Criador do “Segue o Som”, Pietro Reis detalha como faz a curadoria de músicas e explica o que define uma boa playlist. Foto: Pedro Barcellos 6

Pietro Reis construiu sua assinatura falando de música como ferramenta de leitura do presente. No Multishow, onde hoje apresenta o FeedMultishow, programa das redes do canal, ele leva essa mesma lógica para o dia a dia. Para ele, a música não existe isolada. “Eu acho que a música explica muita coisa, porque ela é uma forma de arte ancestral, algo que a gente fazia e nem sabia por quê, e que se conecta aos mais diversos assuntos”, diz. Essa lógica aparece quando ele descreve gêneros como códigos sociais: “O funk não é só batida. Funk é geografia, é um retrato da sociedade de hoje. O sertanejo não é só letra sobre o cotidiano. Hoje ele também é economia. O samba, como se diz, é terapia popular. É uma manifestação brasileira que funciona como ato de resistência do povo preto e também de sobrevivência.”

Esse repertório influencia como ele escuta quando precisa transformar som em conteúdo. Ele diz que a mudança acontece sem um “modo” ligado, mas que o objetivo altera o que ele destaca. “Eu só ouço e vou captando o máximo de informações”, afirma. Em resenha, a prioridade é recortar o que precisa ser dito para o público. “Eu pinço os pontos que eu acho que vão ser mais importantes para o público, seja para convencer as pessoas a escutar, seja porque são detalhes que chamam atenção. Eu tento pegar o que é importante de ser dito para todo mundo.” Já na entrevista, a escuta muda de foco e passa a buscar o que o artista revela sobre a própria obra e trajetória. “Eu escuto a obra pensando no que eu posso tirar do artista que seja importante para ele, para a conversa e para o público. É uma escuta mais direcionada, talvez mais para o CPF e não tanto para o CNPJ. Eu quero entender como ele chegou nesse lugar de artista, em que momento de vida ele está hoje.”

No vocabulário da internet, onde “curadoria” costuma virar sinônimo de autoridade, Pietro tenta separar cuidado de controle. “Eu acho que toda curadoria é cuidadosa, porque a palavra curadoria vem de cuidar”, diz. O critério dele parte de uma promessa direta para quem acompanha seu trabalho: “No meu caso, a minha curadoria vai para um lugar de: eu sei que as pessoas vão gostar, eu sei que é importante passar por aquilo naquele momento.” Ele cita dois movimentos que entram nessa lógica: ampliar o alcance de artistas desconhecidos e jogar luz em lançamentos de grandes artistas que passam batidos. “Às vezes é um artista completamente desconhecido que pode ficar conhecido graças a um vídeo meu, como já aconteceu. Às vezes é um artista muito conhecido que lançou algo que a galera não está prestando atenção. Mas a lógica é: eu sei que você vai gostar, confie em mim.”

Para ele, gatekeeping é outra coisa. “O gatekeeping, para mim, tem mais a ver com função social e com a ideia do ‘que é importante’, no sentido de filtro e controle.” O que embaralha tudo, segundo Pietro, é a dinâmica de engajamento e a ideia de posse de informação. “Na internet, muita gente confunde as duas coisas porque reduz tudo a engajamento e a ‘posse’ de informação, como se indicar fosse mandar e como se guardar fosse sinal de autoridade.” Ainda assim, ele afirma que não separa música de contexto quando constrói narrativa, e cita exemplos que já levou para os vídeos: “Eu já fiz vídeos, por exemplo, sobre como ‘YMCA’ deixou de ser uma música que unia gays para virar música associada a campanha do Trump. Já falei sobre evangélicos que escutam música ‘secular’, do ‘mundo’. Eu gosto de misturar essas duas camadas.”

Para a playlist de verão, o método foi objetivo: recorte de música atual e seleção de lançamentos do ano que conversam com a ideia de refresh e virada de chave. “Como o meu recorte é música atual, eu parti disso. Este ano teve vários lançamentos solares, que eu achei que encaixavam com essa temática de verão, de refresh, de querer virar a chave. Esse foi o norte”, explica. A triagem veio de uma base já em andamento. “Eu peguei muita coisa do ‘Pente Fino’, que é a minha playlist. Ali eu fui olhando o que fazia sentido entrar. Na real, olhando aqui, acho que todas estão ali. E todas são lançamentos deste ano.” Ele resume o resultado em imagem prática: “No fim, é uma seleção com cara de verão: piscina, cartinha de bar, passeio de bicicleta na orla. Essa é a vibe. Só na pele.”