Foto: divulgação
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por Marcos Grinspum Ferraz

Para o  arquiteto Alejandro Aravena, este é um ano especial. Além de assumir a direção artística da 15ª Bienal de Arquitetura de Veneza, que acontece a partir de maio nacidade italiana, o chileno foi o vencedor do prêmio Pritzker, considerado uma espécie de Oscar ou Nobel da profissão. Aravena está à frente, portanto, do mais importante evento da arquitetura mundial, ao mesmo tempo em que recebe a premiação máxima da categoria, entregue desde 1979 a um arquiteto. Isso tudo só com 48 anos de idade, algo raro em uma profissão que costuma exigir tempo para oferecer grandes reconhecimentos –Luis Barragán, Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha, por exemplo, os outros três latino-americanos já agraciados com o Pritzker, tinham todos perto de 80 anos de idade quando receberam a honraria. Considerado por alguns como um exemplo a ser seguido e por outros como mais midiático e bem relacionado do que de fato inovador, o arquiteto sem dúvida ajuda a promover debates fundamentais para o cenário contemporâneo.

As motivações que fazem tantos olhares mundo afora se voltarem para o trabalho do chileno estão ligadas a questões ambientais e sociais que ganham cada vez mais vulto no mundo atual. O próprio Aravena se apresenta, junto ao seu escritório Elemental, com sede em Santiago, como um arquiteto que tenta solucionar, a partir de ideias simples e econômicas, alguns dos grandes desafios globais, como os da urbanização e da sustentabilidade. Ele projetou mais de 2.500 habitações sociais de baixo custo no Chile
e no México, além de praças públicas, sistemas de transporte e outros espaços ligados à infraestrutura urbana. É autor também de grandes edifícios –como o prédio de dormitórios da Universidade St. Edward, em Austin, o Centro de Inovação da Universidade Católica, em Santiago, e o edifício de escritórios Novartis, em Xangai, nos quais buscou a redução dos gastos energéticos por meio do uso de ventilação e luz naturais. Desenvolveu ainda um plano de reconstrução póstsunami da cidade chilena de Constitución.

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Nesses e em outros projetos, em especial nos de cunho social, o arquiteto chama a atenção por assumir um papel ativo em diferentes âmbitos do trabalho, para além das tarefas de desenhar ou de acompanhar as obras. Dialogar com a população, com autoridades, advogados, ambientalistas ou construtores é prática usual para o time do Elemental, no que o chileno chama de uma necessária expansão do papel do arquiteto. “Um dos grandes erros é a tendência para lidar com problemas que só interessam a outros arquitetos”, disse Aravena em entrevista ao jornal britânico “The Guardian”. “O maior desafio é lidar com questões importantes exteriores à profissão –pobreza, poluição, congestionamento, segregação– e aplicar a elas os nossos conhecimentos específicos.”

É esse o tipo de debate que ele pretende levar para a Bienal de Veneza, sobre como projetos urbanos transformadores podem, por exemplo, ajudar a reduzir desigualdades sociais –isso tudo mesmo sem levar em conta a redistribuição de renda ou outras questões econômicas.

Formado pela Universidade Católica do Chile em 1992, Aravena teve seus primeiros trabalhos reconhecidos no fim dos anos 1990, mas foi no início da década seguinte que apareceu com mais força para o mundo, em especial com o projeto de habitação social de Quinta Monroy, na cidade chilena de Iquique. Com uma difícil equação para resolver –pouca verba, espaço reduzido e reinvindicações da população que já ocupava de forma ilegal o local– o Elemental optou por um caminho incomum, que chamou de “metade de uma boa casa”.

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Se não havia condições para construir uma casa completa de 80 metros quadrados, na qual uma família de classe média poderia viver bem, por que não construir metade dela e deixar espaço para a família expandir o imóvel quando tiver condições para isso? As chamadas casas “expandíveis” ou “incrementais” se tornaram marca do trabalho de Aravena e, com diferentes designs, foram projetadas por ele em diversas outras cidades. “Você fornece a estrutura, a parte que as famílias não poderiam fazer, e a partir de então elas assumem”, escreveu o arquiteto. “A falta de recursos exige abundância de sentido. A abundância de recursos pode levar a uma falta de sentido, a fazer as coisas só porque você pode.”

Mesmo com tamanho destaque, há quem relativize a importância do trabalho do chileno. De acordo com Hugo Segawa, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a noção de uma célula inicial que é fornecida aos moradores existe desde os anos 1960. “Não acho que o conjunto de Quinta Monroy tenha uma solução inovadora, como dizem por aí”, diz. Fora esse aspecto, Segawa faz uma crítica mais ampla ao Pritzker, prêmio que considera sobrevalorizado pela mídia. “Não dá pra dizer que é uma premiação muito coerente ao longo do tempo. Ela nunca reconheceu, por exemplo, um Lelé o brasileiro João Filgueiras Lima, ou um Eladio Dieste [uruguaio]”, afirma. “Este ano, acho que uma série de arquitetos podiam ter ganho. O Aravena é um, assim como tantos outros. Não acho que ele seja excepcional, que traga contribuições extraordinárias que transcendam o que é o panorama da arquitetura internacional hoje.”

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Segawa não nega, no entanto, a importância que ele pode ter na direção da Bienal de Veneza, em especial por ser o primeiro latinoamericano a assumir o posto e, desse modo, ter a chance de levar importantes debates globais ao evento. Intitulada “Reporting from the Front”, a edição se propõe a investigar o papel dos arquitetos na luta para melhorar as condições de vida em lugares carentes. O assunto são arquiteturas que trabalham com as limitações impostas pela falta de recursos e projetos que subvertem o status quo para produzir em nome do bem coletivo.

Na opinião de Hector Vigliecca, arquiteto uruguaio radicado no Brasil, a escolha é acertada. “Aravena, como curador desta Bienal, quer promover um debate social. Uma grande oportunidade de se valorizar o que é essencial, deixando de lado formalismos exóticos e bizarros”, afirma. “O tema proposto enfatiza as arquiteturas que se fazem com o mínimo de elementos e apresentam um resultado social importante. Esperamos que desta vez estejam na Bienal as arquiteturas que valorizam o enraizamento ontológico das pessoas em vez de imagens mercadológicas.”