
Jaqueta Prada
Lázaro é íntimo das palavras. Talvez por isso suas ideias ganhem ainda mais dimensão e sua mensagem alcance tanta gente sem perder a poesia. Como bom escritor, abriu a conversa dizendo que havia algum tempo se sentia agoniado. Não ansioso, nem inquieto. “É agoniado mesmo, como a gente fala lá na Bahia”, explicou, diante da minha expressão de dúvida. “É uma agonia fazer a mesma coisa o tempo todo. É por isso que as pessoas não conseguem definir se eu sou ator de comédia, de filme alternativo, autor, apresentador de TV fechada, de TV aberta, produtor, roteirista. E quer saber? Eu gosto disso.” Talvez seja justamente essa multiplicidade que fascine. São muitos Lázaros coexistindo em altíssimo nível, todos movidos pela tal “agonia”. “É um jeito de criar novos diálogos e novos sabores para quem me acompanha”, resume. Mas nem sempre foi fácil conciliar tantas versões de si. “Às vezes elas se atrapalham. Há dois anos, tive um burnout e precisei repensar tudo. Se não tivesse levado esse susto, acho que morreria de infarto. Agora, por exemplo, estou fazendo a novela e, diferentemente de outros momentos, só estou fazendo a novela. O Lázaro de antes faria a novela, um filme e ainda escreveria um roteiro. Hoje, só estou fazendo a novela.” Ele vive o antagonista Jendal em A Nobreza do Amor (Globo). Essa agonia também explica por que sua carreira nunca seguiu uma linha reta. “Era a luta que determinava o que eu teria que fazer. Com esse compromisso, eu não tinha como exercer minha profissão com plenitude e excelência. Tinha muito mais a ver com provar para o mundo os lugares que um artista como eu poderia estar”, reflete. Foi essa lógica que o levou, em 2021, enquanto rodava o mundo com Medida Provisória, a assumir o cargo de showrunner da Amazon para desenvolver narrativas brasileiras para o Prime Video. “Eu pensei: ‘Pô, acho que vai demorar para alguém como eu ter a oportunidade de estar nesse lugar.’ E comecei a me preparar intensamente.” O desafio, porém, não estava na criação, mas na política das grandes corporações. O contrato não foi renovado. “Essas são malandragens para as quais, em uma próxima oportunidade, vou precisar estar mais pronto. O criativo me trouxe zero desafios. A gestão de pessoas, pouquíssimos. Mas essa cadeia de administrações políticas e guerra dos tronos exige uma malandragem maior.”

Camisa de baixo Cohí; camisa de cima e calça WTNB; bolsa Montblanc; joias Bormam

Full look Burberry; colar Hector Albertazzi

Full look Dod Alfaiataria; joias Bormam
Mas o corpo e a consciência pediram uma reorganização. E uma pausa. A urgência também mudou quando ele percebeu que já não era o único abrindo caminho. Hoje, vê muitos atores negros trilhando essa mesma trajetória. “Isso me deu sossego.” Depois de décadas abrindo portas, finalmente se permite apenas atravessá-las. A luta continua, mas já não ocupa todo o horizonte. “Eu não estou mais tentando provar nada para ninguém. Estou numa fase de consistência.” Só depois de 30 anos de carreira, permitiu-se viver seu primeiro vilão. “Tinha medo de as pessoas me rejeitarem, porque eu sempre fui visto como bonzinho. Mas, apesar de o público odiar o personagem, continua admirando meu trabalho.”

Jaqueta Philipp Plein; calça Francesca; joias Ara Vartanian

Camisas H&M; trench coat BOSS; joia Ara Vartanian
Se, profissionalmente, a meta é reorganizar o fluxo, a vida pessoal também ganhou espaço. Tudo de forma intencional. “A educação que eu tive era de gastar a carcaça até o fim. Agora, eu preciso conversar comigo mesmo para me lembrar de me cuidar.” Hoje, só responde mensagens depois de um determinado horário, voltou à academia, protege o sono e aprendeu a criar momentos de lazer. Todos os anos, obriga-se a aprender algo novo — não pelo desempenho, mas pela curiosidade. Entre as investidas recentes, estão um curso de gestão de pessoas e projetos e aulas de handpan. “É uma coisa em que estou lindamente fracassando. Mas o objetivo é o aprendizado, me aprimorar em algo novo.”

Full look Prada; joias Bormam

Tricô Gammba; joias Bormam
Ao longo de quase três décadas de carreira, Lázaro se tornou admirado não apenas pelo talento, mas pela maneira como ocupa o mundo. Em um momento de revisão, muita gente passou a enxergá-lo como um exemplo possível de homem contemporâneo. Ele sorri quando ouve essa leitura. Em primeiro lugar, brinca, depois desmonta qualquer idealização. “Pergunte para a Taís (Araujo, sua mulher) para você ver. Eu tenho vários defeitos”, responde. “Eu, por exemplo, sinto que ainda tenho atitudes machistas. Cada dia menos, espero.” Para ele, masculinidade é um exercício permanente de revisão. “Combater o machismo não é só deixar de praticá-lo. É também estar nessa batalha. E, ainda assim, de vez em quando, ele aparece. Seja no jeito de criar meus filhos, quando a gente dá uma vacilada, seja naquele primeiro impulso. Por isso acho que esse não é um assunto encerrado na minha vida. Vai ser constante.” Essa transformação, acredita, também passa por uma renovação da linguagem. “Os movimentos sociais e políticos passaram a ocupar mais espaço nas discussões da sociedade, e a gente foi falando mais.” Também percebeu que a ideia rígida de masculinidade o estava adoecendo. Liderar significava falar mais alto, ter sempre a última palavra, demonstrar força. “Eu tenho uma vida muito mais leve hoje. Pois me livrei das amarras que supostamente provavam minha masculinidade. Está sendo melhor para todos, mas também para mim.” A mudança aparece até na maneira como ocupa o próprio corpo. Durante a sessão de fotos desta capa, contou que tem se achado mais bonito e que experimentar o próprio estilo passou a fazer parte do seu autoconhecimento. A moda acompanhou as diferentes fases da trajetória: antes, comunicava pertencimento, depois, liberdade. Hoje, virou linguagem. “É um lugar que eu ocupo com prazer. A moda me interessa como mensagem, não como prisão.” No fim, a agonia que abriu a conversa já não soa como aflição — soa como método. É ela que o faz se declarar obsoleto de tempos em tempos para poder se refazer, aprender um instrumento em que fracassa lindamente, viver um vilão depois de décadas de bonzinho. E se tudo envelhece, como ele diz, é porque há sempre um bom motivo para recomeçar.
Créditos:
Fotos: Fe Pinheiro
Styling: Thiago Ferraz
Direção criativa: Kleber Matheus
Texto: Paola Deodoro
Beleza: Gabriel Gomez
Direção de arte: Yasmin Klein
Retoque: Fe Magliari
Produção executiva: Zuca Hub
Produtora responsável: Claudia Nunes
Produção de moda e assistentes de styling: Gabriela Fabosa e Luan Gabriel
Assistente de foto: Caio Toledo
Assistente de produção: Caio Nogueira
Camareira: Priscila Dreger
Agradecimento: Hotel Emiliano

