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Foto: Divulgação

Com sete décadas de história, o Atelier Chilaze se apresenta como uma marca que pratica a sororidade, transparência e solidariedade por meio da diversidade, tendo como viés atual a sustentabilidade.

Tudo começou em um tempo pós-guerra, em que o imigrante sirio Salim Chilaze veio para o Brasil, no início do século 20, passando por Manaus e Salvador, até fincar raízers no Rio de Janeiro. O empresário então convocou um de seus três irmãos para cuidar da mercearia que tinha na Bahia, enquanto o outro foi com ele para o Rio para montar, em 1946, a loja que viria a se tornar o Atelier Chilaze.

A família foi crescendo e um dos filhos de Salim, Anis, acabou seguindo o ramo do pai. Começou com 17 anos, em 1947. Nessa época a marca vendia roupas de cama, mesa e banho e bijuterias finas. Entre 1948 e 1950, começou a importar pérolas e cristais de diversos países. Aos poucos, o segmento de acessórios foi se firmando. A empresa se tornaria mais tarde, Chilaze Bijuteria Ltda.

Nos anos de 1960, o setor explodiu e a loja acabou entrando para o atacado. Sem surpresas, no auge da cultura hippie, a Chilaze começou a obter grandes lucros, principalmente com o colar de pingente “Yellow Smile” esmaltado, um dos símbolos gráficos da contracultura. Na década seguinte, Anis teve um insight e desenvolveu cordões de ouro, com 103 opções de nomes, que acabaram virando febre entre mães e grávidas que queriam levar o nome de seus filhos no pescoço. Esse é apenas um dos exemplos de grande sucesso que foram sendo firmados ao longo dos anos.

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Sandra Chilaze e Claudia Chilaze – Foto: Divulgação

Agora a marca é comandada pelas filhas de Anis, as irmãs Sandra e Claudia Chilaze, que fazem parte da terceira geração da família a ficar à frente do Atelier. A proposta delas atualmente é de que as mulheres se sintam bonitas dentro de um planeta viável, com um futuro promissor. 

Os acessórios são feitos de resina de poliéster, diminuindo o impacto negativo no meio ambiente,  mesclada com matérias-primas sustentáveis que incluem cordas exclusivas à base de pet, linhas em algodão, sisal e o aproveitamento dos rolos de papel kraft, proveniente do descarte do papel higiênico. 

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Foto: Divulgação

Para a fabricação de suas peças, o Atelier valoriza os pequenos produtores locais e de outros países. 

Em entrevista exclusiva para a Bazaar Green, as irmãs Sandra e Claudia Chilaze contaram um pouco mais sobre o Atelier Chilaze.

A Chilaze começou como uma loja de prática pouco sustentável – a venda de bijoux de varejo. Como enxergam esse tipo de comércio hoje? Quando foi que vocês migraram para um viés ecofriendly?

Na verdade, o conceito de prática pouco sustentável é recente. Há quinze ou vinte anos atrás, ou até há menos tempo, não se pensava em larga escala em sustentabilidade, pouco se ouvia falar em moda consciente ou em economia circular, assim como só na virada dos anos 1990 a ecologia se tornou senso comum. Tal qual a vida, o varejo é dinâmico. Tudo muda, é fruto da evolução social. Os modos de produção também, e as mudanças surgem da necessidade. Se olharmos para a nossa trajetória da empresa familiar, que apenas desembocou no Atelier Chilaze nesta última década, em 2013, não fazíamos nada diferente daquilo que se configurou como padrão aceitável ao longo dos anos, a partir da Revolução Industrial, lá na aurora da modernidade. Então, no curso das décadas anteriores, ainda não havia a percepção de praticar ou não produção sustentável porque esse sentido sequer existia. Ou, se existia, estava confinado nas universidades, era inerente à academia.

Na realidade, nosso desejo de produzir acessórios e homewear com esse viés sustentável acabou vindo naturalmente, conforme nossa geração foi assumindo as rédeas do negócio de família em sintonia fina com um acaso: a convergência temporal da nossa entrada no business com a preocupação de preservar o planeta que acabou tomando conta do mundo, virou estilo de vida.

Vocês têm alguma lembrança especial com a marca?

Nossas vindas aos sábados, ainda crianças, à loja no Saara, no Centro Histórico do Rio e tradicional pólo de comércio popular, para acompanhar nossa pai no dia-a-dia do varejo, observando desde novinhas o comportamento das consumidoras. Isso foi uma escola que até hoje impacta nas decisões acertadas na hora de criar aquilo que acreditamos que virá a ser bem-aceito. Esse legado não tem preço. 

O que faz com que vocês usem cores fortes nas coleções?

 A essência do Atelier Chilaze é cor, textura e luz. E autoestima. Somos cariocas e brasileiras, e nada é mais a nossa gente que a potência dessas características unidas. O Brasil é isso. Sempre nos surpreendemos, nas viagens, como as africanas e asiáticas são desprendidas, ousadas e democráticas no usos das cores, na exaltação da beleza plural, no orgulho das suas culturas. Isso é encantador! Olhamos nosso país com esse olhar de quem vem de fora e se emociona com o local.    

Como ocorre o processo de produção das peças da Chilaze dentro do Atelier? Me contem um pouco sobre a contratação de pequenos produtores. 

Contamos com uma equipe interna enxuta, mas afiada e estimulada, que trabalha e ambiente descontraído. Isso conta ponto. A produtividade acaba sendo alta por isso também, já que o bom humor se equilibra com a repetição de processos mecânicos. E otimizamos as etapas de produção de cada item, aliando os processos artesanais a um modo de agir industrial. Quanto aos pequenos produtores espalhados pelo Brasil e até pelo Peru, é um eterno garimpo de talentos, quase um trabalho de detetive, seguido pela construção de uma relação sólida que proporcione confiança de ambos os lados. E muita paciência, porque as diferenças culturais implicam em formas diferentes de proceder em muitos aspectos, inclusive no compromisso das entregas.  

Quais os próximos passos da marca?

Intensificar a promoção da diversidade, da valorização das inúmeras belezas femininas, estimular cada vez mais a convergência dos sexos e reafirmar da moda carioca como autoral, essencial para a identidade brasileira. Ampliar nosso leque de comunidades artesãs amparadas pela troca criativa, colaborando na divulgação de capacidades artesanais locais tão únicas. E, mais para frente, um projeto de franquia.

As peças estão disponíveis para compra no e-commerce do Atelier Chilaze.