por Daigo Olivia

VESTINDO UMA CAMISOLA e com o sutiã à mostra, uma mulher, de cabelo amarrado com extremo cuidado, fita o chão. Em outra cena, uma garota, trajando um figurino que parece ter sido roubado de uma personagem de “Mad Men”, mira com extraordinário desânimo a louça do café da manhã. Nem adianta pedir, ninguém vai esboçar um sorriso nas imagens do fotógrafo holandês Erwin Olaf.

Mesmo nos raros momentos em que um discreto gozo aparece nos registros desse artista de 56 anos, as poses rígidas de seus retratados dominam as cenas. Os sorrisos são forçados, fabricados, e Olaf não esconde a vontade de disseminar um clima pesado, porém belo, de desesperança.
Assim como o nome de seu trabalho mais conhecido, “Grief”, ou luto, no qual imagina as reações dos norte-americanos ao assassinato do ex-presidente J. F. Kennedy, muitos dos títulos de suas obras são tirados de um vocabulário sombrio.

“Queda”, “chuva” e “esperança” –uma óbvia ironia para mais uma série de fotografias em que a expectativa de que algo benéfico vá ocorrer inexiste– são palavras que chamam a atenção na carreira do holandês que despontou no final da década de 1980, quando, aos 29, venceu a Young European Photographer Competition.

Enquanto a melancolia é um elemento constante, a produção de Olaf oscila entre ensaios fotográficos autorais, vídeos, instalações e editoriais de moda para grandes grifes e revistas, como Bottega Veneta e Diesel. Até o dia 1º de maio, é possível rever a década mais recente do fotógrafo no Centro de Arte Contemporânea de Málaga, na Espanha, que exibe imagens das obras “Keyhole”, “Le Dernier Cri”, “Berlin” e “Hope”, além de “Grief”. Ele transita entre diferentes suportes, mas sua base estética se encontra na moda e parte sempre da construção de um mundo fabricado, subvertendo a ideia de felicidade. Mesmo que as roupas e os cenários –que mais parecem catálogos de peças de design de luxo– estejam sempre impecáveis, a atmosfera em torno dos modelos exala apatia, como se a companhia de objetos tão caros não bastasse para completar a vida.
Embora Olaf esteja longe da elegância clássica de Helmut Newton ou do despojamento fingido com que Terry Richardson fotografa, o holandês é outro fotógrafo a inverter as relações estéticas dos editorias de moda. Em vez de ser pautado por coleções, é a concepção visual de seus próprios trabalhos que dita como as roupas serão apresentadas. Nesse sentido, ele está mais próximo das cenas meticulosas e megalomaníacas criadas pelo norte-americano Gregory Crewdson, mas retorna a uma paleta de cores extraída dos anos 1960.

Por vezes, o artista incorre em exageros computadorizados, com delírios artificiais de rostos distorcidos e cores de uma plasticidade quase excessiva. Na maioria dos casos, esses recursos aparecem de maneira mais sutil, apenas reforçando a ideia de que, ao apontar uma câmera, tudo ao redor deixa de ser natural para se tornar uma performance. Olaf faz da moda uma ferramenta perversa que, ao mesmo tempo, estimula e escancara a melancolia do consumismo.