
A artista plástica Rose Klabin criou a performance-exposição Caldo de Confluências, em que referências culturais se encontram e se transformam. Foto: Divulgação
O público escolhe um ingrediente, hesita, tenta acertar. Rose Klabin observa, cozinha, mistura. “As pessoas revelam muito sobre si quando fazem essa escolha”, diz a artista plástica. “E quando devolvem o ingrediente ao caldo, é como se estivessem entregando uma parte de si.” Em Caldo de Confluências, performance-exposição que une arte e gastronomia, Rose articula diferentes meios para investigar como sentidos, histórias pessoais e referências culturais se encontram e se transformam. Caldo funciona como metáfora do seu modo de pensar e produzir arte. “Na cozinha, as hierarquias ficam expostas: quem prepara, quem limpa, quem come primeiro, quem nunca come.” Ao levar isso para a exibição pública, o constrangimento e a desigualdade aparecem sem filtro.

A artista plástica Rose Klabin criou a performance-exposição Caldo de Confluências, em que referências culturais se encontram e se transformam. Foto: Reprodução (instagram)
A artista conta que, por muito tempo, separou os campos, até que “percebi que essa separação era artificial e, de certa forma, repetia uma lógica patriarcal que divide trabalho doméstico e intelectual.” Em Desreceitas, seu livro de encontros e receitas (WMF Martins Fontes), esse entendimento vira método, quando ela une e documenta artistas plásticos em torno do fogão, dando origem a conversas sobre processos criativos que transitam entre ateliê e cozinha. “Cozinhar com artistas me mostrou que a panela também produz pensamento.” Quando fala de corpo e memória, Rose insiste no atrito entre o íntimo e o estrutural. “Falo também do corpo das mulheres da minha família. São memórias que herdei: a imigração, o trabalho, a violência atravessada pelas mulheres antes de mim, a memória do território”.
É nesse ponto que o Caldo ganha ainda mais densidade, em seus três atos: a escolha de ingredientes brasileiros como gesto de memória, a travessia silenciosa entre espaços e a devolução ao fogo coletivo, culminando na partilha do alimento como rito de cura e comunhão: “o que era individual vira coletivo”. As vasilhas da performance são moldadas com pó de pedras nacionais. “Quando alguém as leva à boca, junto vai um pedaço do país, com todas as suas camadas. Cozinhar sentimentos e memórias alheias é uma forma de cuidado. E também de cura.”

