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Por Camila Martins

Iván Navarro é um dos artistas contemporâneos internacionais mais consagrados da atualidade. Ele está no 22º andar do Farol Santander com 14 obras desenvolvidas para o Brasil durante a  pandemia, com curadoria de Marcello Dantas e colaboração da também artista Courtney Smith, companheira de Navarro.

Navarro nasceu no Chile em plena ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) e, em 1991, mudou-se para Nova York, onde em sua fase criativa a eletricidade era utilizada tanto como material quanto como conceito, quando descobriu o espacialismo. Seu trabalho é certamente lúdico, mas também é assombrado por questões de poder, controle e prisão.

Em ExFinito”, Navarro usa elementos como espelhos, luzes, vidro e eletricidade para envolver o espectador em seu trabalho. Em uma experiência sensorial onde o público se encontra em um jogo entre corpo e visão, numa dimensão paralela da realidade, na ilusão de um infinito.

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A exposição transformou-se em uma grande instalação labiríntica, com obras que exploram luzes, espelhos e posições ambíguas para provocar dúvidas, para realçar os nossos sentidos e descobrir “quem” somos e o que refletimos numa situação em que a sua obra se consuma da nossa posição em relação a tantas reflexões em 2020.

“Essa sensação abissal, de vazios, fissuras e perspectivas que se abrem para uma dimensão desconhecida, pode ser a consciência de um universo paralelo, uma trama secreta ou um estado alterado de percepção. Viajar pelo labirinto é ter uma noção clara de que existe algo além do mundo das aparências;  compreender o labirinto nos permite ver nosso fim no infinito e aprender o que significa ser ‘Exfinito’”, como define Dantas, curador da mostra.

Para um autorretrato é necessário um espelho e depois que a pessoa o usa, ela vê a realidade do mundo. Um autorretrato do mundo, em que o espectador passa a ser protagonista, ou seja, verifica-se que “todos são repórteres de uma obra coletiva”. “Somos enganados pelos nossos olhos (inteligência artificial), e os nossos olhos mentem. Só nós vemos o que fabricamos. Sensorial, a dúvida é a matéria-prima. Você não sabe se é real ou uma ilusão”, diz o artista.

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“O tanque d’água em metáfora é um portal para outras dimensões, universos.  Além de uma dimensão em um momento de pandemia, a exposição foi então criada nessa época e a ideia de um labirinto; uma cidade onde todos se perdem.  Ter perdido o fim que também esbarra na política porque é um resultado do qual não se pode escapar, explica Dantas.

As obras de Navarro estão presentes em coleções importantes, como o Museu Guggenheim (Nova York) e a Coleção Saatchi (Londres), além de integrar as coleções permanentes do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro (“Atalhos”, 2005) e Inhotim. A exposição vai até dia 28 de fevereiro de 2021.

Leia a seguir a entrevista da Bazaar com Navarro.

Seu trabalho é certamente lúdico, mas também é assombrado por questões de poder, controle e prisão. Como?

Quando eu tinha quase 20 anos, percebi o quanto fui influenciado pelas coisas que vivi durante minha infância. Tantas coisas eram um sinal claro de viver sob o controle de um regime ditatorial: como se vestir, que música ouvir, com que amigos sair, que bairro ir, quanto contar sobre sua família para um novo amigo etc. Agora também vejo e entendo essas experiências como ferramentas para me tornar mais consciente da sociedade em que vivo, que é totalmente controlada pelo capitalismo.

O que o espelho significa no seu trabalho? 

Meu principal interesse é trabalhar com o espaço, não só com a luz.  A luz ilumina o espaço, mas sempre vem de um objeto (lâmpada, tubo, néon, fogo, espelho etc.), que é a fonte de luz.  Isso é muito significativo porque poderia ser um objeto feito de qualquer forma e material, mas com uma presença importante na instalação.  A combinação de espaço, fonte de luz e luz tornam as instalações maiores, e as caixas de luz construídas com espelhos criam um efeito de quarto infinito.  Essas ilusões de objeto vêm em muitas formas, de um mapa-múndi redimensionado em luzes verdes e brancas que parecem desmoronar em um vazio escuro (“Sedimentos”, 2017), a uma série de caixas de luz formadas a partir das plantas de vários edifícios, incluindo o edifício Flatiron em Nova York, na qual as luzes emolduram um vazio escuro dado a aparência de profundidade, com a palavra “rendição” legível no centro (“Surrender”, 2011).  A ideia por trás dessas construções surgiu em 2003, quando vi uma lâmpada espelhada em forma de estrela em Chinatown, que criou o efeito de uma recessão sem fim na parede, levando-me a conceber o formato padrão para essas ilusões – usando um espelho unidirecional contra um espelho normal, com uma luz colocada entre os dois.

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Com qual artista você se identifica?

Os artistas de que gosto muito não são minimalistas e não apenas artistas visuais: Eugenio Dittborn, Cildo Meireles, Felix Gonzalez-Torres, Gordon Matta-Clark, Sigmar Polke, Victor Jara, Violeta Parra, Jorge Ben, The Smiths, Depeche Mode, Silvio Rodriguez e muitos mais.

São 14 obras inéditas produzidas localmente, além da instalação pública “Escada” (caixa d’água) que já foi exibida na Madison Square. Como foi desenvolver esses trabalhos para a pandemia e por que o Brasil?

Tudo foi muito rápido. Começamos a trabalhar em julho de 2020. O Marcello Dantas me pediu para propor ideias para um novo projeto em São Paulo. Depois que tudo foi aceito pelo Farol Santander, fiz desenhos e estudos sobre o local. A fabricação das obras começou em outubro, então em meados de dezembro já estava tudo pronto. Fiquei muito feliz com os resultados, aparentemente para produzir um grande show no Brasil durante a pandemia, foi totalmente possível. Trabalho no Brasil há 10 anos, também passo um tempo no Rio, onde me sinto conectado com a comunidade de artistas, admiro a influência da arte brasileira no resto da América do Sul.

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O que você acha da política no Brasil?

É muito confuso e difícil de definir. Mas ao mesmo tempo, pelo fato que cresci no Chile, o Brasil é um País maior e mais desenvolvido em termos de política cultural e Institucionalmente mais organizado do que no resto da América Latina. Mas o governo atual não é interessante para mim, felizmente (já que agora eu moro nos EUA). Trump não está mais no poder, espero que o presidente no Brasil faça o mesmo em breve.

Você acha que tem um pouco da arte espacialista de Lucio Fontana?

Admiro seu trabalho com neon e como isso se traduz em suas pinturas. Hoje é muito difícil para os artistas estarem mudando constantemente os materiais, mesmo que conceitualmente isso faça parte do corpo geral do trabalho. Nos últimos 20 anos, o mundo da arte tornou-se muito tacanho quando um artista mostra experiências com diferentes materiais. Adoro artistas difíceis de classificar em uma mídia, Fontana é um bom exemplo disso.

“ExFinito”

Farol Santander São Paulo – Rua João Brícola, 24, Centro (estação São Bento – Linha 1-Azul do Metrô).
farolsantander.com.br.
Até 28.02.2021.