por Gustavo Fiorati

O cenário paulistano das artes visuais não se intimidou com a retração do mercado interno, e ao menos quatro galerias estão sairam do forno nesse primeiro semestre. Estimuladas ainda pelo giro econômico da SP-Arte, Luciana Brito, Casa Triângulo, Fita Tape e BFA Boatos não temeram relevar os tempos difíceis para chegar ao período da feira com novos endereços. A tendência é um olhar sobre o espaço público da cidade, preceito debatido há décadas e que agora se manifesta com uma notável preferência pela região central. Lucas Ribeiro, antigo sócio da Logo, em Pinheiros, por exemplo, deixou a galeria que fechou as portas no ano passado e foi à praça Roosevelt com uma nova casa, a Fita Tape, compreendendo não só que deveria estreitar laços com a cultura dos skatistas como também arriscar uma excêntrica relação com as artes cênicas. Para Ribeiro, a migração para o centro permitiu pluralizar o perfil dos frequentadores. “A gente estava em um ambiente hétero demais”, brinca, em referência à clientela formada em torno da arte de rua.

A sede fica dentro de um espaço administrado por um grupo de teatro, os Satyros, e a parceria está sendo vista como estratégica por ambas as partes, tanto para a ampliação de público como para a recriação de linguagens. O galerista defende que o conceito desenvolvido por ele dentro da Fita Tape –do mesmo jeito que acontece no drama– tateia questões ligadas a narrativas, em especial no que se refere à aproximação com artistas do universo das histórias em quadrinhos. Com a mudança, ele abriu mão do formato convencional e deixou de lado as paredes brancas e os ângulos retos. O espaço atual ocupa o subterrâneo de um antigo imóvel, onde já funcionaram casas de show, danceterias e teatros. As paredes são curvas e de tijolos. Em seu interior, em especial à tarde, é possível ouvir ensaios em uma sala anexa. “A trilha sonora da exposição é a mesma da peça ensaiada”, diz Ribeiro.

A BFA Boatos, que ficava nos Jardins, também mudou para o centro, apostando em um formato mais comum em Nova York e que, no Brasil, já foi experimentado pela galeria Lama.sp. A sede fica no 12º andar de um prédio, com uma vista de tirar o fôlego. Das janelas na face sul do imóvel, é possível ver o edifício Itália e as árvores da praça da República.

O local tem cerca de 200 metros quadrados, e a galerista responsável é a italiana Anna Bergamasco, que passa a ter como sócia Mariana Ferreira Gonçalves. “Achamos que seria legal mudar para um lugar icônico”, explica Bergamasco. “Também queríamos nos relacionar com um circuito que tem mais a ver com a nossa proposta”, acrescenta, citando o centro cultural Pivô, que fica a dois quarteirões, além de artistas e colecionadores que moram na região. A galerista Luciana Brito também embarca na ideia
de valorizar ícones da cidade, redescobrindo a arquitetura moderna de Rino Levi ao ocupar uma casa projetada por ele, até agora de uso residencial, na avenida Nove de Julho. O projeto de adaptação, de José Armênio de Brito Cruz, do escritório Piratininga, opta pelo restauro simples da construção original e pela instalação de painéis móveis nas áreas de uso social.
Segundo Brito Cruz, esses módulos podem ser sobrepostos inclusive às paredes que têm janelas e depois retirados, permitindo plantas novas a cada exposição.

“Não dá pra furar uma parede de vidrotil para colocar um quadro”, diz. Por fim, a Casa Triângulo deixa o Itaim Bibi e passa a ocupar um imóvel na rua Estados Unidos, onde antes funcionava uma locadora de filmes. O projeto da reforma é assinado pelos arquitetos do escritório Metro, o mesmo que desenhou a primeira galeria Leme em parceria com Paulo Mendes da Rocha e que depois assinou sozinho a segunda sede da mesma casa. Segundo Gustavo Cedroni, um dos sócios da Metro, o galerista Ricardo Trevisan, fundador da Casa Triângulo, bus cava duas características principais. Ele queria fluidez entre a parte externa e a interna e também tinha em mente que a galeria deveria ter dimensões de um espaço museológico, para receber grandes obras.

O programa arquitetônico resultou em um amplo salão de 16 metros de comprimento e quase 12 metros de altura, com acesso por portas largas. Placas de policarbonato translúcidas correm por toda a fachada, permitindo iluminação natural mais eficiente, diz Cedroni. À noite, essas mesmas placas deixam vazar a iluminação do interior para o exterior. Ao lado do espaço principal, há a reserva técnica e uma sala menor. A parte externa tem tratamento de prédios de uso público, com recuos generosos entre a fachada e a rua, além de um pátio lateral para recepções ao ar livre em dias de abertura e que, nos dias de montagem, facilita o trânsito de materiais pesados.