
Fotos: Divulgação
Por Paula Jacob, de Berlim
Na competição oficial do Festival de Berlim, Rose é um dos filmes da programação que se destaca pelo seu silencioso poder. O drama de época em preto e branco, escrito e dirigido por Markus Schleinzer, acompanha a personagem-título retornar da Guerra dos Trinta Anos reivindicando uma herança de terra sob um pseudônimo masculino. Ali, na região campestre alemã, ela transforma um espaço antes infértil em terrenos prolíferos para fauna e flora. A atmosfera de contos de fadas medieval logo se torna um espaço de risco.
Com a performance sempre exata de acordo com a história e a personagem, Sandra Hüller se destaca nessa figura ambígua. A marca de cicatriz de um acidente em campo deixa o seu rosto parcialmente desconfigurado, ajudando na imagem de homem que incorporou desde os conflitos. O cabelo curto, as vestimentas, a postura, a rigidez. Ela caminha com precisão, se comunica em poucas palavras, não demonstra qualquer sinal de hesitação ou fraqueza. Coloca a mão na massa na terra e não economiza na contratação de ajudantes para a casa. Logo, se torna um exemplo positivo para os moradores locais, tratado com respeito por todos.

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O casamento com Suzanna (Caro Braun) complica um pouco as coisas. As pessoas esperam que o acordo seja consumado – e por consumado, digo sexualmente falando, resultando, claro, em um bebê. Considerando a situação delicada, Rose possui uma espécie de strapon feito de madeira, que usa para transar com a esposa em uma noite enevoada. Pouco tempo depois, ela aparece grávida. Inspirado por figuras reais de mulheres que se passavam por homens ao longo da história, o cineasta vai pontuando os papeis tradicionais de gênero que são perpetuados na sociedade até hoje.

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Após uma das funcionárias da fazenda desconfiar da sua identidade, a vila se vira contra a personagem, encurralada a comprovar a sua masculinidade. A espécie de “caça às bruxas” não dá descanso, encurralando o casal, que se descobre na liberdade dessa cumplicidade. Suzanna, agora ciente da identidade de seu marido, entende que denunciá-lo não é uma opção. Caso contrário, acabaria em uma relação opressora e possivelmente violenta com outro homem que jamais a entenderia como Rose.

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O tom que Markus Schleinzer incorpora à história mistura elementos cômicos com situações mais dramáticas, sem nunca exagerar para algum dos lados ou forçar a sua mensagem. Rose simplesmente existe, e nessa honestidade mora a sua força enquanto narrativa cinematográfica. Um dos filmes mais poéticos e profundos da Berlinale 2026.

