Abusada aos 6 anos, Maya Angelou é a grande poetiza que inspira 28 murais

A arte foi espalhada por Los Angeles por alunos da Dr. Maya Angelou Community High School

by redação bazaar
O rosto de Maya Angelou pintado pelo americano Shawn Michael Warren - Foto: Divulgação

O rosto de Maya Angelou pintado pelo americano Shawn Michael Warren – Foto: Divulgação

Por Julia Flamingo

“Você pode me fuzilar com palavras e me retalhar com seu olhar. Pode me matar com seu ódio. Ainda assim, como o ar, vou me levantar.” O poema “Still I Rise”, de Maya Angelou, foi publicado em 1978 e é até hoje um lema de resistência antirracista, que empodera mulheres como a congressista americana Ilhan Omar: foi com essas palavras que respondeu a Trump quando, em julho de 2019, esteve entre as quatro mulheres negras a quem o presidente sugeriu que “voltasse para casa”.

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Artista, poetisa, cantora, atriz, dançarina, Maya Angelou era uma mulher de 1,80 m de altura, incrivelmente carismática, sensual e culta, que até seu falecimento, em 2014, aos 86 anos, pronunciou algumas das palavras mais emblemáticas na luta contra o apartheid e o racismo nos Estados Unidos. Este ano, o legado de Maya Angelou foi, mais uma vez, a força motriz para um grande grupo de estudantes e artistas promoverem a resistência e clamarem por representatividade. O Maya Angelou Mural Festival promoveu uma merecida e duradoura homenagem visual, com a produção de 28 pinturas feitas em muros pela cidade de Los Angeles.

Obra do francês Zuco - Foto: Divulgação

Obra do francês Zuco – Foto: Divulgação

O evento foi criado em torno da Dr. Maya Angelou Community High School, que adotou o nome da ativista após uma votação entre os alunos da escola. Eles também escolheram um pássaro como mascote, para simbolizar o famoso livro “Sei Por Que Canta o Pássaro na Gaiola”, o primeiro de cinco volumes da autobiografia de Maya, publicado em 1969. A obra é leitura obrigatória entre diversas comunidades dos Estados Unidos: em formato de prosa, Maya conta sobre seus primeiros 16 anos, quando tentava sobreviver à realidade preconceituosa de Stamps, no Arkansas.

Nessas páginas, relembra episódios como quando, aos 3 anos de idade, foi colocada em um trem sozinha para uma longa viagem para visitar a avó. Ou a história chocante de quando foi abusada sexualmente pelo namorado da mãe – depois de tê-lo denunciado ao irmão, o agressor foi assassinado e Maya parou de falar. “Minha lógica de 7 anos de idade me disse que a minha voz havia matado um homem”, conta ela, no documentário “Still I Rise”, de 2016, disponível na Netflix. “Então, deixei de falar por cinco anos.”

O americano Alex Void durante a produção do seu mural - Foto: Divulgação

O americano Alex Void durante a produção do seu mural – Foto: Divulgação

As histórias inspiraram a artista Jona Meelan – que esteve entre os 33 convidados a participar do festival – a criar seu mural a partir da figura de uma das estudantes da escola, ao lado das asas de uma fênix. “Era claro para mim, como uma artista imigrante pintando um mural numa comunidade imigrante, que eu deveria expressar a realidade deles e a minha numa só voz”, conta.

Assim, ela escolheu enaltecer a jovem Dilcia Sanchez, que atravessou a pé a fronteira dos Estados Unidos a fim de fugir da violenta realidade de Honduras. Victoria Cassinova também retratou uma das estudantes ao lado de frases do poema de Maya Angelou “Mulher Fenomenal”: “Quando eu era criança, minha mãe leu esses versos para mim e as palavras ficaram comigo a partir de então. Me inspirei nas frases de Maya que mais mexem comigo para criar algo positivo e empoderador para esses jovens”, conta.

Mais da metade dos artistas participantes do evento era local e outros vieram de países como Suíça, Espanha e Brasil, trazendo suas realidades pessoais e sociais ao contexto do festival. O brasileiro Nunca pintou dois personagens gigantes que leem livros sentados enquanto as pinturas tribais dos seus corpos se misturam com trechos de poemas da ativista. “Esse trabalho é dedicado aos alunos, aos moradores de South Central e a todos os brasileiros que estão batalhando para ter a qualidade de ensino e o direito de estudar com mais investimentos nas escolas e faculdades públicas”, diz o artista.

Mural feito pelo artista brasileiro Nunca, em Los Angeles - Foto: Divulgação

Mural feito pelo artista brasileiro Nunca, em Los Angeles – Foto: Divulgação

Organizado pela produtora Branded Arts, o evento também trouxe nomes como o grafiteiro português Add Fuel, o artista americano Daniel Arsham e o francês JR, que levou sua famosa van “Inside Out”, uma cabine fotográfica ambulante, na qual pessoas anônimas tiram suas fotos e imprimem em grandes cartazes, que são colados nos muros da escola.

Nos cinco anos que passou calada, a poeta leu todos os livros da escola de negros e todos os livros que conseguia pegar na escola de brancos. Decorou peças inteiras de Shakespeare e poesias completas de Edgar Allan Poe. “Quando decidi falar, tinha muito a dizer.” Assim, tornou-se amiga e uma das principais figuras femininas ao lado de Malcom X. e Martin Luther King; viveu e aconteceu no Egito e em Gana; contribuiu para diversos jornais; leu seu poema “In The Pulse of Morning” no evento de posse do presidente Bill Clinton; foi diretora de filmes e deu aulas e palestras em universidades de todo o mundo.

Era a maior festeira e foi casada com vários homens (negros e brancos). Vestia as roupas africanas mais coloridas que podia e rapidamente transformava sua fala num canto que vinha acompanhado de passos de dança. “Ela foi uma heroína”, diz Warren Brand, o curador do festival de Los Angeles. E que heroína!

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