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Exposição reúne um século de arte brasileira

Mostra na Blum & Poe está em cartaz em NY

by redação bazaar
Foto: Divulgação/Mendes Wood DM

Leonilson – Foto: Divulgação/Mendes Wood DM

Por Camila Martins 

A Blum & Poe apresenta em parceria com a Mendes Wood DM (São Paulo, NY, Bruxelas) a exposição  “Visions of Brazil -  Reimaginando a Modernidade de Tarsila até Sonia”, com curadoria de Sofia Gotti, em Nova York.

A exposição examina a história e o legado do modernismo, englobando aproximadamente um século de arte brasileira qualificada como uma das nove mais bem vistas da Frieze e permanece por mais um mês na Blum & Poe. A Mendes Wood DM apresentou “Terra” (Natureza Morta, 1943), de Tarsila, a primeira vez que o quadro foi visto – antes ele estava no provenance da obra. Esta exposição reúne obras que abrangem quase um século de arte brasileira, desde o modernismo até os dias atuais.

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 Foto: Divulgação/Mendes Wood DM

Sonia Gomes – Foto: Divulgação/Mendes Wood DM

Bazaar conversou com a curadora da exposição, a dra. Sofia Gotti, acadêmica e curadora baseada em Milão. Ela lecionou no The Courtauld Institute of Art  e na  University of Arts  de Londres, e, atualmente, leciona na Accademia di Belle Arti (NABA), em Milão. Sua pesquisa é centrada em práticas artísticas feministas na América Latina e na Itália. Ela também já trabalhou com organizações como o Instituto Feminista, o Castello di Rivoli, o Centro FM de Arte Contemporânea, a Tate Modern e a Fundação Solomon R. Guggenheim

“Tupi or not Tupi” valorizando o Brasil, a presença de termos estrangeiros no uso diário de uma língua não é crime nem sinal de fraqueza. Ao contrário, é sinal de vitalidade. Só as línguas vivas têm essa capacidade de enriquecimento. A forte presença do inglês na língua portuguesa é reflexo da globalização, do imperialismo econômico, do desenvolvimento tecnológico americano etc. Dado a todos os fatos e aos movimentos que deu início ao modernismo, entende-se que Tarsila teve uma infância sem grandes conflitos onde sua mãe tocava piano e seu pai recitava poemas e contava histórias a ela na fazenda da família. Além disso aprendeu francês e adquiriu recursos internos e criatividade para buscar dentro de si sua essência e assim expressar sua arte e pensamentos de forma magnífica.

A obra  “Terra”, Natureza Morta (1943) é um amuleto para Tarsila, que com sua riqueza interna sobrepõe à crise. Expressa seu momento que retrata a “ressaca do canibalismo” que a impulsiona ao retorno. Analisando com os dias atuais, este retrato de “ups and down” “Tupi or not Tupi?” – o português livre com frases em inglês – se dá ao retrato da globalização.  Ela é o retrato mais profundo do modernismo que se entende até hoje. Situações tão repetidas e atuais destinadas de uma artista que aprendeu e estudou e, assim com uma infância segura, adquiriu conhecimento e recursos internos para se reerguer desta “ressaca”. Seu retrato, suas expressões artísticas e seu estilo de vida,  além de vividos, são passados com tanta nitidez para as telas que é alvo de discussão sobre o modernismo e suas fases com a identidade nacional (Pau Brasil) – que é tema no mundo todo e que se estende aos dias atuais com expressões vindas também de outros artistas.

Segundo a curadora, “as obras produzidas neste período confrontam os dados femininos mais recente por meio de imagens menos que idealizadas de maternidade, orfanatos ou costureiras trabalhando. Essas imagens não são de mulheres maduras e sofredoras, são as mesmas que chegam ao clímax em (pelo menos) três telas retratando corpos femininos nus abandonados, adormecidos ou mortos iguais, deitados de costas em paisagens desertas”.

Ela acrescenta ser uma história rica e aberta para os debates atuais nos EUA e nas Américas em torno da formação do Modernismo no Brasil, que começa no movimento dado a Osvaldo de Andrade e Tarsila – e se estende até hoje. Obras de Tarsila do Amaral, Sérgio Camargo, Willys de Castro, Lygia Clark, Raimundo Colares, Antônio Dias, Sônia Gomes, Alberto da Veiga Guignard, Leonilson, Hélio Oiticica, Lygia Pape, Mira Schendel, Rubem Valentim e Alfredo Volpi traçam esse pluralismo da história que passa pela antropofagia, agendas feministas, genealogia cultural afro-católica e muito mais.

Entre os citados acima, vale ressaltar que Sonia Gomes (Caetanópolis, MG), que é uma artista contemporânea afro-brasileira que vem sendo discutida como parte da canonização da história da arte.

 Foto: Divulgação/Mendes Wood DM

Rubem Valetim – Foto: Divulgação/Mendes Wood DM

Sonia, que é afrodescendente, faz seus trabalhos usando tecidos capturados de amigos e familiares. Sua escolha de materiais também é uma referência para ela crescer em uma cidade no estado de Minas Gerais, local que é caldeirão artístico e que tem entre as mais antigas tradições a produção têxtil. Por meio de retalhos com histórias, ela cria uma nova história e, sendo assim, retrata uma metáfora antropofágica ao devorar a cultura do outro.

O movimento antropófago tornou-se uma fonte vital para as seguintes gerações que também tinham por objetivo a deglutição ou ingestão (daí o caráter metafórico da palavra “antropofágico”) da cultura, do outro externo, como a norte-americana, a europeia e do outro interno, a cultura dos americanos, dos afrodescendentes, dos eurodescendentes, dos descendentes de orientais, ou seja, não se deve negar a cultura estrangeira, mas ela não deve ser imitada. É um retrato da América Latina.

Oswald de Andrade ironizava como Manifesto Antropofágico em suas obras a submissão da elite brasileira aos países desenvolvidos. Propunha a “Devoração cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação”.

Seus trabalhos têm uma presença corpórea que envolve os espectadores. No entanto, ao empregar técnicas como tecelagem e bordado, e por usar materiais encontrados despretensiosos (tradicionalmente descartados como femininos ou artesanais), o trabalho de Sonia traz à luz um conjunto totalmente diferente de referências. Sua prática está posicionada em um ponto importante de articulação, onde ela incorpora simultaneamente diferentes visões da modernidade.

 Foto: Divulgação/Mendes Wood DM

Tarsila “Terra” (Natureza Morta, 1943) – Foto: Divulgação/Mendes Wood DM

 Foto: Divulgação/Mendes Wood DM

Lygia Clark – Foto: Divulgação/Mendes Wood DM

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