Marcello Dantas – Foto: Juliette Bayen

Marcello Dantas se destaca por ter um forte case quando se trata de experiência no mercado da arte. Ao pé da letra, Dantas é uma “tese” ambulante com forte embasamento, que além de didático e autoral, se desdobra a pesquisas profundas para o receptor. Atua como curador e produtor em diversos projetos relacionados à arte e à tecnologia em território nacional e internacional. Sentido e percepção são palavras que classificam a capacidade e a adjacência que ele tem em abordar tópicos únicos que passam a ser instigantes e intrigantes de forma objetiva e contundente. 

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Dantas é destaque em tudo o que faz. Como, por exemplo, a força que tem em enxergar uma obra de arte que nasce no mundo contemporâneo, assim como fazer a seleção de obras mais conhecidas. Partindo deste princípio, como curador foi responsável por exposições como as de Bill Viola, Gary Hill, Jenny Holzer, Shirin Neshat, Tunga, Laura Vinci, Ai Weiwei, Anish Kapoor, Michelangelo Pistoletto, Peter Greenaway, Rebecca Horn e Bill Viola e Laurie Anderson, que, entre outras, obtiveram grande destaque. Ele foi ainda integrante do clube de diretores de artes de Nova York (Art Director’s Club of New York). Hoje é o curador principal da 13ª edição da Bienal do Mercosul que, em grande escala, será realizada a partir de 15 de setembro deste ano. São cerca de 22 mil metros quadrados de área em Porto Alegre com a vertente de utilizar espaços inovadores voltados para a arte. 

A festa de inauguração será no Instituto Caldeira, uma antiga fábrica de tecidos, que se desdobra para outros três locais que serão abertos simultaneamente. Comissionados a uma grande quantidade de obras extremamente originais que nascem lá, a Bienal selecionou em torno de 60 a 70 artistas de todos os cantos do mundo. Foram 880 escritos por chamadas abertas, em que, alguns foram selecionados para desenvolver projetos especificamente para o evento, além de outros artistas convidados.

O tema da mostra de arte contemporânea parte do princípio de três palavras: trauma, sonho e fuga. Além da Bienal do Mercosul, Dantas está desenvolvendo mais cinco museus e duas exposições.

Veja a seguir o papo que Bazaar teve com Dantas a respeito destes projetos:

Por que definiu como temas trauma, sonho e fuga?

O tema é uma equação de três conceitos interligados por um conceito implícito: o indizível. Trauma não é um acontecimento doloroso em sua vida, trauma é sua incapacidade de falar sobre ele.  Sonho é a manifestação inconsciente de algo que não conseguimos elaborar em palavras, e a fuga é a arquitetura de algo que precisa existir em segredo. De certa forma, o mundo pós-pandemia nos colocou numa perspectiva de contato com o universo do indizível. A arte é a melhor forma de acessar esse lugar.  

De que forma você selecionou os artistas na chamada aberta?

Algumas das características da chamada aberta é que a gente não sabia o nome dos candidatos. Só analisamos a proposta. A gente não sabe se é homem, mulher se é negro, se é branco. A gente lê exclusivamente a proposta, a ideia. Na chamada aberta tem, por exemplo, gente de 70 anos e também tem de 20 anos. Os cinco curadores-adjuntos selecionaram um número de projetos, e estes foram cruzados entre si. Foi essa a base comum analisada.  O interessante foi sentir o termômetro de um tempo, para onde estão apontadas as antenas.  

Quem são os curadores da Bienal do Mercosul?

Somos cinco, ao todo, eu, Carollina Lauriano, Tarsila Riso, Munir Klamt e Laura Cattani.  

Qual é a sede principal da bienal, e onde serão os outros locais que o evento se desdobra?

MARGS, Farol Santander, Memorial do RS, Museu Iberê Camargo e Instituto Caldeira, além de áreas de arte pública pela cidade.  

Marcello Dantas – Foto: Bob Wolfenson

Além da Bienal, você está construindo mais cinco museus e duas exposições que estão em processo. Você pode nos definir quais são os museus?

Sfer Ik Museion, em Tulum, no México, Casa das Histórias de Salvador, na Bahia, Museu dos Valores, em Brasília, Museu das Favelas, Museu da Diversidade Sexual e a Cidade Matarazzo, em São Paulo. 

Quais são os museus que estão mais avançados no processo da construção?

Sfer Ik abre em Março.  Os outros no correr de 2022 e 2023. Todos em obra.  

Como surgiu a ideia de fazer o Museu dos Valores e por quê?

É um projeto antigo acalentado pelo Banco Central do Brasil.  Que agora ganhou forma.  Quase todos os países têm algo nesse sentido.   

Como está o processo do Museu da Cidade Matarazzo? O que você pretende abordar?

Cidade Matarazzo é um gigante empreendimento criado por Alex Allard, tem tudo ali, residências, hotel, restaurantes, escritórios e a Casa Bradesco de Criatividade. Nela teremos exposições, eventos, música, teatro, dança. É um complexo que ainda vai se integrar ao Parque Trianon.  O Alê Youssef acabou de se juntar ao time. Vamos tentar fazer coisas inéditas na cidade.  

Para quando está prevista a inauguração?

Para o primeiro semestre de 2023.  

Qual é a abordagem, visão, que você tem sobre o Museu da Favela que está desenvolvendo?

Isso é um projeto acalentado por anos pela CUFA (Central Única das Favelas) e pelo governo do Estado de São Paulo. A ideia é contar como a cultura da favela, hoje, define a vanguarda do que somos como sociedade. Como ela definiu a urbanização do Brasil e como ela pode transformar a identidade e a visão de mundo que compartilhamos. Não existe história do Brasil sem a contribuição definitiva daqueles que fazem a favela. Existem talentos incríveis que surgem nas favelas. Existe uma dívida enorme de reconhecimento. E uma potência criativa que hoje é divisora de águas entre um Brasil que pulsa e outro que morre.  

O museu que você está desenvolvendo em Salvador se desdobra a partir de qual princípio?

 Essencialmente, sobre as histórias negligenciadas da cidade que já foi a mais importante do hemisfério Sul. A Roma negra. Salvador tem uma quantidade fascinante de camadas históricas pouco ou nunca interpretadas. Muito por conta do fato de que só quem conta a história são os poderosos. Isso precisa mudar. Sob pena de apagarmos as melhores camadas. A Casa Das Histórias de Salvador é uma chance de nos reconectarmos com a memória de lugares, ritos e pessoas, para entendermos como chegamos aqui. Usando para isso todos os recursos da tecnologia e da criatividade disponíveis.  

Você acha que existe uma alienação quando falamos de diaspórica negra, assim como a arte indígena?

Acho que o Brasil em geral se aliena de si mesmo. Esse processo é forte. Existe uma pulsão de morte e esquecimento em quase tudo o que se faz no Brasil. Exige-se muito para desviar a energia desse buraco.  

O que você vê de diferente e chama a sua atenção no mercado da arte que está em movimento?

A arte carece sempre de renovação. É um sistema que facilmente se vicia, mas que, ao mesmo tempo, é permeável e interessado no novo. Essa dicotomia entre a repetição e a renovação é o que move o mercado da arte. Que bom.

No MIS, em São Paulo, você aborda desde a semana de 22 aos dias atuais. Qual será o nome da exposição e qual é a data definida para a abertura?

“Cem Anos Modernos” é sobre o labirinto da cultura moderna brasileira desde 1922.  Enfatizando seu impacto no cinema, na música e nas artes visuais.  É uma visão meio louca sobre como as coisas aconteceram desde então. Abre em abril.  

Fale sobre a exposição de Portinari que ganhará abrigo no MIS Experience.

A evolução da linguagem expográfica, nos últimos anos, abriu oportunidades incríveis para se revisitar e interpretar nossos patrimônios culturais, permitindo que novos olhares e experiências sejam vivenciados pelas gerações ansiosas por mergulhar nos pilares de nossas origens. Algumas ideias são tão óbvias que passam despercebidas. Juntar Portinari com essas novas linguagens era uma bola quicando na frente de todos. Pois nenhum artista captou a alma do Brasil como Portinari. Em suas mais de 5.000 obras, ele retratou a formação da identidade brasileira de forma universal, original e profundamente humanista. O desejo popular de Portinari, a imersão em seus murais, a música que dialoga com o movimento insinuado em seus quadros, já sugeriam desde sempre uma experiência multidisciplinar.

Para quando está prevista a abertura da exposição?

Pra 5 de março de 2022.

Você tem ou pretende executar ou desenvolver algum projeto futuro?

Enquanto eu estiver vivo, sim. 

Como você enxerga o ego no mercado de arte hoje?

Existe alguma outra coisa ali? Ego é potencializado e paralisante, depende de como é gerido.  

Como você enxerga o nicho relacionado ao campo da tecnologia no futuro?

Tecnologia faz tempo que não é nicho. Já virou o mundo. Metaverso é a realidade, o resto virou acessório. Me diga onde a tecnologia não ocupou todo o espaço?

Como você enxerga a arte no Brasil hoje?

Com os olhos e o coração abertos.  

De que forma você acha que a arte é vista fora do Brasil?

Com olhos, às vezes com os dedos. Mas o Brasil está com uma má imagem nos últimos anos. Precisamos apresentar uma agenda mais positiva.  

Marcello Dantas – Foto: Bob Wolfenson

Quais as principais características que você acredita que um curador tem que ter?

Empatia, confiança e cumplicidade.  

Qual é o setor da arte, abordando como um todo, que você acha que dormiu no tempo?

A crítica.  

Como você enxerga a arte nas redes sociais? 

Assim como a vida. As redes sociais são o reflexo do jogo de valores que priorizamos na vida. Cada um prioriza o que deseja. E dá no que dá.  

Você acha que a abordagem nelas valorizam uma obra de arte?

Não.