Claudia Schiffer e Valentino Garavani na apresentação da coleção primavera/verão de 1998 em Paris – Foto: Daniel Simon Getty Images

Hoje, o mundo se despede de uma das grandes mentes criativas da moda contemporânea. Valentino Garavani nasceu em Voghera, no norte da Itália, em 1932 — em um período marcado por profundas turbulências globais. Sua formação atravessou o secondo dopoguerra, fase decisiva da história italiana que se estende, aproximadamente, de 1945 aos anos 1960. Foi um momento de reconstrução não apenas material, mas também cultural e simbólica, no qual o país redefiniu sua identidade política, social e estética, lançando as bases da Itália moderna que conhecemos hoje.

Desfile Valentino 1994 – Foto: Daniel Simon Getty Images

Nesse contexto de renascimento, diversas figuras foram fundamentais para a consolidação da excelência italiana que floresceu sobretudo a partir dos anos 1960, em áreas como arte, design, arquitetura e moda. Valentino Garavani foi, sem dúvida, uma dessas personalidades centrais. Com um olhar apurado para a beleza, o rigor do ateliê e uma sensibilidade profundamente ligada ao espírito de seu tempo, ele ajudou a projetar o Made in Italy no cenário internacional — e fez do vermelho, o icônico Rosso Valentino, não apenas uma cor, mas um manifesto estético.

A paixão de Valentino pela cor nasceu em Barcelona. Ainda jovem, ficou profundamente fascinado por um vestido usado por uma senhora idosa, em um tom intenso e flamejante, visto na Ópera de Barcelona. A partir desse momento, o estilista passou a incluir seu vermelho inconfundível em suas coleções.

Valentino Garavani – Foto: Getty Images

Em 1959, ao inaugurar seu primeiro ateliê, Valentino transforma essa memória em decisão criativa: vestir a mulher Valentino de vermelho. Ele mal sabia que essa escolha impactaria de forma definitiva a história da moda. Uma cor que traduz ousadia, sensualidade e elegância. Desde então, o vermelho tornou-se o emblema da maison, evocando um classicismo atemporal.

“Vermelho é uma cor forte, mas ao mesmo tempo é uma ‘não-cor’. É neutra: como preto, marrom, azul ou branco. Transmite muita energia. Vermelho é vida, paixão, amor. É a cura para a tristeza.”
— Valentino Garavani

Inspirado pela Dolce Vita romana, Valentino consagra-se em 1962, na Sala Bianca de Florença. Dali em diante, constrói uma carreira pautada pela elegância absoluta, rigor artesanal e perfeição atemporal, tornando-se um dos nomes mais consagrados do Made in Italy. Sua estética, sua paixão pela excelência e seu apreço pelo feito à mão caminham sempre acompanhados da cor que marcou os diferentes momentos de sua trajetória.

Jackie Onassis – Foto: Getty Images

Além das passarelas, o vermelho Valentino vestiu grandes nomes, como Jackie Kennedy, fortalecendo ainda mais sua assinatura ao traduzir dor e força em tailleurs e vestidos que entraram para a história. Nos anos 1970, a cor ganha nova forma ao se transformar em perfume — frutado na abertura, floral em essência.

No documentário Valentino: The Last Emperor (2008), ele é definido como a cor que faz toda mulher sentir-se uma deusa. Após deixar a direção criativa da maison, Valentino teve sua trajetória celebrada neste filme. Em 2007, encerrou 45 anos de carreira com um último desfile monumental — síntese de rigor, inovação e devoção absoluta à beleza.

Em seu livro Valentino, a trajetória do estilista é apresentada como um registro visual e histórico de quase meio século de domínio da alta-costura italiana. A obra percorre sua carreira por meio de imagens de arquivo — desenhos, editoriais de moda, campanhas, retratos e registros documentais — organizadas cronologicamente e acompanhadas por artigos de jornais e revistas da época. Sempre trazendo o vermelho como identidade.

Foto: Reprodução/Instagram/@realvalentino

Sua assinatura com o vermelho se desdobra também na linha jovem RED Valentino, na maquiagem da maison e, mais recentemente, na primeira exposição da Fondazione Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti, inaugurada em maio de 2025, que escolheu Orizzonti/Rosso como tema — reafirmando o vermelho como horizonte simbólico de seu legado.

A história do Valentino Garavani com o vermelho é profunda, poética e com uma ligação inconfundível que ditou e revolucionou a moda. Mais do que uma cor, o Rosso Valentino permanece como síntese de uma visão de mundo. Um vermelho que atravessou décadas, corpos e gerações sem perder força, traduzindo beleza, rigor e emoção em estado puro. Ao transformar a memória em linguagem estética, Valentino Garavani construiu um legado que vai além da moda: um ideal de elegância eterna, onde cada vestido vermelho continua a afirmar presença.