Arte usa tecnologia para ampliar as sensações

Do romantismo alemão do século 19 aos coletivos multimídia, a Arte Total surge agora aliada ao digital imersivo, gênero que invade instituições e obras de diferentes criativos

by redação bazaar
Flowers and People Cannot be Controlled but Live Together (2017), do coletivo japonês TeamLab - Foto: Divulgação

Flowers and People Cannot be Controlled but Live Together (2017), do coletivo japonês TeamLab – Foto: Divulgação

Por Ana Carolina Ralston

O compositor alemão Richard Wagner (1813-1883) defendia arduamente que a música, a dança, as artes plásticas, a arquitetura e o teatro deveriam estar unidos e atuar de forma complementar. Por isso, em suas óperas, ele fazia questão de unificar a dramaturgia a outros diferentes segmentos da arte em uma comunhão que mexia com os sentidos.

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A esse conceito, oriundo do romantismo alemão do século 19, foi dado o nome de Gesamtkunstwerk ou Obra de Arte Total, em português. Nela, a imersão na peça era necessária para que o expectador entendesse o verdadeiro conceito que a norteava. O movimento contou com vários adeptos ao longo da História, que sugeriam esse mergulho na experimentação das obras, reforçando sempre a presença latente de nossos sentidos para compreendê-las. Entre eles está o alemão Kurt Schwitters (18871948), um exímio pintor, poeta, escritor e até arquiteto.

Pling Pling (2009), do brasileiro Cildo Meireles - Foto: Divulgação

Pling Pling (2009), do brasileiro Cildo Meireles – Foto: Divulgação

Sua arte “cria relacionamentos entre as coisas do mundo”, dizia o artista à época. Com o passar dos anos, a tecnologia veio facilitar a união entre as diferentes expressões artísticas, proporcionando formas híbridas de criação. Pode-se dizer que a Arte Total idealizada por Wagner no século 19 viria a ser potencializada pelo desenvolvimento do mundo multimídia que nos rodeia hoje.

Neste novo momento, com a tecnologia a nosso favor, surgiram produções como a do americano James Turrell, que associa luz, movimento e arquitetura aos projetos que faz (muitas vezes em conjunto com o psicólogo Edward Wortz), como se submergíssemos em um universo extraterreno para conhecer os meandros de sua mente. Turrell trabalha tanto com a luz natural como com a produção dessa luminosidade de forma artificial, sempre norteado pelo rigor no planejamento e na arquitetura que constrói seus ambientes.

Amethyst Ball Cavern (2018), do americano Daniel Arsham - Foto: Divulgação

Amethyst Ball Cavern (2018), do americano Daniel Arsham – Foto: Divulgação

Em certas instalações, o expectador só pode visualizá-la por completo em determinada hora do dia ou depois de mover-se por alguns minutos dentro do espaço. Isso faz com que o cálculo da espessura das paredes, a profundidade e o tamanho do ambiente sejam fundamentais para a reverberação do som e, consequentemente, da conexão dos visitantes com a obra.

Outro nome atual que tem ganhado força é o também americano Daniel Arsham, que dirige escritórios com projetos arquitetônicos e artísticos mesclados com maestria. Arsham não só cria ambientes completamente improváveis em galerias e museus, como acrescenta a sinestesia ao seu processo, nos fazendo misturar os sentidos e causando até certa ilusão de ótica. No Brasil, um exemplo importante dessa mescla estranhamente harmônica é a obra “Pling Pling” (2009), do carioca Cildo Meireles, reeditada pela galeria Luisa Strina, representante do artista em São Paulo.

 Breathing Light (2013), do americano James Turrell - Foto: Divulgação

Breathing Light (2013), do americano James Turrell – Foto: Divulgação

Nela, Cildo nos faz entrar literalmente em sua criação, aflorando nossas sensações ao nos colocar em quartos coloridos com luzes vindas de onde menos imaginamos. Ao retornar a um ambiente previamente visto como azul, é possível vê-lo em outra cor, causando-nos até certa confusão cognitiva.

Atualmente, a tecnologia tem tomado a dianteira e oferecido novas modalidades de imersão. É compreensível o sucesso de tais instalações se pensarmos em quão em voga está a palavra “experiência”, seja em viagens, na gastronomia e, por que não, na arte. Entre os criativos em alta do momento está o coletivo japonês TeamLab. Fundado em 2001, o grupo interdisciplinar, formado por arquitetos, matemáticos, pintores, programadores e animadores especializados, produz instalações autorais desenhadas de forma totalmente interativa.

The Inner Way (1999), de James Turrell - Foto: Divulgação

The Inner Way (1999), de James Turrell – Foto: Divulgação

Ao serem tocadas, as telas mudam de cor e forma de acordo com a presença do calor humano. Um dos pontos principais abordados por eles é a nossa ligação com a natureza e também a sinergia que pode existir entre esses dois universos e a arte. Não foram só os artistas que decidiram unir forças com a arte digital imersiva. Instituições também têm mostrado grande interesse no gênero, entre elas o novo Atelier des Lumières, em Paris.

O endereço, inaugurado no ano passado, ocupa uma antiga fábrica de fundição, de 1835. Abandonada em 2000, foi redescoberta 13 anos depois por Bruno Monnier, presidente do Culturespaces – instituição que fomenta espaços culturais pela Europa –, que tinha a ideia de abrir um centro de arte digital em Paris, após sua bem-sucedida empreitada em Provença, com o Carrières Lumières Art Centre.

 Up There, da brasileira Regina Silveira - Foto: Divulgação

Up There, da brasileira Regina Silveira – Foto: Divulgação

A reforma da fábrica durou quatro anos e, enfim, abriu suas portas em 2018. Até dezembro deste ano, será apresentada por lá uma exposição digital imersiva sobre a vida e obra de Vincent van Gogh (18531890), que acontece simultaneamente à exposição de suas pinturas na Tate Britain, em Londres. Em São Paulo, alguns espaços têm investido nesse modelo, como é o caso do Farol Santander, no centro de São Paulo.

Desde o ano passado, quando foi inaugurado, o local abriga inúmeras exposições do gênero, como a Tubo, da dupla brasileira Rejane Cantoni e Leandro Crescenti, que reproduz a vista exata do farol em diferentes horas do dia dentro de um túnel metalizado, uma espécie de caleidoscópio gigante.

 Planets (2018), do coletivo japonês TeamLab - Foto: Divulgação

Planets (2018), do coletivo japonês TeamLab – Foto: Divulgação

A sensação ao entrar na obra é de estar flutuando no céu da cidade. Atualmente, é possível visitar “Up There”, da brasileira Regina Silveira, e Além do Infinito, do francês Serge Salat, ambas imersivas e em cartaz até maio. Apesar de ampliar as fronteiras da arte, muitos curadores e criativos se mostram ainda receosos em relação ao impacto desse mais recente degrau da Arte Total, argumentando que essa imersão promove um esvaziamento dos ideais das obras em detrimento da técnica.

Na busca da perfeição estética e imersiva, a produção talvez se torne ideologicamente mais simples. Como retroceder tecnologicamente é impossível, a sugestão é deixar-se levar por essas sensações e tirar sua própria conclusão.


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