
Em seus 40 anos, cantora segue ocupando um lugar raro no pop ao juntar música, moda, performance, representação LGBTQIA+ e impacto de massa. Foto: Reprodução (Grammy)
Lady Gaga completa 40 anos neste 28 de março, carregando uma pergunta que nem toda artista saberia responder: o que faz uma artista se tornar uma diva pop num cenário em que praticamente se parou de fabricar esse tipo de produto? Quando surgiu, em 2008, muitos se apressaram em compará-la a Madonna, acusando-a de ser uma versão genérica e datada. Ledo engano. Já em seus primeiros trabalhos, Gaga buscou dialogar intimamente com a história da arte. As referências a Andy Warhol pautaram sua fase inicial, sintetizada no álbum The Fame. Basta pensar em “Who Shot Candy Warhol” ou no próprio House of Gaga, sua Factory particular de fantasias, figurinos e conceitos. Foi essa visão que a levou, por um tempo, a atuar como diretora criativa da Polaroid.
Ainda nos anos 2000, ela aprofundou sua relação com a moda como forma de chancelar e expandir sua imagem. Não se tratava apenas de usar criações de Alexander McQueen ou de desfilar para Thierry Mugler, mas de construir laços mais profundos: grandes editoriais de moda, colaborações criativas e uma estética que se tornou parte indissociável de sua identidade. A capa de The Fame Monster, fotografada por Hedi Slimane, foi um dos últimos grandes suspiros da era sombria pré-redes sociais. Esse affair com a moda rendeu amizades duradouras, como com Donatella Versace (homenageada anos depois na faixa homônima) e Nicola Formichetti, que assinou seu visual por longo tempo.

Lady Gaga e Donatella. Foto: Reprodução
Como era de se esperar, esse mergulho em moda e arte funcionou como um poderoso elixir para a comunidade LGBTQIAPN+, que historicamente usa a cultura como ferramenta de luta e expressão. Esse laço ganhou ainda mais força na era Born This Way. Ali, Gaga deixou de ser apenas uma estrela pop de visual impactante para se tornar porta-voz de uma geração que encontrava na pista de dança, na estranheza e no excesso uma forma de existir. O álbum organizou essa conexão em torno de uma mensagem simples e potente de autoaceitação. Essa conversa extrapolou a música quando ela fundou, ao lado da mãe Cynthia Germanotta, a Born This Way Foundation, voltada à saúde mental e ao bem-estar de jovens. Não era apenas estética queer para clipes e tapetes vermelhos: havia ali um entendimento genuíno de comunidade, acolhimento e linguagem compartilhada.

Lady Gaga debutando primeira bolsa de Hedi Slimane para Celine. Foto: Reprodução (instagram)
Com o tempo, essa posição só se tornou mais complexa e nuançada. Gaga passou a circular entre nomes já canonizados da música pop sem soar como uma herdeira subserviente. Elton John, que a escolheu como madrinha de seus filhos, sempre a descreveu como uma presença afetuosa e avessa ao padrão engessado da indústria. Ao mesmo tempo, ela soube manter sua relevância na moda sem depender de nostalgia. Em “Abracadabra”, um dos momentos mais marcantes de Mayhem, isso fica evidente: Gaga cruza referências de Alexander McQueen e da Givenchy de 1998 com peças vintage e criações de designers mais recentes, costurando passado e presente dentro de um mesmo delírio visual. É o tipo de pista que explica por que sua relação com a moda nunca soa acessória, afinal, ela não usa a roupa para ilustrar uma era, mas constrói a era por meio dela.

Vestido usado por Lady Gaga em seu show em Copacabana. Foto: Reprodução (instagram)
É por isso que Mayhem, lançado em 2025, soa tão relevante nessa trajetória. O álbum recoloca Gaga em contato direto com a teatralidade, a pista e o prazer da encenação, sem cair na armadilha da mera repetição dos primeiros anos. Há uma artista madura revisitando a própria gramática para provar que ainda sabe expandi-la. O Grammy de Melhor Álbum Vocal Pop em 2026 consolidou essa volta por cima, mas talvez a confirmação mais eloquente tenha vindo no Brasil: em maio de 2025, ela reuniu 2,1 milhões de pessoas em Copacabana, no maior show de sua carreira segundo a Prefeitura do Rio.
Num pop cada vez mais fragmentado, orientado por números rápidos e consumo instantâneo, Gaga ainda consegue gerar imagem coletiva, mobilização física e senso de acontecimento. Talvez seja exatamente isso que a mantém no lugar raro de última diva pop: não por nostalgia, mas porque quase ninguém hoje consegue transformar música, moda, comunidade e espetáculo numa linguagem de massa com esse nível de permanência e impacto.

