Para curador da Bienal, “a sociedade do espetáculo está ligada às redes sociais”

Leia entrevista exclusiva com Jacopo Crivelli Visconti

by Ligia Kas
Jacopo Crivelli Visconti - Foto: Divulgação

Jacopo Crivelli Visconti – Foto: Divulgação

Por Camila Martins

A Bienal de São Paulo é, sem dúvida, o evento mais importante de arte no Brasil, assim pensa Jacopo Crivelli Visconti, o novo curador escolhido pelo presidente da Fundação Bienal, José Olympio da Veiga Pereira, por meio de uma seleção entre cinco curadores nacionais e internacionais.  De acordo com o italiano Visconti , radicado há 20 anos em São Paulo [ele já se considera brasileiro], a 34ª edição foi selecionada como um grande projeto para estruturar a mostra a partir do conceito de “relação” inspirada pelas reflexões de pensadores como Édouard Glissant (Sainte-Marie, Martinica, 1928 – Paris, 2011). Visconti já escalou um time com Paulo Miyada (curador-adjunto) e Carla Zaccagnini e Francesco Stocchi e Ruth Estévez (curadores convidados) para compor sua equipe.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

O curador construiu uma carreira sólida fora do Brasil, com boa curadoria também em galerias nacionais. Autor da tese “Novas Derivas”, cita “Debord” entre muitos outros artistas contemporâneos, arquitetos e aborda o movimento situacionista em seu livro. Em entrevista à Bazaar Art, relata que a “sociedade do espetáculo”, hoje, está ligada às redes sociais.

Ele diz acreditar que o diálogo entre as pessoas sempre é mais importante, partindo do ponto em que as pessoas estão mais fechadas e que será interessante fazer este diálogo entre a Bienal e as instituições, que acontecerá em 2020, partindo do que Glissant fala, e que em 2021 serão outras configurações, na exposição maior, onde poderão ser vistas e lidas a partir de outras relações.

Essas mostras serão produzidas em colaboração com instituições internacionais. Quanto ao cenário da arte fora do Brasil, ele diz achar mais positivo do que exótico, como já foi há 20 anos.

“Cada vez mais a gente só interage com pessoas que têm uma opinião parecida com a nossa. É um momento em que temos que fazer um esforço para nos abrirmos ao diálogo e aceitarmos a adversidade dos outros, que é algo que Glissant fala. Uma forma de aceitar o próximo naquilo que ele é tão diferente da gente e que não entendemos. Existe falta de compreensão, que é o que a sociedade contemporânea tem cada vez menos. As redes sociais, de uma maneira geral, levam muito à polarização das posições de cada um. As pessoas estão acostumadas à definição de algoritmos com o que pensam que tem que ser, ou seja, todos os pensamentos têm que ser iguais. Ninguém mais escuta ninguém.”

Leia a seguir íntegra da entrevista com Crivelli Visconti:

Quando o senhor cita “Debord” em sua tese no livro “Novas Derivas” e fala sobre a “sociedade do espetáculo” tem haver também com as redes sociais?
Eu diria que a análise do “Debord” está muito aguda, precisa e clara de acordo com as redes sociais.

Como será a próxima etapa para a Bienal? 
Somos um time que engloba cinco curadores, e nas próximas semanas teremos intensas reuniões para definir quem são os artistas.

Como o senhor enxerga o público da arte no Brasil? 
O Brasil é um lugar que tem muitos públicos diferentes. Em São Paulo, por exemplo, temos como um dos objetivos principais tentar lidar com essa massa de públicos diferentes. O público da Bienal inclui um pouco de tudo, inclui especializado, nacional, internacional ou local. Somos uma instituição que lida com a maior diversidade de públicos. Dentro das instituições contemporâneas, poucas como a Bienal recebem um público tão diferente, e esta Bienal queremos adequar a todos os públicos. Queremos estar prontos a dialogar com todos os tipos de pessoas.

Como o senhor vê a arte brasileira no exterior? Acha que está mais difundida? Está sendo colecionada? Consumida? O que se consome lá fora? 
Certamente, nas últimas duas décadas, digamos, teve uma transformação total. Sempre teve artistas brasileiros   Importantes e reconhecidos, mas por um “nicho” que acompanhava a arte contemporânea internacional de uma maneira muito profissional. Nos últimos 20 anos – e muito pelo trabalho de galerias e curadores mundo afora – o cenário da arte no exterior já se tornou um componente da arte internacional. Não mais algo exótico, mas algo que realmente pertence a uma posição internacional, e isso é algo relativamente recente. Da época da Tarsila para hoje a diferença é brutal.

Como foi recebido o Pavilhão da Bienal do Brasil em Veneza pela crítica ?
Muito bem, lotou de gente.

Na próxima edição, são várias programações e em vários locais fora da Bienal. 
Serão três exposições individuais mais performáticas no Pavilhão da Bienal ao longo de 2020, e no período específico da Bienal, que é de setembro há dezembro, vai ter uma colaboração com uma rede de 20 ou 25 instituições de São Paulo, e a ideia é que você possa ver nestas instituições os mesmos artistas que você vê na Bienal. Só que nestas instituições você verá exposições individuais deles, na Bienal, em um conjunto, de uma exposição coletiva para que o público possa fazer outra análise e outra interpretação da obra.

O projeto que a Bienal chama as instituições para compartilhar exposições em contextos diferentes é um diálogo entre a Bienal e as instituições, como o senhor falou de Glissant? 
O movimento é daqui para outro lugar ou de outro lugar para a Bienal, mas a ideia como um diálogo entre as instituições e a leitura muda de um lugar para o outro dependendo do contexto de onde você vê cada obra.  Mas se você vê a obra de um artista onde todos abordam o mesmo tema em um lugar, e vê uma individual do artista em outro, você faz outra leitura. É isso o que acontecerá no Pavilhão da Bienal e nas instituições ao longo dos meses.

Como os curadores enxergam o Brasil hoje e a arte Brasileira? 
Não é mais totalmente exótica e distinta do dia a dia de um curador que mais ou menos acompanha a arte em geral. Há um conhecimento muito mais profundo do que havia há algumas décadas. Mesmo com todos os acontecimentos políticos, econômicos, tudo que define um pouco os rumos que o Brasil toma é entendido de uma maneira muito mais clara lá fora do que era antes.

Por conta dos escândalos e da política, o senhor acha que isso dificultou a imagem da arte brasileira no exterior ou ao contrário?
Acho que não. O importante é como a arte reage a estes contextos. Como o artista reage ao contexto que ele está vivendo.

Como o senhor enxerga o colecionismo no Brasil?
Cresceu, e com artistas internacionais. Existem coleções que procuram preservar a memória dos artistas brasileiros do século 20 aos contemporâneos. São coleções que, de repente, conseguem – até com mais facilidade e mais recursos do que coleções públicas – juntar obras muito expressivas da produção brasileira dos últimos 40 ou 50 anos e em muitos casos são colecionadores bastante esclarecidos, que entendem que em algum momento essas coleções poderão ir para museus públicos.