre a cobertura carioca e uma casa de atmosfera rústico-chique na praia da Itapororoca, em Trancoso, projetada por Marcio Kogan. É ali, cercado por natureza, que nasceu a Biriba — sua marca de moda unissex, fluida e leve, pensada para vestir sem rótulos. “É um novo capítulo, mais livre, mais íntimo”, resume.

Foto: Marcio Simnch
Mas é no décor da cobertura carioca que Serge expressa sua paixão pelo design moderno e a estética atemporal. Em parceria com um amigo francês, arquiteto, concebeu uma reforma que priorizou o essencial: luz, fluidez e conforto. No lugar dos tacos de madeira, originais do imóvel, escolheu o mármore branco — simples e luminoso. Móveis encontrados nos antiquários da Rua do Lavradio, no centro do Rio, assinados por Tenreiro, Sergio Rodrigues, Ricardo Fasanello e Geraldo de Barros compõem a decoração com sotaque minimalista. “Quase tudo aqui é garimpo, com exceção do sofá, que escolhi ser contemporâneo e confortável. O anterior, do Tenreiro, era belíssimo, mas não dava para colocar os pés para cima”, brinca.
As estantes exibem com elegância a coleção de porcelanas e esculturas do francês Roger Capron, adquiridas ao longo de anos nos mercados de pulgas de Saint-Ouen e Paul Bert, em Paris. “Uma das últimas coleções que criei para a Paule Ka foi inspirada no traço dele. Sou muito fã”, revela. Eclético e livre de amarras, Serge não busca privilegiar apenas grifes nas paredes: entre os destaques, uma obra de Krajcberg, outra de Burle Marx e uma tela anônima adquirida na feira hippie de Ipanema. “Não me prendo a nomes. Gosto do que emociona, do que conversa com meu olhar. Sem preconceitos.”
Com uma elegância que mistura savoir-faire francês e bossa carioca, Serge Cajfinger faz de seu pied-à-terre na Lagoa um espelho do que sempre o guiou — uma vida em que a estética é o maior dos luxos, e a beleza, um modo de existir.








