Corpo feminino é o veículo criativo de Regina Parra

Artista está no 36º Panorama do MAM, em São Paulo

by redação bazaar
Foto: Divulgação

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Por Mariana Barbosa

Regina Parra catalisa o corpo em representações vertiginosas. Seja em Nova York ou São Paulo, o território da artista plástica paulistana de 35 anos é sempre o mesmo: o corpo repleto de contradições. De volta ao Brasil após três meses em residência artística na Annex-B, organização artística na Big Apple, segue debruçada sobre o corpo como ponto de partida, tema na exposição que participa atualmente, em São Paulo. No 36º Panorama do MAM, em cartaz até 15 de novembro de 2019, Regina discute a fragilidade e materialidade com a instalação “Não Mais Temer”, composta por seis pinturas a óleo sobre papel montadas em uma estrutura de madeira. O emblemático néon “Algumas Escaparam” também faz parte da exposição, com imagens que evocam a resistência por meio de potencialidades e invenções em uma espécie de vertigem da vida contemporânea.

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A constância em uma pesquisa que escancara as tentativas de disciplinar os corpos soma 12 anos. Vai de encontro ao feminino – cerceado, oprimido e carregado de violências normalizadas – e empresta a própria matéria para suas pinturas, como uma forma de acessar questões pessoais capazes de ressoar com intimidade em outros corpos. Começou com as câmeras de segurança, indicando como mecanismos quase despercebidos têm o poder de alterar a nossa relação com o entorno. Mais tarde, as barreiras visíveis e invisíveis que impedem certos corpos de circularem pela cidade tornaram-se tema ao retratar os imigrantes que vivem em São Paulo.

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O corpo, munido de cargas e, muitas vezes, de um sentimento de não pertencimento, é o que conduz suas pinceladas, que vibram desejo e repulsa, prazer e dor quase que simultaneamente. As ambiguidades poéticas aparecem também nos néons instalados ora em instituições de arte, ora em praças públicas. Usado para sinalização e publicidade, Regina ressignifica a mídia como suporte artístico há pelo menos dez anos, em uma tentativa de acessar mais corpos e entregar não um produto, mas, sim, reflexões para os olhares atentos.

“É Preciso Continuar” (2018), instalado no Largo da Batata, durante a 8ª Mostra 3M de Arte, tornou-se um símbolo de manifesto e resistência ao questionar o lugar limite onde estamos. “Quantas pessoas passam todos os dias pelo Largo da Batata e estão se esforçando para simplesmente continuar?”, questiona a artista.

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Graduada em Artes Plásticas, ela teve sua primeira formação no teatro, período que lhe rendeu a oportunidade de trabalhar com Antunes Filho, um dos principais diretores do País. Mais tarde, a proximidade com a dança e performance tornaria-se peça fundamental em seu repertório na arte contemporânea. “Recentemente, tenho abraçado diferentes áreas em uma mesma produção”, explica ela, que, há alguns anos, traçou uma parceria com o coreógrafo Bruno Levorin para a direção das séries coreográficas, com as bailarinas Clarissa Sacchelli e Maitê Lacerda.

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A artista percorreu o mundo integrando mostras coletivas em cidades como Milão, Lisboa, Zurique, Londres e Nova York, além de colecionar prêmios, como o Edital da Mostra 3M de Arte (2018), o Prêmio de Videoarte da Fundação Joaquim Nabuco (2012) e o Prêmio Destaque da Bolsa Iberê Camargo (2009). O currículo extenso também abriga “Ofélia”, performance criada em parceria com Ana Mazzei e executada por nove mulheres durante a abertura de Histórias Feministas, no Masp, no mês passado.

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Para ela, o corpo que se desloca continua sendo o substrato de toda a sua trajetória. “Um bom trabalho de arte nos afeta profundamente, porque é uma reação física, sensível e, claro, intelectual. Mas a porta de entrada é o corpo, que é também meu ponto de partida”, afirma.

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