Cena de “O Morro dos Ventos Uivantes” – Foto: Divulgação

Por Paula Jacob

Sem nem ter estreado oficialmente nos cinemas, a versão de Emerald Fennell de “O Morro dos Ventos Uivantes” tem dividido opiniões. Apesar das válidas discussões nas redes sociais, uma coisa é certa: a estética do filme é marcante – e muito bem construída. “Tive muita sorte de trabalhar com pessoas como Jacqueline Durran [figurinista], Suzie Davies [designer de produção], Linus Sandgren [diretor de fotografia] e Siân Miller [maquiadora]. É mágico encontrar o tipo de conexão que tivemos ao traduzir o conceito visual dessa história”, conta a diretora. “Ultrapassar limites, submeter as situações à tensão exata, pouco antes de se romperem… É aí que reside o interesse de todos nós. Drama é atrito. Amor é atrito.” E no caso da história escrita por Emily Brönte o que não falta é atrito.

Cena de “O Morro dos Ventos Uivantes” – Foto: Divulgação

Apesar de Emerald e sua equipe irem para um lado menos fiel historicamente, todo o processo foi feito de maneira clássica: feito à mão e gravado em película. “Queríamos fazer um filme de estúdio à moda antiga porque você pode decidir tudo. Onde vão as janelas, como controlar a luz, pensar nos figurinos com bastante antecedência.” As cenas externas ficaram por conta da natureza de Yorkshire e seus pântanos enevoados, enquanto as cenas internas e casas foram gravadas em estúdio.

“As equipes fizeram um trabalho incrível de conseguir trazer essa essência da geografia do livro também para os estúdios em Londres, mostrando esses pântanos invadindo a casa, as pedras atravessando as paredes e, claro, o mofo onipresente”, explica Margot Robbie, que além de interpretar Cathy, é produtora executiva. Um dos ambientes mais icônicos é o quarto da personagem, um presente do marido, Edgar Linton (Shazad Latif), composto pelos tons da esposa.

Para atingir esse nível de preciosismo e obsessão afetiva, Suzie Davies imprimiu a pele de Margot, com veias e sardas, em tecido acolchoado e sobreposição transparente de látex, que foram aplicadas aos painéis que circundam o cômodo. Já na biblioteca, a natureza era encapsulada como obra de arte. “Essa era uma preocupação vitoriana: domesticar o selvagem”, diz Emerald. “Observamos trabalhos com cabelos naturais, prensagem de flores e taxidermia. São elementos naturais transformados em algo grotesco pela intervenção humana – algo que, claro, aparece no livro de Brönte.” Somado a esse ponto de partida, a designer de produção trouxe referências de filmes melodramáticos dos anos 1960 para contrapor ao período histórico de 1790 a 1870.

Cena de “O Morro dos Ventos Uivantes” – Foto: Divulgação

A pesquisa para o figurino de Cathy, inclusive, foi uma das mais extensas. Emerald conta que sentou com Jacqueline Durran para estudar uma quantia quase infinita de referências até conseguirem marcar os pontos em comum entre elas: formas, texturas e detalhes. Assim, conseguiram mapear as diferenças psicológicas de cada personagem também pelas roupas. No caso da protagonista, a ideia de femme fatale prevaleceu com cintura mais marcada, decotes, transparências e tecidos inusitados para a época, enquanto a personagem Isabella (Alison Oliver), mais contida, usa vestidos com cores doces e muitos babados, representando a sua inocência. “Trabalhei com Jacqueline em Barbie, então já tinha presenciado seu talento de perto – impressionante para dizer o mínimo. Ela me trazia referências de Alexander McQueen, fotos de Vivien Leigh, capas de revistas antigas e, de repente, suas criações ganharam vida de maneira espetacular, às vezes arrepiante. Foi um sonho”, relembra Margot.

Ao todo, ela vestiu 38 looks personalizados, com 60 trocas de figurino ao longo das filmagens, e 46 penteados diferentes, feitos por Siân Miller, números impressionantes. A Chanel forneceu joias de arquivo para Margot Robbie usar como Cathy – não à toa, Matthieu Blazy criou o vestido vermelho e branco para a atriz usar na pré-estreia em Paris, fazendo uma referência ao figurino de Vivien Leigh em “E O Vento Levou”. A curiosidade é que nenhum dos sapatos do filme é fiel à época, reforçando a ambientação estilizada pensada por Emerald Fennell, bem longe da realidade histórica.

Outra característica importante – e também distante da época – é a trilha sonora, assinada por Charli XCX. “Eu amo a música ‘Boys’ que toca em ‘Bela Vingança’, por isso decidi mandar o roteiro de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ para ela, caso sentisse alguma conexão com a história, escrevesse alguma música”, conta Emerald. “Ela me ligou perguntando se, na verdade, poderia fazer um álbum inteiro. Claro que eu disse sim”, ri. As composições envolventes e sensuais complementam a vibe da interpretação da diretora do clássico gótico.