
Depois de mais de duas décadas de carreira internacional como modelo, Raica Oliveira passou para o outro lado. A ITREE, marca brasileira de perfumaria de nicho que ela criou, nasceu de um percurso que começou em 2018, com o estudo de alquimia e florais, e seguiu por cursos de perfumaria botânica na Itália e na França.
A proposta trabalha matérias-primas naturais e técnicas tradicionais dentro de processos de laboratório contemporâneos, numa leitura deliberadamente discreta de luxo e de brasilidade. As memórias olfativas da própria Raica e o repertório acumulado nos anos vivendo fora do país atravessam a construção das fragrâncias.
As duas primeiras fragrâncias exploram diferentes combinações de notas florais, cítricas e amadeiradas. ALCHEMY 01 parte do frescor da bergamota e do limão para encontrar a delicadeza das rosas e a profundidade do patchouli e do almíscar. Já ALCHEMY 02 segue um caminho para um floral e envolvente, com rosa e jasmim combinados a notas mais terrosas e amadeiradas.
Em conversa com a Harper’s Bazaar Brasil, ela fala sobre a criação da marca, as referências que carrega desde a infância e o que foi mais difícil em transformar uma pesquisa pessoal em negócio.

HARPER’S BAZAAR BRASIL – Você viajou o mundo por mais de vinte anos como modelo. O que dessa trajetória entrou na ITREE, mesmo sem você perceber?
RAICA OLIVEIRA – Viajar pelo mundo me permitiu conhecer diferentes culturas e perceber que o luxo não está necessariamente ligado ao que é excessivamente sofisticado ou caro. Em algumas culturas asiáticas, por exemplo, encontrei uma sofisticação muito especial nas matérias-primas locais, no trabalho manual e na simplicidade cuidadosamente elaborada. Ao mesmo tempo, viver nas grandes capitais me colocou em contato com outro tipo de refinamento, presente na arte, na arquitetura e na cultura.
A ITREE nasce um pouco desse encontro entre os dois universos, da busca por um caminho do meio em que o simples pode ser extremamente refinado. Quando comecei a estudar perfumaria botânica, encontrei isso de novo no universo dos óleos essenciais, das macerações e das técnicas ancestrais. Mas quis unir esse conhecimento à precisão e à sofisticação de um laboratório contemporâneo.
HBB – Em que momento a pesquisa pessoal virou marca?
RO – Meus estudos começaram em 2018, com a alquimia e os florais alquímicos. Tudo começou como uma curiosidade sobre o potencial transformador desse conhecimento, mas, ao longo de três anos de estudo e de um estágio prático, fui percebendo, em mim e nas pessoas que acompanhei, o quanto esse universo poderia ser profundo.
A partir daí, me interessei cada vez mais pelo poder das plantas, dos óleos essenciais e pela relação entre natureza, bem-estar e autoconhecimento. A ITREE nasceu primeiro como uma plataforma de autoconhecimento e depois como marca de perfumaria.

ALCHEMY 01 explora notas cítricas e florais; ALCHEMY 02 segue um caminho floral e amadeirado
HBB – Existe algum cheiro da sua infância que ainda influencia a forma como você pensa um perfume?
RO – Eu tinha uma árvore de carambola em casa e ficava fascinada observando aquelas pequenas flores brancas surgirem antes dos frutos. Até hoje guardo uma lembrança muito afetiva daquela árvore. Também me marcaram os aromas da laranjeira, da flor de laranjeira e do limão. São cheiros muito simples, mas que ficaram profundamente associados à minha infância e continuam presentes na forma como percebo um perfume.
HBB – Como equilibrar técnica ancestral e laboratório moderno?
RO – Meus estudos começaram na perfumaria botânica, na Itália e na França, com macerações, florais e óleos essenciais, e aprendi a criar perfumes de forma essencialmente artesanal.
Quando decidi transformar esse conhecimento em marca, percebi que precisava de um laboratório que respeitasse essa origem e entendesse a complexidade das matérias-primas naturais. Por isso a escolha foi tão importante. Eu queria preservar ao máximo a essência do conhecimento botânico, mas aliá-lo à precisão, à segurança e à tecnologia necessárias para uma produção maior.


HBB – O que significa construir uma marca brasileira de nicho sem recorrer aos códigos óbvios de brasilidade?
RO – Sempre quis manter a identidade da ITREE mais minimalista, limpa e silenciosa, reverenciando as formas e a força da natureza. Depois de mais de 20 anos vivendo fora do Brasil, quis trazer uma visão mais cosmopolita para a marca, sem recorrer a cores muito vibrantes ou referências tropicais literais.
A brasilidade da ITREE está nessa sutileza: na natureza que nos cerca, na escolha das matérias-primas e na maneira de olhar para o mundo natural. Uma perfumaria de nicho não precisa explicar sua origem de forma explícita. Pode deixar que a própria natureza fale por si.
HBB – Depois de anos sendo o rosto de marcas internacionais, o que foi mais difícil em construir a sua?
RO – Essa passagem aconteceu de forma muito natural. Como a ITREE nasceu de um desejo profundo e de uma visão que venho construindo há anos, assumir o lugar de rosto da marca foi uma consequência espontânea.
O mais desafiador, nesses quase quatro anos, foi transformar essa visão em um negócio praticamente do zero e encontrar as pessoas certas. Pessoas que não apenas tivessem conhecimento técnico, mas que compreendessem a linguagem, os valores e a sensibilidade da ITREE. Construir essa equipe e encontrar parceiros que compartilhassem da mesma visão foi a parte mais difícil.

