
Foto: Ruy Teixeira
Por Giovana Nacca
A Casa Bola é um dos marcos mais curiosos da paisagem urbana de São Paulo. No meio da ortogonalidade corporativa da Faria Lima, a esfera prateada foi construída manualmente por Eduardo Longo nos anos 1970, movido pela busca por modos mais sustentáveis de habitação. Coincidentemente, é nesse mesmo período que Brian O’Doherty publicava seus ensaios críticos ao “cubo branco” – e não é exagero dizer que a Casa Bola é o anti-cubo branco, seu avesso geométrico e conceitual.
Apesar do nome, Longo nunca pensou o projeto como casa, mas sim como apartamento em um prédio modular. Segundo o arquiteto, o que o interessava eram os vazios entre unidades, que possibilita não serem geminadas – algo que não existe até hoje –, além da possibilidade de reconstruir a moradia por completo sem intervir na vizinhança. A proposta de morar em uma bola de 8 metros de diâmetro dispensa a marcenaria padrão, integrando o mobiliário à estrutura da casa. Camas, mesas e assentos são construídos das próprias paredes de argamassa. O que foi mal-recebido à época, até mesmo pelos familiares de Eduardo, hoje é celebrado como ícone vanguardista na ABERTO5. “Para mim está sendo ótimo porque eu estou meio ‘esquecidão’ e, apesar de vivo, estou sendo ressuscitado”, celebra Eduardo com seu típico bom-humor.
Com curadoria de Filipe Assis, Kiki Mazzucchelli e Claudia Moreira Salles, cerca de 60 obras dialogam com a arquitetura – que, pela primeira vez em décadas, é integralmente aberta à visitação pública. Segundo Filipe, idealizador do projeto anual que reúne arte e design em arquiteturas icônicas, o que seria a menor edição acabou se tornando a maior de todas. A princípio, a curadoria visava apenas o interior da Casa Bola como ambiente expositivo, mas quando conheceram seu anexo de mil metros quadrados, acertadamente redefiniram a escala da mostra. O “gaiolão”, como é apelidado, se tornou o principal ambiente expositivo, enquanto a Casa Bola foi somada à exposição como obra em si.

Ambiente expositivo da ABERTO5 – Foto: Ruy Teixeira
A entrada à exposição se dá atravessando a cortina de correntes de Daniel Steegmann Mangrané, as mesmas que já chamaram atenção no estande da Mendes Wood DM na ArtRio de 2024. Do térreo, o olhar atravessa os quatro níveis da exposição. Todos os pavimentos se conectam, mas os excessos respiram entre as frestas do espaço. O percurso é parte fundamental da fruição estética proposta. É impossível andar sobre essas malhas metálicas sem a consciência do vazio sob os pés.
Com uma maioria de trabalhos comissionados especialmente para a ocasião, muitos artistas prestam evidentes homenagens ao arquiteto. É o caso de Luiz Zerbini, que anos atrás, quando Eduardo Longo ainda vivia na Casa Bola, bateu à sua porta ao lado de Leonilson para conhecer o projeto. Na época, mesmo sem os conhecer, Longo prontamente recebeu os artistas.
Na exposição, Zerbini apresenta “A fantástica viagem de Eduardo Longo”, uma pintura estruturada por um fundo quadriculado, que faz referência aos grids de projetos arquitetônicos, coberto por tinta prateada. Sobre ele, o artista pintou esferas coloridas que a priori remetem à forma da Casa, mas também lembram planetas, visto que a obra de Longo é suspensa do solo, com o térreo liberado ao espaço público, tal qual um corpo celeste no espaço.
A ambivalência estética da Casa, que muito se parece com uma cápsula espacial e, ao mesmo tempo, com uma caverna pré-histórica – “uma mistura de Os Flintstones com Os Jetsons”, como definiu Eduardo –, também inspirou muitos dos trabalhos presentes. Com bacias, tampas e conchas de alumínio, Marepe faz “O pato”, como um robô de sucata. De forma semelhante, Laura Lima fez “discos voadores” também com utensílios de cozinha, projetando no espaço seu futurismo doméstico.

O pato – Foto: Ruy Teixeira
Outras obras se aproximam de forma mais sutil do conceito geral da exposição, como as esculturas de Rebecca Carapiá, da série “Como criar raízes aéreas”, apresentada na 36ª Bienal de São Paulo. À primeira vista, as obras de Carapiá e Eduardo se conectam pelo uso de metais. Mas o início da pesquisa plástica da artista soteropolitana também partiu de vivências pessoais com habitação. O convívio com frequentes alagamentos em sua casa na Península de Itapagipe durante a infância foi motor para discutir a negociação entre seu corpo social e as formas possíveis de habitar o mundo. No entanto, as duas esculturas presentes na edição são desdobramentos do estudo sobre as palmeiras-andantes, uma espécie amazônica cujas raízes aéreas se movimentam ao longo do tempo em busca de luz e nutrientes, e que aqui são tratadas pela artista como analogias para possibilidades de reinvenção sobre fundações ancestrais que se transformam dinamicamente.

Série Como criar raízes aéreas – Foto: Divulgação
No último pavimento, um corredor estreito nos conduz à grande protagonista: a Casa Bola. Dentro da esfera de concreto, surpreende a quantidade de cômodos encaixados no labirinto doméstico. Enquanto moradia, o projeto seria adaptado de acordo com os moradores, mas na condição de espaço expositivo aberto ao público, o corpo precisa se adaptar à forma – curvando-se junto às paredes – e não o contrário.
Fora da bolha expositiva, a ABERTO RUA testa a utopia de Eduardo Longo no mundo real. Instaladas pela extensão da Faria Lima, mais de vinte obras orbitam o planeta branco do arquiteto, de modo que, embora fisicamente afastadas do núcleo expositivo, não escapam de sua força gravitacional. Algumas se confundem com o entorno e podem passar despercebidas, outras o interrompem fortuitamente, como no trabalho de Jarbas Lopes, que dialoga com os carros e a circulação da avenida. Seus icônicos fuscas, unidos pelos assoalhos, mimetizam a geometria da Casa e desestabilizam o olhar do passante.

ABERTO RUA – Foto: Divulgação
À exemplo de obras que se integram mais organicamente à paisagem está o conjunto de fragmentos de paredes em adobes de Rosé Afefé. Pensar modos de construção e habitação, recuperando técnicas ancestrais vernaculares, é um tema caro para a artista baiana. No canteiro central, próximo ao antigo espaço do Museu da Casa Brasileira, o trabalho evidencia o processo construtivo manual, sem visar acabamento ou um objeto finalizado. Sujeito ao tempo, ao clima e ao desgaste, ele pode se transformar ou se desmanchar antes mesmo do término da exposição.
Pode-se dizer que enquanto o cubo branco pressupunha a “neutralização” do espectador no ambiente para preservar a integridade da obra, a Casa Bola impõe o embate entre corpo e arquitetura, inviabilizando qualquer passividade. Na ABERTO RUA, por sua vez, é a própria mostra que negocia espaço com o mundo. Intrusas no caminho cotidiano do público, as esculturas ali não dependem do ingresso, da conexão com o percurso curatorial ou mesmo do conhecimento sobre a exposição para serem acessadas.

