G-Cans

Estrutura interna do G-Cans

Por Piti Koshimura

Entrando por uma porta instalada em um bloco de concreto armado que se projeta no gramado, somos conduzidos por uma escadaria a muitos níveis abaixo da terra. À primeira vista, parece até que estamos visitando uma obra assinada por Tadao Ando. Um espaço subterrâneo, também em concreto, com uma atmosfera que lembra uma instalação de arte. Mas o que se revela ali não é um museu: é um dos maiores e mais avançados sistemas de controle de enchentes do mundo, localizado na região metropolitana de Tóquio, na província de Saitama.

Conhecido internacionalmente como G-Cans, o Canal Subterrâneo de Escoamento da Área Metropolitana de Tóquio foi construído a cerca de 50 metros abaixo da superfície para conter inundações recorrentes, principalmente durante o período de chuvas intensas e tufões, que se concentram no verão japonês.

A área atendida pelo canal sempre foi naturalmente propensa a enchentes, mas a situação se agravou a partir da década de 1980, durante o período do “milagre econômico japonês”, com a rápida urbanização do entorno: mais asfalto, mais construções e menos solo capaz de absorver a água das chuvas. Diante da repetição de episódios de inundação, o governo japonês deu início, em 1992, à construção dessa infraestrutura colossal, que levou 14 anos para ser concluída.

O sistema é composto por cinco poços verticais gigantes, com cerca de 70 metros de profundidade, que captam o excesso de água dos rios da região. A água é então conduzida por túneis até um tanque subterrâneo monumental, sustentado por 59 robustos pilares de concreto, de 18 metros de altura. A função desse espaço é de reduzir a força das águas, permitindo que elas sejam liberadas gradualmente no Edogawa, um rio de maior porte, que atravessa quatro províncias japonesas.

G-Cans

G-Cans

Em operação desde 2006, o G-Cans é acionado, em média, sete vezes por ano. Seu recorde em termos de operação ocorreu em setembro de 2015, quando o sistema drenou 19 milhões de metros cúbicos de água durante a passagem de dois tufões consecutivos — um número que ajuda a dimensionar tanto a escala da obra quanto a gravidade dos eventos climáticos que ela busca conter.

Apesar da sua função eminentemente técnica, o G-Cans impressiona também pela sua estética. O tanque principal, com seus pilares alinhados e proporções que lembram uma catedral, ganhou o apelido de “templo subterrâneo”. Inaugurado há cerca de duas décadas, o complexo está aberto à visitação por meio de tours quase diários, bastante concorridos. 

Em um momento em que eventos climáticos extremos se tornam cada vez mais frequentes, o G-Cans propõe uma reflexão urgente: como as cidades se preparam para conviver com a intensidade das águas? E, olhando para o Brasil, às vésperas de mais uma temporada de chuvas intensas, que tipo de infraestrutura — visível ou subterrânea — estamos dispostos a imaginar e construir?

Para quem está em São Paulo, aproveito para indicar a exposição Fluxos – O Japão e a água, na Japan House SP, que apresenta a água como elemento estruturante da sociedade japonesa, do desenvolvimento urbano às práticas espirituais. Em cartaz até 1º de fevereiro de 2026.

As reservas ao G-Cans devem ser feitas pelo site oficial, e as visitas são conduzidas exclusivamente em japonês. Embora distribua um panfleto explicativo em inglês com as principais informações, a organização solicita que visitantes estrangeiros estejam acompanhados de alguém capaz de compreender instruções em japonês.