Feminino Feminista: Masp abre as portas para expos feitas exclusivamente por elas

Em um ano inteiramente dedicado à reflexão dos valores de gênero dentro da história da arte, o museu apresenta duas grandes exposições que celebram o papel da mulher no campo artístico ao longo dos séculos

by redação bazaar
 Mujeres en Mi (2010), de Carolina Caycedo - Foto: Divulgação

Mujeres en Mi (2010), de Carolina Caycedo – Foto: Divulgação

Por Marilia Neustein 

Não é novidade e acontece na literatura, no cinema, no teatro e nas artes plásticas. Artistas do sexo feminino são vistas por muitos como autoras de obras mais frágeis, com pouca força intelectual e pejorativamente ingênuas. Foram apagadas dos grandes manuais de história da arte. Em um dos mais emblemáticos, escrito pelo austríaco Ernst Gombrich, nem sequer são citadas. Foi pensando nessa anulação sistemática da produção artística das mulheres que o Masp abriu suas portas para duas mostras com trabalhos feitos exclusivamente por elas: Histórias das Mulheres e Histórias Feministas. As exposições são autônomas, mas têm o mesmo objetivo: jogar luz sobre esse fazer artístico. As mostras, em cartaz até novembro, foram idealizadas como parte da temática que permeou a programação do museu durante o ano, inteiramente dedicado à reflexão dos valores de gênero dentro da história da arte e à celebração das histórias e dos trabalhos de mulheres ao longo dos séculos.

Com o intuito de discutir a falta de protagonismo feminino no segmento até 1900, a curadora de Histórias das Mulheres, Mariana Leme, escolheu destacar obras de artistas da época, a maioria delas esquecida pela academia e pela própria classe artística. “É difícil falar de feminismo antes do século 20, embora muitas artistas tenham discutido a igualdade entre homens e mulheres em seus trabalhos. Por outro lado, trazer obras de mulheres que participaram de tantas correntes fora do cânone é uma atitude feminista. Uma forma de questionar a história da arte que nos é apresentada na bibliografia dos grandes manuais de arte”, explica.

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Admiring Polvo de Gallina Negra, Mistresses of Feminist Art (2016), de Kaj Osteroth & Lydia Hamann - Foto: Divulgação

Admiring Polvo de Gallina Negra, Mistresses of Feminist Art (2016), de Kaj Osteroth & Lydia Hamann – Foto: Divulgação

Já em Histórias Feministas, o recorte foi feito a partir da consolidação do conceito de feminismo, em especial aquele produzido por artistas que tiveram destaque com seus trabalhos entre as décadas de 1960 e 1970 – algumas delas já com o ativismo em suas temáticas. “Procuramos explorar isso de maneira plural, com uma leitura social, que apresentasse algo diferente das narrativas mais hegemônicas”, explica a curadora Isabella Rjeille.

Em comum, as mostras provocam uma discussão sobre como muitas dessas obras, independentemente da época em que foram produzidas, foram analisadas pela crítica de forma tendenciosa, ganhando adjetivos circunscritos ao fato de terem sido produzidas por mulheres – tratamento que nunca aconteceu com artistas homens. Outro exemplo interessante de intersecção entre as exposições é a presença de artistas nas duas alas, mas em diferentes papéis, como é o caso da holandesa Judith Leyster. Se em uma está presente sua própria produção artística, na outra seu nome aparece como parte de uma obra de autoria do duo Eva Marie Lindahl e Ditte Ejlerskov Viken. Nela, a dupla questiona uma das maiores editoras de livros de arte do mundo, a Taschen. Dos 97 artistas que têm seus trabalhos publicados em uma coleção didática da editora, apenas cinco são mulheres. A partir dessa constatação, elas levantaram o nome de cem artistas do sexo feminino que cumpriam os requisitos propostos para serem publicadas. Para cada homem, encontraram uma mulher correspondente da mesma época, com as mesmas credenciais. A lista foi enviada para a Taschen, que nunca comentou. Dessa provocação nasceu a obra The Blank Pages, na qual elas produziram cem capas, nos moldes da editora, para os livros dessas artistas, entre elas Judith Leyster.

Outro ponto que permeia as duas mostras foi o destaque dado a trabalhos manuais têxteis. O objetivo é questionar a ideia de que obras de cunho artesanal não envolvem atividade intelectual ou que é algo menor, dito como doméstico. Durante a pesquisa, foram encontradas verdadeiras relíquias, como um trabalho, de autoria desconhecida datado de 1790, que envolveu uma alta técnica de manufatura. “Nesta época, para realizar obras assim, era preciso criar o bicho-da-seda, esticar o fio, fiar o novelo, tingir, bordar. E esse pigmento dura até hoje. Isso é altíssima tecnologia”, enfatiza Mariana.

Já a obra de Carolina Caycedo, Mulheres em Mim, é composta por painéis a partir de roupas de mulheres da família da artista, com nomes bordados de personagens femininos que lhe serviram como referência. A peça foi revivida na abertura da exposição, em uma performance feita por mulheres que tive- ram suas vidas afetadas pelo rompimento de barragens, como as que aconteceram nas cidades de Mariana e Brumadinho. A escolha não foi casual. As mostras querem dar voz também às lideranças femininas de movimentos sociais, tão pouco reconhecidas, que acabam por dialogar com o objetivo final: não deixar essas mulheres caírem no esquecimento.

Together (2017), de Tuesday Smillie - Foto: Divulgação

Together (2017), de Tuesday Smillie – Foto: Divulgação

Femme d’Interieur (2016), de Giulia Andrean - Foto: Divulgação

Femme d’Interieur (2016), de Giulia Andrean – Foto: Divulgação

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