Criar um ambiente natural jamais visto na natureza – esse era o objetivo de Ishigami Junya ao propor o transplante de mais de 300 árvores que seriam derrubadas para dar lugar a um novo empreendimento hoteleiro, na cidade de Nasu, no Japão. Foto: Priscila Koshimura

Na pequena cidade de Nasu, em meio às montanhas da província de Tochigi, no Japão, mais de 300 árvores seriam derrubadas para dar lugar a um novo empreendimento hoteleiro. Diante desse cenário, o arquiteto Ishigami Junya, que havia sido contratado para criar um jardim para o complexo, propôs uma alternativa ambiciosa: transplantar cada uma dessas árvores para uma área vizinha e, a partir delas, criar uma paisagem jamais vista na natureza. 

Assim nasceu o Mizuniwa, ou Water Garden, que eu pude conhecer em novembro passado. Concluído em 2018, o jardim receberia no ano seguinte o Prêmio Obel, concedido a projetos que oferecem soluções originais para problemas urgentes, expandindo a compreensão do espaço. Atualmente, o jardim compõe o complexo Mukunone, que abriga um hotel de luxo e um restaurante de alta gastronomia — sucessor do antigo resort Art Biotop, fechado após a pandemia. 

Junya Ishigami – “Jardim de Água”, 2018, Montanhas Nasu, Província de Tochigi, Japão.

As diferentes espécies de árvores foram meticulosamente analisadas e posicionadas para garantir sua longevidade diante da mudança de solo e de interações com elementos introduzidos artificialmente. Além de preservar a vegetação existente, Ishigami adicionou uma nova camada estética ao resgatar a memória agrícola da área que, até 50 anos antes, era formada por arrozais. Entre as 318 árvores transplantadas, então, o arquiteto moldou 160 espelhos d’água sinuosos, simulando as terras alagadas dos campos de arroz.

O arquiteto propõe, assim, uma paisagem artificial usando elementos naturais extraídos do próprio local: as árvores, o musgo, as pedras de passagem. A água usada para abastecer os espelhos d’água, conectados entre si, é captada de uma represa das imediações. Para finalizar a obra e atingir o tipo de paisagem que Ishigami vislumbrava, outro elemento seria fundamental: o tempo.   

Foto: Cortesia (Nikissimo)

Apesar da construção planejada, o resultado é surpreendentemente orgânico. Existe esse aspecto de repetição, de cadência e de ordem, mas que vão compondo um mosaico vivo, se transformando com o tempo, a cada estação. 

Uma visita completa ao jardim não se dá apenas pela contemplação à distância. Os caminhos tortuosos, cuidadosamente demarcados por pedras, convidam a uma exploração ativa. Seguimos as rotas, que ora se estendem sobre os espelhos d’água, ora se bifurcam e exigem escolhas. Às vezes nos vemos encurralados — ou melhor, ilhados. Sem pressa, retornamos e tentamos outra direção. Passear pela obra exige presença e olhar atento à beleza singular de cada lâmina d’água, refletindo o entorno.

Criar um ambiente natural jamais visto na natureza – esse era o objetivo de Ishigami Junya ao propor o transplante de mais de 300 árvores que seriam derrubadas para dar lugar a um novo empreendimento hoteleiro, na cidade de Nasu, no Japão. Foto: Priscila Koshimura

Na minha visita, as folhas caducas marcavam o fim do outono, acompanhado por um céu limpo e pela luz mais baixa do sol, que alongava as sombras dos troncos e galhos. No verão, o cenário seria outro: o verde brilhante das folhagens e o musgo denso cobrindo o solo. No inverno, a neve domina a paisagem, alternando-se com as poças d’água, que seguem fluindo pela instalação. E talvez seja essa a força do projeto: a própria natureza e o tempo se encarregam de reinventar continuamente a paisagem concebida por Ishigami.

É possível visitar o Water Garden mediante reserva ou se hospedar nos hotéis do complexo, que oferecem acesso direto ao local. Mais informações no site do Mukunone.