“A vida não é útil”, livro do líder indígena Ailton Krenak – Foto: Reprodução/Twitter

Por Matheus Lopes Quirino

De março para cá, a humanidade ficou suspensa, como narra o ambientalista Ailton Krenak. Maior voz indígena em atividade, o sexagenário vive à margem do Rio Doce, no território dos Krenak, em Minas Gerais, vizinho do célebre fotógrafo Sebastião Salgado.

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Fazendo um trabalho sério desde os anos 1980, tornou-se uma das vozes mais respeitadas quando o assunto é natureza. Ainda na ativa, participa de programas televisivos, concede entrevistas, é citado por intelectuais gabaritados e artistas sérios. Seu recém lançado “A Vida Não é Útil” (Companhia Das Letras), é um compêndio de algumas lives que participou e articulou durante a pandemia.

O livro exalta o status de dependência do homem à natureza e não o contrário. Isto é, ela continuará aqui cicatrizando as feridas deixadas pelo ser humano, no pior dos cenários, quando o último de nós já tiver partido. A destruição, com as mirabolantes tecnologias, a pujança cibernética, as corridas virtuais e a ganância digital, tudo tem o mesmo fim.

“A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade a ela, mas isso é besteira”, afirma Krenak no livro, que defende também a filosofia do aqui-agora, o famoso carpe diem, sem citá-lo nominalmente.

Segundo ele, vender o amanhã é sempre um erro – uma desgraça que o ser humano produz para si mesmo. Ao se debruçar em temas como a terra, o homem, a luta, ele não cita o jornalista Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”, entre as referências. Em seu livro, Krenak trata sobre a preservação da natureza e tece duras críticas ao capitalismo desenfreado e os “mandatários caducos”. Filosófico, o autor prefere o cantor Gilberto Gil a Cunha, quando repassa o mantra do baiano de “Refazenda”: “Abacateiro/Saiba que na refazenda/Tu me ensina a fazer renda/Que eu te ensino a namorar”.

Em “A Vida Não é Útil, Krenak espanca o pilar do liberalismo: “o trabalho enobrece o homem”. Em suas palavras, o progresso traz consigo o acúmulo de quinquilharias morais, sociais e políticas que envenena os rios, desmata as florestas e mata o ser humano. Mas, assim como faz a natureza, dá sinais de alerta sem ultimato.

Consciente de que contemplar a natureza não é ficar parado, no livro comenta como é sua rotina na aldeia, fala do vizinho Salgado, e dos ancestrais Krenak. Da sua natureza, não há magia, nem mistério, preservar é viver e fazer para continuar respirando.

O escritor acredita que “devoramos enquanto passamos”. Traça um paralelo como se estivéssemos esperando um um fast-food, desesperados, na hora doo rush. Para ele, viver é um despropósito se estamos nessa ânsia de consumo, de sofrer por antecipação enquanto amargamos nos lares esterilizados, na busca frenética pela novidade. Temos medo de um germe invisível, que mata. Na sua opinião, mudamos o mundo. Ele continua velho, mas com outra roupagem. Com cara de novo, é tão canalha quanto vigoroso — e os pulmões com metástases.

Ailton Krenak (Foto: Neto Gonçalves)

O autor

Há dois anos vivendo em Minas, Krenak interrompeu a programação, “a vida útil”, com devidas aspas, para vislumbrar a natureza ao seu redor. E não é uma figura de linguagem, é literal. Ele segue as tradições de seu povo, embora viaje de avião, tendo enchido, em pré-pandemia, auditórios e anfiteatros nos metros quadrados mais caros de São Paulo, o indígena se mantém com os pés fincados na sua terra, cuidando dela, plantando milho, colhendo folhas. E de lá ele não sai. Ameaçados pelas companhias de mineração, os Krenak resistem em um território em que o Rio Doce sangra. Pois se for para aquela natureza acabar, que o povo Krenak tenha o mesmo fim. Afinal, acredita ele, são um só.

Crítico mordaz do capitalismo, Krenak é um intelectual que lê de Camus a Drummond. E seus ensinamentos sobre a terra ser a mãe natureza não são alegóricos. Segundo ele, a terra deu um aviso aos humanos quando pediu para desacelerar. Não foi uma ordem. Os que acataram, se isolando e seguindo as recomendações, vislumbram a vida de uma maneira mais coerente, talvez compreendam a gravidade do aviso, do que se passa. Aos que acreditam cegamente na pandemia, eleitores do terraplanismo, estes são tão cúmplices quanto os governantes que têm sangue nas mãos.

“A vida não é útil”

Ailton Krenak, 128 páginas,
Cia. das Letras (2020)