Em maio de 2022, quando Tomas Perez e Marina Linhares chegaram à Fazenda Boca da Ilha, era época de chuva e parte dos 52 mil metros quadrados estava debaixo d’água. A casa já estava ali, entre a vegetação. Marina preservou a construção principal, refez a cozinha e mudou uma varanda de posição por causa do vento. Os bangalôs se espalharam entre as árvores. A OIÁ abriu em 2023 com oito suítes, duas na casa e seis em três bangalôs, para até 22 hóspedes.

Foto: Divulgação

Das varandas, com redes e cantos reservados, vê-se a vida da fazenda: cavalos pastando e, do outro lado da cerca, cabras e boiadas conduzidas por vaqueiros. Dentro, móveis de Lina Bo Bardi, Carlos Motta, Jean Gillon e Paulo Alves convivem com objetos do Norte e Nordeste: poltronas Kariri de buriti, de Neca Abrantes; cadeira Cegonha, de Alfio Lisi; e uma careta de Cazumbá de Mestre Zimar, figura do bumba meu boi maranhense. Madeira, fibras e tons de terra deixam a paisagem à vista.

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Na época dos cajus, as árvores ficam carregadas, muitos frutos colorem o chão e outros apanho do pé pelo caminho. A poucos quilômetros começa o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2024. Dos mais de 156 mil hectares, cerca de 90 mil são dunas e lagoas alimentadas pelas chuvas, que elevam o lençol freático. A água vai do azul e verde ao castanho, e dunas de até 30 metros, deslocadas pelo vento de 4 a 25 metros por ano, redesenham a paisagem. De manhã, o jipe sai atrás da lagoa do dia, escolhida pela beleza da água e pela chance de tê-la só para mim. Sobe e desce a areia até que, do alto de uma duna, ela aparece lá embaixo.

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Na margem, a equipe estende uma lona clara em hastes de madeira e serve frutas, drinques, sucos e aperitivos, às vezes um piquenique inteiro. Raquetes ficam na areia e o stand-up paddle junto à água. De longe, a montagem quase some: as cores seguem areia e vegetação, as hastes lembram galhos retorcidos dentro das lagoas e o vento ergue e derruba a lona no desenho das dunas. Tudo pronto, a equipe se afasta, mas fica por perto e fora de vista, deixando a lagoa só para mim.

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O almoço muda de lugar a cada dia: dentro da casa, numa varanda, perto da horta ou sob uma grande árvore. A mesa também muda, com guardanapos, jogos americanos, louças e copos coloridos em novas combinações. A cozinha segue a estação, com pescada-amarela, caranguejo, castanha e juçara; em uma temporada, serviu camarões criados ali perto com arroz de coco fresco. Um dia, sob um grande cajueiro, o almoço foi inspirado em Catirina e Pai Francisco, personagens do bumba meu boi. Fitas coloridas pendiam dos galhos e cantadores, acompanhados por músicos, contavam a história da tradição. À tarde, quase sempre há um pôr do sol pela frente. De quadriciclo, o percurso sobe e desce pelas areias macias até um ponto alto, quando tudo fica dourado. De barco, pelo rio, passa-se entre guarás e bois com parte do corpo submersa, enquanto a luz baixa.

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Em outro dia, o Rio Alegre é de caiaque. Na vazante, a água mostra castanho, amarelo, verde e azul profundo; no raso, vê-se o fundo e a correnteza conduz quase sem remar. Há também a cultura de quem vive nos Lençóis. Seu Codó, no povoado de Espigão, ainda faz farinha d’água do jeito tradicional. De Barra, um pequeno barco segue cerca de 25 minutos pelo Rio Alegre, ziguezagueando entre vegetação e árvores meio submersas conforme o nível da água. A casa dele é cercada de flores, horta e mandioca. Entre as dunas e a fazenda, ele diz que vive no paraíso. Seu Codó conta as coisas fora de ordem: começa pela mandioca, lembra uma história pessoal, volta à farinha e, no barracão, mostra cada etapa, da pubagem, quando a mandioca fica de molho, à torrefação. Depois oferece café quente com bolo de macaxeira e fubá numa mesa de toalha florida, e a manhã termina ali, jogando conversa fora. Uma noite, a surpresa foi um luau. O jipe rodou uns vinte minutos pela areia, no escuro, com o farol iluminando só o caminho à frente e, acima, um céu chacoalhado de estrelas. Surgiram pequenas luzes: lamparinas perto de uma lagoa. Num vale entre as dunas, uma mesa, música suave e o jantar servido ali. Parecia um sonho.

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Para mais emoção, um voo panorâmico sai de Barreirinhas. Do avião, entende-se a escala: quilômetros de areia, lagoas como pontos azuis sob o sol e, na seca, o castanho da terra, o verde da vegetação e o azul da água desenhando o chão. A época muda o que se encontra. As chuvas se concentram no primeiro semestre, mais fortes entre fevereiro e maio. De junho a setembro, há mais sol e muitas lagoas seguem cheias. Depois, algumas perdem água, os rios entram em vazante e a vegetação aquática aparece. Depois de atravessar as dunas, navegar os rios e ver os Lençóis do alto, fica a sensação de que nenhuma dessas perspectivas, sozinha, revela por inteiro uma das paisagens mais bonitas do planeta.

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