Dez anos depois de perder sua semana de moda, o Rio de Janeiro está de volta ao calendário. Não se trata de remake nem de nostalgia. A nova Rio Fashion Week surge para reorganizar o diálogo entre criação, imagem, mercado e cidade. Ela nasce entre memória e projeto, recuperando um território simbólico importante para a moda brasileira, exatamente quando o Rio volta a ser vitrine de grandes eventos e destino estratégico de turismo e cultura.
Para Olivia Merquior, curadora do evento, a operação vai além de uma ativação pontual. “A proposta da Rio Fashion Week vai além de um evento de moda: parte do entendimento de que uma semana de moda pode gerar legado para todo o país a partir de sua cidade-sede”, afirma. A comparação com o antigo Fashion Rio, embora inevitável, soa limitada. Segundo ela, o que se constrói agora tem outra escala e responde a outro momento. “Muita gente fala em ‘volta’, mas, na verdade, é um evento novo, alinhado às demandas de um mercado de moda e de negócios cada vez mais internacional”, explica.
Com a moda brasileira já circulando globalmente nas redes, visibilidade não basta. É preciso fortalecer também as estruturas de negócios para que sejam realmente competitivas, tanto aqui quanto no exterior. Três marcas femininas estreiam nas passarelas com discursos bem particulares.

Giovanna Resende/Hisha (Fotos: Divulgação)
A Hisha chega olhando para as próprias raízes mineiras. A coleção, inspirada nas memórias de São João del Rei e no barroco mineiro, traduz-se em bordados delicados, arabescos intrincados, jogos de luz e sombra e volumes que transformam a roupa quase em escultura. A estilista coloca a mulher no centro da narrativa, equilibrando delicadeza e força, ornamento e presença. “É um retorno ao berço da marca”, diz a designer. Na passarela, o desfile amplia o universo do ateliê: revela não só a peça, mas seu relevo, textura, movimento e a intenção por trás de cada ponto manual.

Monique Argalji (Fotos: Divulgação)
Por sua vez, na Argalji, o caminho é o do processo. De um ateliê independente carioca, a marca parte da experimentação na modelagem, alternando o desenvolvimento de coleção com encomendas e peças sob medida. A nova coleção explora a tensão entre a estrutura da espuma e a fluidez da malha, deixando à mostra a própria construção da roupa. A designer valoriza o tempo silencioso de testar formas até encontrar direção. “Queremos deslocar o olhar para o fazer: modelagem, costura, execução e o valor do que é criado com atenção”, comenta. Carioca, ela cresceu frequentando o antigo Fashion Rio – tentando entrar nos desfiles e festas. Estrear agora na cidade onde a marca nasceu carrega um forte sabor de realização pessoal e retorno às origens.
Radicada em Londres e já conhecida internacionalmente por sua pesquisa sobre corpo, sensualidade e o diálogo entre estrutura e fluidez,

Karoline Vitto (Fotos: Divulgação)
traz outra camada de repertório, tratando cada coleção como continuação da anterior. O foco segue sendo o corpo como agente ativo da roupa. “Queremos que o público entenda que nossa roupa só acontece de verdade quando está vestida. É o corpo que comanda”, resume a estilista. Estrear no Brasil permite apresentar a marca de forma mais crua e sensorial, recolocando em primeiro plano as referências locais, o convívio com as mulheres que inspiram o trabalho e a produção feita hoje no país. “É voltar para casa sem filtro, onde não preciso explicar as nuances”, completa.

