Foto: Divulgação

Por Miriam Spritzer

Uma pilha de caixas de papelão usadas em uma mudança, seria descartada como lixo para a maioria das pessoas. Mas Eva Jospin, viu no incômodo do material acumulado no canto do então novo atelier a oportunidade de usar suas mãos. Precisava entender como podia moldar ele, de que formas diferentes poderia usar suas camadas e texturas para transformar aquela bagunça em arte. E quem conhece seu trabalho de perto, sabe que construiu um universo encantado de florestas, grutas e catedrais imaginárias que realmente fazem o tempo parar.

Em quase 20 anos de carreira, suas instalações foram comissionadas por prestigiados espaços de arte na França como Palácio de Versalhes e o Grand Palais, bem como em renomados museus e galerias internacionais, incluindo o Museu Oscar Nienmeyer em Curitiba e Casa Bradesco em São Paulo no final de 2025. E hoje está em exposição no SCAD Museum of Art, em Savannah, na Geórgia, onde a encontramos para esta conversa. Caminhando entre as estruturas de sua nova instalação passando pelas esculturas de papelão e tapeçarias enormes, Eva Jospin comenta: “Eu sou a visitante dentro do meu próprio trabalho.”

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Refletindo sobre o seu início de carreira, Jospin explica que demorou bastante tempo para encontrar sua linguagem como artista, “eu era uma artista jovem, estava formada apenas há cinco anos, mas não estava tendo sucesso. E não estava nem tentando. Eu não me sentia pronta”. Ela sabia que saiu da École Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris com grandes habilidades mas não tinha certeza onde e como aplicá-las. Mas aquela pilha de papelão começou a chamá-la e, quase como uma brincadeira, resolveu misturar o material com fotos que encontrava em revistas e para dar profundidade. Ela se deu conta que todas as imagens, sem querer, seguiam um tema. Foi aí que disse a si mesma: “Deu. Pare com as fotos, chega de citações. Tire tudo. Não se esconda mais. Você quer entrar na floresta? Então, entre na floresta”. E foi isso que ela fez.

Sem ter ideia de quanto tempo iria demorar, começou o primeiro do que se tornaria uma série de quadros de três por três metros. “As pessoas achavam que eu tinha enlouquecido”, confessa rindo porque cada quadro levou três meses, “mas eu sabia que eu tinha gostado do resultado imediatamente. Ficou realmente lindo e as pessoas que vinham visitar o atelier ficavam também impressionadas”. Com a experiência, a vontade de fazer obras cada vez mais grandiosas só aumentou e resolveu que não queria parar até poder andar em uma de suas obras. Queria se sentir como Caminhante sobre o Mar de Névoa da famosa pintura do artista alemão Caspar David Friedrich.

E de fato, não há quem não se sinta um andarilho em suas instalações. Há algo profundamente místico, uma relação de memória e tempo que é difícil de explicar. Mesmo que possa citar Freud e outros estudiosos da mente humana, sua teoria é mais simples e visual. Sua obra é como a cidade de Roma, o que aparece na superfície, está conectado ao que não vemos logo de cara. Como nas escavações onde encontramos diferentes momentos da história, em sua obra há um acúmulo de tudo que já viu, leu e viveu e que de alguma forma está ali, criando a sensação de algo antigo e profundo.

 

Mais que o simbolismo, é o prazer de trabalhar com as mãos que a mantém tão ativa. “Quando você está envelhecendo, muitas coisas vão embora. Mas você ainda está trabalhando e isso é um presente. O atelier e as mãos ocupadas são a solução para tudo”. Moldar o material delicado, a permite ficar totalmente absorvida no seu trabalho, “é a coisa mais bonita, estar no estúdio totalmente concentrada no seu trabalho. É uma forma de estar presente no mundo”, e no final de tudo ter criado algo que se comunica com outras pessoas. Há momentos de tédio do trabalho repetitivo, principalmente quase trata-se de uma instalação de alta escala. Sempre há mais uma folha ou galho a ser colocado, mas Jospin não vê isso como um obstáculo, e sim um reflexo da vida real, que é bela e agitada mas tem em sua essência uma rotina monótona, “é algo sobre o ritmo. Você respira dentro disso. E nós repetimos coisas na nossa vida o tempo todo”.

 

Sua obra é tão encantadora que vai além do mundo da arte, é reconhecida por marcas de luxo e até desenvolveu uma instalação como cenário de desfiles da Dior nos últimos anos. E sim, o reconhecimento é importante e apreciado por ela, mas o sucesso de um artista é a parte da celebridade. “Não quero ser o centro das atenções, quero poder realizar o que está na minha mente. É isso que considero sucesso na arte”. Jospin conclui deixando claro que o maior risco do artista é se comparar a outros, é importante focar no projeto e deixar o ego de lado, “não se faz arte para se sentir bem. Se é isso que você quer, é melhor fazer yoga ou outra atividade”, brinca, “é para ser uma estrada difícil, onde você vai se frustrar e se perder. E vai ser maravilhoso”.