Samuel de Saboia prepara exposição em Los Angeles

Artista nascido em Recife também navega pela moda e pela música

by Ana Carolina Ralston
Foto: Igi Ayedun

Foto: Igi Ayedun

É madrugada em São Paulo e Samuel de Saboia, 21 anos, não consegue dormir. Ele vai do apartamento em que está hospedado, no bairro de Higienópolis, para o ateliê, na Vila Madalena, onde estão telas, tintas, agulhas, linhas e também a cerâmica fria, uma de suas mais recentes empreitadas. A noite é de criação, um mergulho espiritual, que resulta em dezenas de camadas de tinta – um verdadeiro mix de abstracionismo com pitadas figurativas.

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Foi no figurativo, aliás, que tudo começou. Aos 13 anos, o artista, nascido no Recife, passou a levar o talento com os pincéis a sério e a comercializar ele mesmo suas peças via Instagram para o mundo. “Meu primeiro cliente morava em Nova York. Foi incrível ver uma obra minha atravessando o oceano”, relembra ele, sentado em meio às pinturas que compuseram “Guardiões”, sua primeira individual no Brasil, na Emmathomas Galeria, em São Paulo, em março.

Obra "No Fim Quando Tudo se Flor" - Foto: Igi Ayedun

Obra “No Fim Quando Tudo se Flor” – Foto: Igi Ayedun

Samuel chegou a cursar arquitetura, largou para fazer design gráfico, mesmo sabendo que seu destino não estava em nenhum desses dois caminhos. A primeira exposição veio cedo, mostrando a certeza da arte como chamado de vida: aos 15 anos, participou de uma coletiva no Espaço Casarão, no Recife.

Desde então, não parou mais. Passou do Brasil ao mundo, com obras expostas na França, na Alemanha e nos Estados Unidos, até que realizou sua primeira individual no ano passado, na Ghost Gallery, em Nova York. Chamada “Beautiful Wounds”, a mostra tratava sobre morte e perda, dois temas que rondavam o jovem artista na época, quando perdeu cinco amigos de forma trágica em sua cidade natal.

Samuel de Saboia veste suéter Carolina Herrera e calça Armani Exchange com a obra "No Fim Quando Tudo se Flor", nas Montanhas Riff, na cidade de Chefchaouen, no Marrocos - Foto: Igi Ayedun

Samuel de Saboia veste suéter Carolina Herrera e calça Armani Exchange com a obra “No Fim Quando Tudo se Flor”, nas Montanhas Riff, na cidade de Chefchaouen, no Marrocos – Foto: Igi Ayedun

Em 2019, o luto deixou parte das telas de Samuel para dar lugar à sua latente religiosidade e ao joie de vivre. Filho de pastores, não é incomum ouvirmos tocar no iPhone de Samuel, principalmente quando está criando, sons angelicais com um toque gospel, que invocam suas raízes, quando fazia parte dos corais da igreja ministrada pelo pai.

No início, eles chegaram a achar que o filho estava possuído por forças malignas quando desatava a criar. Isso porque a pintura de Samuel materializa os dois lados ocultos do ser humano: a luz e a sombra, a dualidade, reforça ele, que existe também nos mensageiros de Deus, os anjos, chamados de seres viventes no antigo testamento. “Se nem os anjos possuem sexo, por que nós precisamos estabelecer um?”, questiona ele, que fez do discurso consciente um suporte para as lutas que defende dentro e fora do mundo das artes. “Sendo eu jovem e negro, sou também um corpo político. Mas não acredito que, por isso, minha arte precise ser estigmatizada.”

A obra "Chão de Estrelas" (2019) - Foto: Igi Ayedun

A obra “Chão de Estrelas” (2019) – Foto: Igi Ayedun

A infância, no Jardim Botânico do Recife, deixou como heranças a natureza exuberante e a luz intensa que aparecem nas telas, referências de um lugar onde é sempre verão. Cores vibrantes são o fio condutor de sua pesquisa, que agora se abriu em direção ao Marrocos, onde clicou, com exclusividade para a Bazaar Art, o ensaio que ilustra estas páginas.

Em sua expedição pelo país africano, Samuel dedicou-se à pesquisa de pigmentos naturais e tapeçarias. Esteve em Casablanca, Arzila, Tânger, Chefchaouen e Marrakech, cidades onde também dedicou seu olhar atento aos tecidos.

O artista com suéter Burberry, calça Calvin Klein e a pintura "Self-Analysis", na praia de Arzila - Foto: Igi Ayedun

O artista com suéter Burberry, calça Calvin Klein e a pintura “Self-Analysis”, na praia de Arzila – Foto: Igi Ayedun

Amante da moda desde a adolescência, criou laços estreitos com marcas internacionais, como Dior e Prada. Depois desse mergulho cromático, ele lança em abril sua primeira coleção de acessórios, que será vendida, inicialmente, pelo Instagram. “Gosto de criar, seja nas telas, na moda ou na música”, conta ele, que também pretende colocar na mídia seu primeiro EP, “Sex After Church”.

Mas as artes plásticas não ficaram de lado. No segundo semestre deste ano, Samuel fará mais uma exposição individual, na Ghost Gallery, de Los Angeles. “Todas essas vertentes criativas estão em total sintonia, elas apenas mudam de suporte, mas seguem a mesma essência”, explica.

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