Mundano: grafiteiro investiga a tragédia de Brumadinho

Conheça o trabalho do artista que está sempre ligado ao meio ambiente

by redação bazaar
Heróis de Brumadinho (2019) do artista Mundano - Foto: Divulgação

Heróis de Brumadinho (2019) do artista Mundano – Foto: Divulgação

Por Ana Carolina Ralston

Após o crime ambiental da Vale na cidade mineira de Brumadinho, em janeiro deste ano, o paulistano Mundano desembarcou por lá disposto a investigar o estrago pelo rompimento da barragem da mineradora. O grafiteiro, conhecido por sua luta sempre ligada ao meio ambiente e um dos líderes de uma geração preocupada em transformar nossa realidade atual, passou dias conversando com a população local, recolhendo detritos e mostrando, em vídeos (que chegam a chocar!) e na sua própria arte, os estragos feitos e aqueles que ainda estão por vir.

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Em uma dessas gravações, Mundano coloca um ímã em uma bacia com água do Rio Paraopeba cheia de rejeitos. O objeto logo atrai uma grande quantidade de ferro – evidenciando a dificuldade em limpar o rio e seu entorno. “Outro momento marcante dessa expedição a Brumadinho foi quando conheci uma família que visitava pela primeira vez a casa totalmente soterrada pela lama tóxica”, conta o artista. “Ouvi o desespero deles ao ver tudo perdido. Por mais que tenham sobrevivido, a família perdeu amigos, vizinhos, bens pessoais, enfim, toda uma história de vida.”

Lama Tóxica (2019), de Fábio Delduque (óleo, impressão digital e minério de ferro sobre tela) - Foto: Divulgação

Lama Tóxica (2019), de Fábio Delduque (óleo, impressão digital e minério de ferro sobre tela) – Foto: Divulgação

Na visão do grafiteiro, de 32 anos, a arte como denúncia é essencial, já que ela nos mostra as mudanças que precisam ser feitas em nossa sociedade.

Mundano não é o primeiro a trazer esse tema à sua produção. Nascido na Polônia e naturalizado brasileiro, Frans Krajcberg (1921-2017) é um dos grandes nomes a levantar essa bandeira na arte contemporânea. Seu ativismo ecológico é totalmente vinculado à obra que faz em defesa do meio ambiente.

Lama Tóxica (2019), de Fábio Delduque (óleo, impressão digital e minério de ferro sobre tela) - Foto: Divulgação

Lama Tóxica (2019), de Fábio Delduque (óleo, impressão digital e minério de ferro sobre tela) – Foto: Divulgação

A trajetória artística de Krajcberg começou no Brasil, em 1948, quando imigrou para o País depois de perder a família em um campo de concentração durante a Segunda Guerra. Nos anos 1970, mudou-se para o sul da Bahia e passou a esculpir as belíssimas obras feitas com troncos calcinados que conhecemos, além de viajar para a Amazônia e Mato Grosso do Sul, onde fotografou os desmatamentos e as queimadas que devastaram parte de nossa mata. “Com minha obra, exprimo a consciência revoltada do planeta”, costumava dizer o artista.

Entre outros nomes atuais que buscam o crime contra a natureza como tema está o multidisciplinar Fabio Delduque. Idealizador e fundador do Festival da Serrinha, em Bragança Paulista, entre tantos outros projetos ligados a cinema, teatro e música, Delduque fez do evento um momento de celebração e imersão artística no meio ambiente em oficinas, vivências, residências, shows, performances, palestras e exposições.

Atualmente, o paulistano trabalha em uma série autoral que mistura fotografia e pintura baseada nos crimes da Vale. “Passei muitos anos olhando para a obra ‘Seja Marginal, Seja Herói’, do Hélio Oiticica. Tenho esse trabalho como guia, que me aproxima do pensamento tropicalista e também do da denúncia”, diz o artista.

Instalação de Frans Krajcberg na 32ª Bienal de São Paulo, em 2016 - Foto: Divulgação

Instalação de Frans Krajcberg na 32ª Bienal de São Paulo, em 2016 – Foto: Divulgação

Impedido de chegar a Brumadinho pelas autoridades, Delduque se deslocou até Mariana e trabalhou misturando os dois universos unidos por um crime tão similar para criar, nesse mix de suportes, uma produção única. Já a fotógrafa sérvia Gordana Manic também prepara um material inédito do ocorrido.

Em sua última série, adquirida integralmente pelo Instituto Figueiredo Ferraz, em Ribeirão Preto (SP), Manic mostrou imagens das consequências da Guerra do Kosovo, em 1999, em sua terra natal. Clicadas 15 anos após a tragédia, fica evidente a devastação que ainda assola os países da região. “No meu novo trabalho, pretendo exibir novamente os resultados que desastres como esses são capazes de fazer. Tanto em Kosovo quanto em Brumadinho, tentamos acreditar na recuperação rápida da população e do ambiente, mas as consequências, nos dois casos, são para sempre.”

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